Viseu Dão Lafões

Lígia Santos, Caminhos Cruzados

O nosso carro curvou para a estrada de terra batida que nos conduziu ao edifício da Caminhos Cruzados, a nova adega que cruza a produção de vinhos com a cultura. O edifício, desenhado pelo arquitecto Nuno Pinto Cardoso e inaugurado em 2017, rasga um “x” elegante e moderno na paisagem e marca onde se faz o novo Dão. É palco de experiências que se elevam para lá da arte da vindima e que a casam com a literatura, com a música e, acima de tudo, com as pessoas.

Lígia Santos recebeu-nos com o jeito determinado com que encara os dias e a vida. O pai é de Nelas e a mãe de Vilar Seco, Lígia nasceu em Viseu e viveu em Nelas até aos dez anos. Esta foi a terra que a viu crescer até ir para o Porto, onde fez a adolescência e a licenciatura em Direito. Quando terminou o curso, a vida levou-a para Lisboa para fazer mestrado e depois para trabalhar numa conhecida sociedade de advogados. Confessou-nos que a capital nunca a encantou mas foi lá onde conheceu o marido e onde viveu até regressar às origens, não fosse o seu caminho um dos que se cruzaram com o vinho e com o Dão. 

A história que nos interessa começa em 2012, numa altura em que os pais de Lígia começaram a dar mais atenção a Nelas e às vinhas. “Vem com a idade, começamos a olhar para as nossas origens, começamos a passar mais tempo por cá.” A Caminhos Cruzados nasceu à mesa de uma família muito unida e envolvida em cada detalhe do projeto, das vinhas às provas, dos rótulos ao nome. “Não é difícil apaixonares-te por uma coisa que te diz tanto, no sítio onde nasceste e que os teus avós criaram.”

Esta paixão foi seguindo em segundo plano até que uma viagem mudou tudo. “Este não era o negócio principal do meu pai e ele lá se encheu de coragem e lançou-me o desafio de me dedicar a tempo inteiro ao vinho. Foi numa viagem de férias que o assunto começou a fazer sentido na minha cabeça. Senti um apelo forte, só assim pensaria em despedir-me, largar tudo o que tinha estudado nos últimos anos e assumir esta responsabilidade. Nessa viagem definimos os contornos da nossa colaboração, trabalhar com família podia ser desafiante.” Foi para Nelas na vindima de 2014 e, desde  então, nunca mais fez nada relacionado com direito e nunca mais largou o vinho.

Com a mesma agilidade com que passou das leis para as uvas, Lígia é mulher de muitos interesses. Em si, cruza o olhar vivo, a pergunta na ponta de língua e a criatividade com que harmoniza decisões. “Quando vim, decidi que tinha sempre de ter um espírito muito aberto e nunca ficar travada pela vergonha de fazer perguntas. No vinho há muita coisa que gosto. Nunca me passou pela cabeça fazer enologia mas gosto muito de sentir que o vinho, como os livros e as histórias, é um processo criativo. Num momento, quis fazer um vinho comemorativo, que fosse uma festa engarrafada, um vinho que ao abrir fosse exuberante no nariz mas não fosse cansativo na boca, que fosse um vinho engarrafado em magnum para beber com muita gente. Este processo foi uma coisa que me atraiu desde o início.”

Este encanto pelo Dão é tão natural quanto a relação umbilical com este território que Lígia conhece bem e onde se fez gente. “O Dão é uma região muito tradicional, das primeiras regiões demarcadas do país, muito antiga e com muita história. Quando começámos este projecto, apesar de sermos daqui e termos raízes profundas, não tínhamos tradição no vinho. Não queríamos fingir que fazíamos isto há muitos anos, então sentimos que podíamos seguir o caminho que nos parecesse bem naquele momento. Essa liberdade foi fundamental para não repetir ou perpetuar algumas coisas que identifico como erros na região mas que entendo porque outras casas têm uma história e precisam de respeitar o seu percurso.”

Nelas teve vários significados ao longo da vida mas hoje significa o regresso a casa. É um meio pequeno, Lígia vai a qualquer lado e há sempre quem conheça a família, a avó, o pai. Se antes queria estar num sítio onde se sentisse anónima, esta familiaridade no quotidiano tornou-se um aconchego importante que a devolve a este sítio. “Quando entrei na Caminhos Cruzados, grande parte dos nossos funcionários eram pessoas que me conheciam de toda a vida e ainda hoje trabalho com muita gente que cresceu comigo.”

Lá atrás, em 2013, Lígia não achou que se ia mudar para Nelas, o plano estava pensado para idas e vindas de Lisboa. A pandemia foi o pretexto que fez com que se instalasse com a família a 500 metros da adega. O dia-a-dia é muito simples e costuma começar com uma viagem de bicicleta para o trabalho, pelo meio das vinhas, a ver a natureza acontecer manhã após manhã. O filho vai começar a ir à escola onde andou e o marido trabalha no andar de baixo. “Temos uma vida perfeitamente normal, temos tudo aqui. Encontramos lojas e negócios pequenos que resolvem os problemas de uma forma muito mais rápida. Aqui as pessoas têm nomes, passam a conhecer-nos, criamos essas relações. Não quero demonizar a cidade mas estou mesmo feliz aqui.” Os finais de tarde são preenchidos com piqueniques, passeios ou outro programa mais convidativo. “A vida passa-se de uma forma mais calma e mais em comunhão, entre as pessoas e entre as pessoas e o espaço. Tenho mais tempo. O tempo parece que se comporta de maneira diferente.” A vida na vila tem uma porta escancarada para o mundo, com a quantidade de pessoas que conhece através do enoturismo.
Lígia sempre foi uma pessoa bastante contemplativa e em férias gosta de procurar sítios sem gente, como se fosse no silêncio e no resguardo que balança a energia com que contamina o futuro. “Ontem cheguei a casa com o meu filho e era de noite, estava mesmo escuro. Adoro ver o céu estrelado e o meu filho ficou impressionado com a quantidade de estrelas. Se todos os dias olhar para o céu, todos os dias acho extraordinário. Na adega também temos isto, saltamos o terraço e vamos para o telhado. É impossível não parar para olhar em volta e pensar no privilégio. Quando moras numa zona assim, dás-te essa oportunidade. Na cidade tens tantos estímulos e tanta pressa, o ritmo muda, não estás tão disposta a ver e a conversar.”