Região de Coimbra

Gonçalo Cadilhe, Escritor de viagens

Pedimos a Gonçalo Cadilhe que nos indicasse o melhor local para nos encontrarmos e a resposta veio pronta, seria no Cabo Mondego, na Figueira da Foz, um sítio mágico que nos abraça entre a Serra da Boa Viagem e o Atlântico.

Gonçalo calcorreou os caminhos da sua história com a mesma agilidade com que já se perdeu e encontrou por todo o mundo. Nasceu na Figueira da Foz em 1968, esperava-se dele que tirasse um curso superior, na altura não existia nada que se parecesse com jornalismo ou literatura de viagens. “Meti-me em contabilidade como podia ter ido para eletrotécnica ou construção civil, fui andando no ramo das economias e, quando chegou o momento de ir para a Universidade, escolhi Gestão de Empresas, na Universidade Católica do Porto, que tinha imensa saída.” Ainda teve uma breve experiência profissional na área do marketing mas a vida acabou por convidá-lo para outras paragens.

No início dos anos 90, em Portugal, havia escassez de reportagens de viagens. Publicou a sua primeira reportagem, dedicada ao México, no número de Fevereiro de 1992 da extinta revista Grande Reportagem, dirigida por Miguel Sousa Tavares. “Naquela altura, ninguém viajava, ninguém se lembrava de escrever sobre viagens. Eu já tinha aberto essa porta, já estava a publicar reportagens de viagens, tive de pesar entre um emprego seguro ou escrita de viagens. Fui por aí e correu bem.”

Gonçalo começou a viajar e a escrever sobre viagens de forma profissional a partir de 93. O primeiro livro foi o Planisfério Pessoal que descreve uma volta ao mundo que decorreu entre 2002 e 2004, inspirado pelos relatos que ouviu enquanto cresci na Figueira da Foz nos anos 80. “Eu comprava o material de surf e falava com esta malta das Kombi, australianos, sul-africanos e californianos que andavam a fazer uma volta ao mundo, o gap year. Desembarcavam em Heathrow e, à saída, havia um mercado de venda e compra de kombis em segunda, terceira mão ou quarta mão. Iam juntando-se em grupos de 4, compravam a carrinha e vinham em agosto para apanhar a temporada de surf. Em setembro estava muito bom em Biarritz, outubro era no País Basco, aqui [na Figueira da Foz] em novembro e depois seguiam para Marrocos.”

Gonçalo decidiu apresentar uma ideia ao jornal Expresso, de publicar semanalmente crónicas da sua viagem. “Já andava desde 92 a publicar regularmente em todos os órgãos de imprensa importantes em Portugal, o meu nome já era conhecido no meio. Isto pareceu genial, era a primeira vez que o e-mail dava esta possibilidade de continuidade. Todas as semanas, até quinta-feira, mandava o material, texto e fotografias, para ser publicado na semana seguinte. O país todo, que seguia o Expresso, sentia que aquilo era em tempo real, que acompanhava o que se estava a passar, onde estava.” Não foi apenas esta nota de continuidade que desbravou a escrita de viagens em Portugal. “A segunda grande ideia, que era quase uma questão ética, era não viajar de avião, que isso toda a gente faz. Foram duas ideias na altura certa.”

Hoje em dia, Gonçalo é o escritor de viagens português mais reconhecido mas, para cá chegar, percorreu os caminhos  difíceis do seu trabalho, como se soubesse que a sua própria viagem pela vida marcaria tantas outras. “Eu sabia perfeitamente que lá fora se viajava imenso quando em Portugal nem havia dinheiro para ir para a praia. Lá fora, existiam revistas, livros e livrarias apenas de viagens, cá não havia nada. Estava a construir uma carreira de que décadas mais tarde tinha de me orgulhar. Tinha de lhe dar substância e uma densidade cultural, houve sempre uma necessidade de eu não ficar satisfeito onde tinha chegado.”

