Ria de Aveiro

José Oliveira, Moliceiros

Foi em pleno Cais da Béstida, na vila da Murtosa, já ao cair da tarde, que nos fomos encontrar com o José Oliveira. Era deste cais que partiam, rumo à Torreira, as embarcações que transportavam mercadorias e pessoas, antes da Ponte da Varela em 1964, estabelecendo a ligação física entre as margens nascente e poente da Ria, e onde hoje existe um porto de abrigo para pescadores, construído em 1999. Além da praia fluvial e do cais, apenas um restaurante típico ali existia, conhecido na região pelas enguias, e foi aí que nos sentámos para conversar, longe da ventania desconfortável e ensurdecedora que se fazia sentir na rua. 

Embora o seu contexto familiar e a sua localização geográfica tenham contribuído para que os moliceiros fossem desde sempre parte da sua vida, José trabalhou 17 anos enquanto traçador planificador nos “Estaleiros Navais de S. Jacinto, em Aveiro, até tomar a decisão de se dedicar a 100% a este ofício. Desde 1989 que é responsável pela pintura da maioria dos painéis de barcos moliceiros existentes na Ria de Aveiro e foi por isso, que o Município da Murtosa decidiu homenagear o seu percurso criativo com a publicação de um livro “Memórias – 30 anos a Pintar a Ria”. O livro reúne o seu extraordinário espólio documental, com registo em fotografia dos mais de 600 painéis de barcos moliceiros por si pintados. Ao longo destes mais de trinta anos, o Mestre José Oliveira foi já várias vezes premiado em concursos de pintura e escultura e está representado em várias coleções dispersas por Portugal e diversos países do mundo.

José vê na linguagem brejeira impressa nos moliceiros um repositório de história e de estórias, de tradições e de uma parte importante da nossa identidade e cultura popular. A pintura dos painéis é, assim, uma forma de recuperar memórias e de criar uma espécie de galeria flutuante, mas além desse tributo ao passado, há hoje em dia também um cuidado em ligar essas mensagens às temáticas do tempo presente. Eu no fundo sou duas pessoas diferentes, o José Oliveira e o Zé Manel e quando o Zé Manel chega à beira da ria para pintar os moliceiros não há José Oliveira e vice-versa. Apesar de ser neto de moliceiro e de estar ligado a estes barcos há mais de trinta anos, só por uma vez andou num deles e o barco foi ao fundo, pelo que nunca mais o repetiu. 

Parte da sua família vive emigrada entre a França, a Alemanha e os Estados Unidos. A vida dos moliços era muito dura, instável e pouco rentável, o que justifica essa grande massa de emigração nesta zona. Embora a ideia de emigrar lhe tenha passado pela cabeça, admite que gosta demasiado de viver neste território para que o conseguisse alguma vez deixar, e felizmente trabalho nunca lhe faltou. Gosto mesmo muito de viver aqui. Gosto das pessoas, da terra, da natureza, dos pescadores. 

Quanto questionado sobre o futuro dos moliços, numa perspetiva de que essa arte possa estar à beira do fim, a sua resposta é firme e peremptória, eu costumo dizer que vão acabar primeiro os barcos que os mestres. Há sempre alguém que vem a seguir. É como a história do velho oeste – há sempre um pistoleiro mais rápido do que o outro e que aparece depois. Por outro lado assume que um dos próximos passos, e provavelmente o mais importante, será o de tornar os moliceiros uma embarcação histórica e de interesse a nível internacional. Esta mudança facilitaria a enorme carga burocrática que se foi adensando nos últimos anos para a construção destes barcos e traria o reconhecimento que tanto merecem. 

Conhecer José Oliveira trouxe-nos mais do que a história de vida de um artista plástico, trouxe-nos uma viagem aos primórdios desta já tão longínqua tradição e da forma bonita como ela nos é pintada nas palavras de José. Não assistimos a uma das famosas regatas, mas navegámos de tal forma nas suas descrições que foi fácil sentir como se lá tivessemos estado em carne e osso. Não conseguimos ver o futuro dos moliceiros com a mesma clareza com que José o assume, mas parece-nos certo de que enquanto o José estiver capaz, continuaremos a ver esta arte a desfilar sobre estas águas.