Oeste

Rogério Leitão, Pescador Berlengas

Foi numa manhã estranhamente quente e solarenga, que apanhámos o barco e seguimos até às Berlengas. O mar estava tão calmo que quase nos esquecíamos do seu habitual balanço, e foi assim, que num piscar de olhos chegámos ao destino. A hora estava marcada, mas não havia ponto de encontro, contudo, esse facto não nos preocupava, porque já tínhamos percebido que por ali, todos conheciam o Rogério. Assim que desembarcámos, perguntámos por ele à primeira pessoa que vimos e seguimos em direção à sua casa. A noite anterior tinha sido de pesca e quando lhe batemos à porta, ele ainda descansava. Esperámos apenas alguns minutos e o Rogério apareceu, sorridente e pronto para nos abrir parte do livro da sua vida. Sentámo-nos num banco corrido à sua porta e seguimos com ele pelo comando.

O Rogério tem 55 anos e é pescador na ilha da Berlenga. Vive entre a ilha e Peniche, cidade onde nasceu e cresceu. O inverno continua a passá-lo lá, mas durante os outros 6 a 7 meses, muda-se para a Berlenga. No inverno vai e vem consoante a meteorologia permite. Pesca maioritariamente robalo, dourada, peixe-galo, pargo e sargo. Esta paixão pelo mar chegou pela mão do pai que tinha uma traineira da pesca da sardinha, e foi aos 14 anos que começou a trabalhar com ele. Reforça que isso aconteceu por opção sua e não por vontade dos seus pais. Eu andava obrigado na escola e desde miúdo que queria vir para o mar. Era o meu sonho e neste aspeto sinto-me um privilegiado porque faço o que gosto. Até aos 24 anos andou no mar, mas depois um problema na coluna obrigou-o a parar. Foi trabalhar para uma siderurgia no País Basco, depois regressou e abriu um restaurante em Peniche, trabalhou em bares e segundo ele, o currículo segue tão extenso como uma enciclopédia. Há 15, 20 anos – as datas não são o seu forte – regressou ao mar e esteve a trabalhar por conta de outro até há 7 anos atrás quando decidiu comprar o seu próprio barco. Era um dos sonhos da minha vida vir para aqui e ter aqui uma casinha e consegui concretizá-lo.

Entre Peniche e a Berlenga, Rogério não tem dúvidas e escolhe a ilha. Eu tenho uma ligação muito grande com o mar. Acho que a água salgada me corre nas veias. Hoje em dia pesca completamente sozinho, à cana e acredita ser esta a forma mais sustentável de o fazer. Assume essa preocupação, com a sustentabilidade, a preservação das espécies e a poluição marítima e acredita que esse pensamento já vai sendo mais comum entre os seus pares. Enquanto conversávamos, os barcos continuavam a chegar, carregados de pessoas, e Rogério partilhava connosco que agosto é o mês em que menos gosta de ali estar exatamente por essa confusão. Prefere dias mais calmos, quando tem a ilha quase só para ele, mesmo quando isso acontece em consequência de mau tempo. A força da natureza é um filme dos melhores que há, mas já fiquei aqui sem dois barcos e já tive um naufrágio no Baleal. Foram dois surfistas buscar-me e eu já estava quase do outro lado. A esse sítio nunca mais regressou, ficou ali um trauma, mas o bichinho do mar foi sempre falando mais alto. 

Hoje tem a certeza de que esta será a sua profissão até que o corpo lho permita, e essa certeza é tão forte que nos diz que isso já está escrito. Fazemos uma pausa na conversa e convida-nos a conhecer a sua casa. Um espaço com menos de 10m2, com uma pequena cozinha e o seu quarto, mas que parece ter tudo o que ele necessita, eu não preciso de mais do que isto, já tenho o melhor escritório do mundo ali fora. A sua casa segue numa linha de uma série de outras todas iguais, que foram ali construídas para servirem de abrigo aos pescadores. Quando lhe perguntamos se a sua mulher partilha desta paixão pela ilha, os seus olhos brilham, ela adora isto, aliás, foi ali na fortaleza que nos conhecemos. 

Apesar do contexto de pandemia, conta-nos que os valores do peixe têm estado consideravelmente altos e que hoje em dia compreende existir já um mercado específico para o peixe ali pescado, o que faz com que não vá sequer para venda em supermercados e com que siga diretamente para restaurantes de topo. A qualidade excepcional deste peixe, explica-nos Rogério, está ligada aos nutrientes da água, à constituição dos fundos e à própria alimentação dos peixes. Ali são apenas 11 pescadores, o que faz com que funcionem como uma pequena comunidade, onde a entreajuda é um espírito comum. A decisão de pescar à noite está diretamente relacionada com a questão das correntes, as fases da lua, e as horas em que os peixes se alimentam. No melhor dia deste ano, apanhei com um amigo, 210 kg de peixe galo. É um gozo incrível, parece que entramos em piloto automático, mas depois a excitação e a adrenalina são tão fortes que nem consigo dormir. Há mais de um mês e meio que não existe uma folga, e o cansaço começa já a fazê-lo sonhar com o inverno e uns serões à lareira. 

Esta conversa com Rogério terminou da única forma possível, com um passeio no seu barco, a que deu o nome de “Fé”. Enquanto nos contava alguns dos segredos da pesca, segredos esses que para sempre guardaremos em segredo, mostrava-nos também alguns dos recantos mais bonitos desta ilha. Por várias vezes referiu que trabalhar num lugar assim é de facto um privilégio e em nós ficou a certeza de que este será o seu eterno escritório.