Beira Baixa

Marlon Fortes, Bicho Carpinteiro

Num dia de calor tórrido, típico do mês de agosto, seguimos viagem até à Fábrica da Criatividade, em pleno coração da cidade de Castelo Branco. Este espaço deu uma nova vida a uma antiga fábrica de confeção têxtil, e é hoje um lugar de grande diversidade de produção cultural, desde o teatro, à dança, passando pela música, cinema, vídeo e televisão, design, artes gráficas, fotografia e arquitetura. É numa das oficinas no interior da Fábrica que nos espera o Marlon Fortes, ou o “Bicho Carpinteiro” como muitos já o conhecem. Ali entramos num universo dominado pelas madeiras e pelo cheiro confortável e familiar que elas libertam. Ferramentas de todos os tipos envolvem o restante espaço e é ali que nos sentamos para dar início a esta conversa.

A vida de Marlon, hoje com 44 anos, daria para encher muitas páginas de um livro. Nasceu em Cabo Verde, mas foi com apenas 3 anos que foi viver para a cidade do Porto. Assume que por volta dos seus 11 anos que vivia um momento de alguma rebeldia, e que foi pelo receio do que daí poderia vir que a sua mãe o “aconselhou” a ir passar umas férias a Cabo Verde. Chegado a São Vicente, apaixonou-se de imediato pelo território e pediu-lhe para ficar. Seria ali que acabaria por viver durante toda sua adolescência, São Vicente ajudou-me a definir a minha estrutura, foi um período muito importante. Foi também durante esses anos em Cabo Verde que descobriu o seu fascínio pelo mundo do teatro e que percebeu que queria ser ator, e foi para ir atrás desse sonho que regressou a Portugal para estudar, novamente para o Porto. 

Pouco mais de 1 ano após esse regresso entra no mercado de trabalho, mas desta vez em Lisboa. Aí começa uma vida de audições e de saltimbanco, seguindo caminho atrás das companhias de teatro, um pouco por todo o país. É também durante a sua imersão pela cidade de Lisboa que conhece Sara, uma história de amor à primeira vista e que hoje já conta 10 anos de casamento. Conhecem-se numa fase em que ambos partilhavam a vontade de mudar de vida e de abrandar o ritmo fervilhante da capital e é assim que vão morar para Torres Vedras. Nesta nova localização tentam implementar uma série de projetos mas as coisas acabam por não se desenvolver da forma que esperavam e decidem seguir caminho, desta vez para Castelo Branco. Mais uma vez não foram tão bem sucedidos como haviam planeado, mas os projetos acabaram por levá-los para perto, desta vez até Idanha-a-Nova, onde ficaram a viver durante vários anos. É em Idanha que nasce o projeto da “Marafona Encantada”, uma associação em que desenvolviam animações, peças de teatro, ATLs e aulas de ballet – área de formação da Sara. 

A chegada da pandemia acaba por fazê-los regressar a Castelo Branco e ao mesmo tempo, a ter de repensar o que seria o futuro. Comecei o projeto do “Bicho Carpinteiro” na altura do confinamento. O projeto nasce exatamente quando me puxaram o tapete. Então comecei a fazer um exercício, que é quando dispara o modo sobrevivência. Vamos apalpar terreno, ver quais são as minhas capacidades e o que está à minha volta para conseguir puxar a ponta do novelo. Foi o falecimento do seu sogro e a sua ida temporária para a zona de Mação com a família – Sara e os três filhos – que acabariam por trazer a resposta. Ao encontrar a oficina do seu sogro carregada de ferramentas, percebeu que poderia existir ali uma nova possibilidade, e foi assim que começou a construir as suas primeiras peças. Eu já estava num processo em que todos os produtos que apresentava eram impalpáveis, acontecia no momento e desaparecia, e estava com vontade de encontrar um processo que me ajudasse a materializar as coisas, e a carpintaria trouxe-me isso. 

Apesar de se ter apaixonado pela arte de trabalhar a madeira e de ter sido aí que começou a semente do projeto, sabia que precisava de conseguir aliá-lo ao mundo do teatro – foi assim que decidiu reparar coisas em casa das pessoas, mas com um nariz vermelho. Através do apoio de várias organizações e instituições locais, foi percebendo de que forma poderia tornar viável este projeto de carpintaria social e agora está pronto para ir para a rua. Ao longo da conversa a palavra “projeto” surge repetidamente. Torna-se assim evidente o quão Marlon é de facto um “bicho carpinteiro” no verdadeiro sentido da expressão. A minha cabeça é tipo pipocas. Eu não consigo ser uma coisa só. O Marlon tem de ser várias. Eu sou um autodidata, o que não sei aprendo. 
Pelo meio ainda nos falou de um projeto que iniciou para juntar a comunidade de palhaços, dar formação, criar um festival e uma bolsa de voluntários e poder fazer visitas a lares e centros de dia, outro em que enquanto ator dava vida a conteúdos programáticos para crianças através de vídeos, e a lista poderia continuar incessantemente. A energia que descobrimos em Marlon traz com ela a certeza de que nada o impedirá de continuar a realizar os seus sonhos, muito menos um “bicho”. A fúria de viver que emerge não só das suas palavras, mas da sua forma de estar e de ver a vida, tornam clara a sua natureza de criador, ou neste caso de construtor. Por outro lado, Castelo Branco parece ser de facto o lugar que encontrou para ficar. Eu continuo a mil, mas olho à minha volta e a natureza está mais perto, não me vejo fora daqui agora.