Ria de Aveiro

Luís Sousa Ferreira, Ílhavo

Foi no final de uma manhã solarenga de primavera que fomos até ao coração da cidade de Ílhavo ao encontro de Luís Sousa Ferreira. O ponto de encontro foi a Casa da Cultura, um espaço que, pela irreverência da sua arquitetura, não deixa ninguém indiferente, e que, apesar da sua contemporaneidade e arrojo, parece estar em perfeita comunhão com a atmosfera que o envolve. Esperamos uns minutos pela chegada do Luís, enquanto deambulamos pelo interior do espaço numa espécie de visita exploratória, onde todos os pequenos detalhes parecem dignos de alguma contemplação. O Luís aparece de repente, sem que consigamos perceber exatamente de que forma ali chegou, tal é a aura mistério do espaço, e é de olhar sorridente que nos recebe. Sentamo-nos numa mesa ao fundo do átrio principal, num lugar cheio de luz e é aí que damos início à nossa conversa.

Luís é um filho da hoje famosa aldeia de Cem Soldos, em Tomar, mas rapidamente percebemos que é também um filho do próprio centro de Portugal. Estudou Design nas Caldas da Rainha e depois, durante o seu percurso profissional, passou por outros lugares como Vila Velha de Ródão, mas também durante um período considerável por Lisboa. Agora, há já cinco anos, é programador cultural em Ílhavo, o que faz dele responsável por quatro espaços culturais, seis festivais e vários projetos pedagógicos de desenvolvimento da comunidade. A Casa da Cultura é um desses quatro espaços, juntamente com o Cais Criativo da Costa Nova, o Laboratório das Artes no Teatro Vista Alegre e a Fábrica das Ideias na Gafanha da Nazaré. Conta-nos que quando recebeu o convite para vir para Ílhavo estava a viver em Lisboa, em pleno Chiado, e que muitos o questionaram por não perceberem essa sua decisão, mas ele sabia que naquele momento, aquele era o caminho, o meu trabalho cria no lugar aquilo que eu preciso também para estar lá.

O projeto “23 milhas” foi criado por ele, juntamente com a equipa que ali o recebeu. A escolha do nome adveio da imagem simbólica da luz do farol, o maior farol de Portugal, e seguindo a mesma lógica de propósito. Precisamos de criar as dinâmicas culturais que proporcionam o ego e o sentimento de pertença. A partir do momento em que as pessoas têm o sentimento de pertença, vão querer lutar pela sua terra. A experiência que Luís teve enquanto um dos pensadores e criadores do Festival Bons Sons é algo que leva para todos os projetos nos quais embarca, não só pelos desafios mas acima de tudo pelas aprendizagens. A experiência do Bons Sons provou-lhe que esse sentimento de pertença, que lá sempre existiu, foi o que de facto permitiu que o Festival nascesse e crescesse daquela forma, e sem esse elo comum às pessoas da aldeia nunca teria sido possível. Por tudo o que Cem Soldos representa e sempre representou para ele, a sua ligação àquele lugar continua a ser total, apesar de agora viver em Ílhavo. Ainda ontem vim de Cem Soldos porque estou a criar lá um projeto cultural onde irei criar a minha empresa ligada à produção cultural, produção de eventos, mas acima de tudo, ao pensamento integrado entre o que é ser contemporâneo no espaço rural.

Apesar dessa ligação umbilical a Cem Soldos, que faz com que vá até lá com imensa regularidade, o que no futuro será ainda mais evidente com o estabelecimento desse seu novo projeto, hoje a sua residência principal é na cidade de Ílhavo. Conta-nos que vive nos “becos” e que adora poder viver num lugar assim, onde as dimensões de espaço público e privado se diluem e onde as pessoas se apropriam da rua, criando um espírito de vizinhança super interessante e dinâmico. No seu dia-a-dia, gosta de acordar cedo, começar o dia com um jogging e só depois iniciar as suas funções segundo a agenda do dia lhe dita, com a grande vantagem de poder fazer esse trajeto casa-trabalho a pé. Tenho a praia aqui ao lado, a Costa Nova com as emblemáticas casinhas às riscas, o espaço maravilhoso da Vista Alegre e a parte histórica da cidade. 

Para ele, uma das maiores vantagens de viver no Centro é o tempo. O facto de não perder horas infinitas no trânsito é tempo ganho não só para produzir, mas principalmente para pensar. Os recursos tecnológicos de que hoje dispomos permitem que tudo seja possível, seja qual for o ponto de que se parte, e onde muitos podem em forma de preconceito ver obstáculos, Luís sempre viu oportunidades. Não há razão para que um artista em Ílhavo tenha menos condições ou menos ambições que um artista em Lisboa ou em Paris ou em Nova Iorque. Tal como não sabia que um dia iria viver em Ílhavo, hoje também não sabe se é ali que vai permanecer. Essa ideia de mobilidade é algo que quer manter e que lhe interessa manter, embora consciente da pertinência de ter um lugar de pouso, onde possa sempre regressar para recarregar baterias. Vejo um futuro muito auspicioso no Centro, se pensarmos em Leiria, se pensarmos em Aveiro aqui ao lado, se pensarmos em Castelo Branco, se pensarmos na Guarda, em Coimbra ou Viseu, são cidades que têm tudo para dar e que serão novos centros. 

A diversidade que existe no Centro é um problema, mas um “bom problema” nas suas palavras, um daqueles que nos obriga a ser melhores e a pensar e fazer diferente. Ao longo de toda a conversa, foi evidente a paixão que tem por este território e o quanto vê a sua profissão como uma forma de contribuir para ele, reforçando, em todos os momentos, o papel imprescindível que a cultura tem para esse resultado, em comunhão com as pessoas que nele vivem e trabalham. Na despedida deste encontro, levou-nos a passear pelas ruelas de Ílhavo, por esses tais becos a que hoje chama de Casa, e se a agenda nos tivesse permitido ainda agora lá estaríamos a ouvi-lo, presos à fluidez do seu discurso e à poesia que carrega nas suas palavras.