Serra da Estrela

Paulo Romão, Casas do Côro

Por baixo de uma chuva miudinha que dançava à nossa volta consoante o sabor do vento, num dia onde as temperaturas nos roubavam a perceção da chegada da primavera, aterrámos nas Casas do Côro, na aldeia histórica de Marialva. Depois de uma longa viagem onde o mau tempo imperou, entrar naquele espaço foi como receber um abraço. A lareira estava acesa, a música envolvia a sala no volume perfeito e o Paulo estava sorridente à espera de nos receber. A decoração da sala onde entramos inicialmente e a da sala no primeiro andar, onde nos sentámos para dar início à conversa, pareciam combinar na perfeição, sofisticação e conforto, e foi nessa envolvência intimista, a média-luz, que embarcamos pela voz do Paulo.

Foi com apenas 19 anos, enquanto estudava Engenharia Têxtil em Inglaterra, que um evento súbito o obrigou a um regresso inesperado a Portugal. Corria o ano de 1985, e Paulo era apenas um miúdo quando se viu responsável pela empresa têxtil dos seus pais, sediada na cidade onde nasceu, na Guarda, e que contava nessa altura com 140 trabalhadores. Sendo de tão tenra idade, e vendo-se a braços com tamanhas responsabilidades, rapidamente percebeu que necessitava de um escape e foi assim, poucos anos após esse regresso, que se iniciou na competição automóvel. Foi piloto até 1995, momento em que, dado o nível que a competição começava a exigir, se viu obrigado a fazer uma escolha e decidiu deixar totalmente as corridas. Esse primeiro ano, em que perdeu o que havia sido o seu escape, foi um grande choque, mas felizmente surgiu na mesma fase uma coincidência feliz, que viria a mudar tudo. A sua esposa Carmen, com quem tinha casado quatro anos antes, tinha uma ligação a Marialva por parte da sua mãe, que ali havia nascido, e os seus pais decidiram nessa época que queriam construir ali uma casa. Paulo viu aí a oportunidade perfeita para uma nova ocupação e, durante mais de um ano, andou entretido com as obras da casa, onde rapidamente passariam a deslocar-se todos os fins de semana.

Eu tinha tido um acidente de ski, andava com uma perna toda engessada e precisava de espairecer. Então pedi à Carmen para me levar aqui ao Castelo e para me deixar lá 2 ou 3 horas e depois ir buscar-me, e foi nesse dia que nasceu a ideia das Casas do Côro. Foi durante essa tal deambulação de muletas pela aldeia que Paulo idealizou pela primeira vez,embora ainda de forma algo ingénua e embrionária, o que viria a ser o projeto onde hoje nos encontramos. A ideia inicial era comprar uma casa grande, mas percebendo que não existia nenhuma com essas caraterísticas o caminho seria comprar várias mais pequenas, e aí começou a saga. Embora não existissem ali quaisquer placas a indicar que algo estaria para venda, juntamente com um familiar que vivia ali e que conhecia toda a gente, começaram a bater porta a porta perguntando às pessoas se queriam vender. Num domingo, que terminou já noite adentro, não tendo discutido preços e tendo pago o que as pessoas lhe pediam, esse processo inicial estava terminado. No outro dia foi uma bomba na aldeia, diziam “apareceu aí um doido na aldeia que quer comprar as pedras todas e não paga mal.” 

Começaram apenas com três quartos e hoje, 21 anos depois, contam já com 31. O facto de serem muito autocríticos faz com que exista uma insatisfação constante e é isso que os motiva a trabalhar sempre mais, o que explica o facto de as obras serem sempre constantes. Nesta fase não tencionam crescer mais a nível de capacidade, mas antes criar espaços cada vez melhores, pelo que estão agora a transformar os primeiros quartos ali construídos em quartos com maiores dimensões. Para Paulo, as Casas do Côro tiveram a capacidade de se transformarem num destino, e isso muito se deve às experiências diferenciadoras que ali oferecem. Além das habituais, que de alguma forma necessitam de ter sempre disponíveis, são as menos convencionais que verdadeiramente distinguem os seus serviços. Os hóspedes que escolhem este local podem assim usufruir por exemplo, da Polaris Experience – que nasce obviamente da sua paixão pelas corridas – do Sunset Camionete, que inclui um passeio pelas vinhas ao pôr do sol, com muita música, numa camionete dos anos 60 transformada com bancos e mantas, dos Secret Spots, que são camas de madeira recicladas colocadas estrategicamente em sítios escondidos no meio da natureza, e a lista continua. 

Não é por isto de estranhar que tenham clientes que se foram tornando amigos e que tenham um nível de 65% de hóspedes fidelizados, que vêm 1 a 5 vezes por ano. Paulo partilha connosco, que a explicação para esse facto se prende com poderem identificar 5 registos diferentes em que as pessoas escolhem as Casas do Côro. Na primeira vez vêm sozinhos, na segunda com os filhos, na terceira com casais amigos, na quarta através de ações de team-building e finalmente para festas de família. Aqui as pessoas, além de encontrarem um sítio onde se sentem bem, conseguem adaptá-lo a todos estes moods. 
Hoje, a vida de Paulo e Carmen é meio nómada, entre a Guarda, Marialva e as muitas viagens, que apenas com a pandemia se viram obrigados a colocar em pausa. Mas é nas Casas do Côro, em Marialva, e totalmente embrenhados em todas as operações, que são realmente felizes. Quando amigos e pessoas próximas os questionam sobre como conseguem aguentar este ritmo alucinante de trabalho, eles conseguem facilmente explicá-lo pela grande paixão com que o fazem, o que faz com que nunca se cansem, ao mesmo tempo que se sentem sempre de energias no máximo. Sempre acreditámos no território e foi por isso que sempre ficámos. Quando estamos fora percebemos que é aqui que está o nosso equilíbrio e não é por acaso que o nosso slogan é “Life is here at Casas do Côro”. A vida aqui tem um encanto diferente porque é possível viver com muita tranquilidade e qualidade aqui.