Demorámo-nos a saber mais sobre a vida aqui, na Figueira da  Foz, em tempos considerada a rainha das praias portuguesas, com 34 quilómetros de areal e mar que guardam séculos de histórias de tantos viajantes, famílias, amigos e surfistas. “Os meus pais são do norte, vieram trabalhar para aqui, eu nasci e cresci aqui. O surf é maravilhoso o suficiente para sentires orgulho pela camisola, para sentires que foste um privilegiado por seres considerado um dos boys, um local, como se diz no surf. Fui escuteiro a partir dos 8 anos, andávamos 15 minutos a pé e já estávamos na serra, nas dunas, nos campos do mondego, horizontes abertos, cresci  habituado a mudar regularmente de espaços. Gosto da dimensão da cidade, não é grande nem pequena, é média, metes-te no comboio e na autoestrada e estás onde quiseres. Se uma pessoa vive na Figueira e pode usufruir das coisas boas que a Figueira tem, é um lugar que pode rivalizar com muitos outros.”

Como está estudado pelos geógrafos, a Figueira da Foz está na linha de divisão dos dois climas em que se divide Portugal, existe um clima a sul, mediterrânico e magrebino, e um clima a norte que nos faz recordar quase sempre o Cantábrico, a Irlanda e Inglaterra. Certamente que existem outras zonas do país com um clima mais constante mas Gonçalo acrescenta um ponto: “essa certeza acaba por jogar contra a beleza ou o misticismo dos lugares porque traz muita gente. A Figueira tanto tem dias miseráveis como os da Escócia e depois tem dias que parece que podias estar no Mediterrâneo. Essa inconstância, quando vives cá, quando esses dias chegam, é uma alegria, eu gosto dessa coisa na Figueira porque também repele o excesso.” 

Junto de quem é tão conhecedor de tanto canto e recanto onde se podem (re)construir futuros, onde se podem assentar arraiais por um pedaço de tempo ou por uma temporada, quisemos saber o que pode fazer alguém escolher a Figueira da Foz. “Eu acho que aquilo que a Figueira tem de diferente e único é mesmo a questão do surf. Quem faz surf informa-se, não vai ao engano, ninguém se deixa enganar com a ideia do paraíso por causa da qualidade das ondas. Os lugares no mundo com ondas de qualidade estão de tal maneira esgotados que a Figueira tem essa coisa muito boa: quando está bom para o surf na Figueira, está também bom em Espinho, na Ericeira, na linha, por isso as pessoas não vêm para cá, cada um fica no seu lado, e para um nómada digital que quer ser integrado, é importante ser aceite e a Figueira é um óptimo lugar. Com as vias de comunicação que há hoje, se quisesse viver em Portugal dois meses, facilmente vinha para a Figueira para poder exponenciar a minha temporada cá, é um óptimo local para fazer a minha bucket list de Portugal a partir daqui.”

Demos mais uns passos e fomos abrindo caminho para chegarmos à reta final, o desvendar do derradeiro mistério. Estávamos intrigados com este escritor de viagens que já atravessou oceanos em cargueiros, escalou o monte Ararat, subiu o Amazonas em balsa local, apanhou boleia de iate para a Colômbia, fez trekking no Caminho Inca, explorou os templos de Angkor e decidiu viver na Figueira da Foz. Porquê?

As partilhas de episódios das viagens permitiram-nos identificar muitos destinos sedutores para uma vida saída de um sonho mas Gonçalo pertence aqui mais do que a qualquer outro lado. No livro “Um quilómetro de cada vez” escreveu sobre a ideia (errada) de que a pessoa que viaja pode escolher o sítio onde quer ficar. “Acho que é uma ideia muito americana, muito de novo mundo. Há uma estatística que diz que o americano médio ao longo da vida muda 13 vezes de cidade, 4 vezes de estado. Se calhar, para alguns povos, que não têm uma História, essa falta de raízes é fácil. No caso europeu, e concretamente português, acho que somos obrigados a ser felizes onde temos as nossas raízes. Já estive em lugares maravilhosos e descobri que não conseguimos ser felizes fora do lugar onde está a nossa ideia de felicidade e a nossa ideia muitas vezes não somos nós que a construímos, vem de trás.” Explicou-nos que as raízes têm a ver com os amigos de infância, as  memórias com os pais e família, mas também com coisas mais profundas que nem sempre apreciamos devidamente como a existência de quatro estações que são típicas de certas latitudes como a nossa, a cozinha, o sentido de humor.

“Há tantas coisas que te obrigam a ser feliz onde estão as tuas raízes.”