Região de Coimbra

Filipe Albuquerque, Piloto de automóveis

O encontro estava marcado para um banco de jardim da Mata Nacional do Choupal. O dia primaveril convidava a uma conversa descontraída, bem à imagem de Filipe Albuquerque, piloto profissional de automóveis nascido e crescido em Coimbra.

Esta história é digna de guião hollywoodesco, de um menino com sonhos grandiosos que se tornou num dos melhores atletas do mundo na sua modalidade. A paixão pelo automobilismo começou em 1993, quando Filipe experimentou um kart pela primeira vez, no Kartódromo da Batalha. Foi  iniciativa do pai que queria tornar o karting num hobby dos filhos e bastou a primeira experiência para que os fins-de-semana começassem a ser preenchidos com dias que esticavam horas de diversão nas pistas. Os karts já estavam preparados de véspera, no atrelado, o pai já tinha tratado da gasolina e do ar nos pneus, e lá seguiam todos, em família, pelas estradas nacionais.

A estreia em competições aconteceu em 1994. “Tinha acabado de abrir a pista nos Milagres, em Leiria, e eu e o meu irmão participámos no campeonato regional. Lembro-me que acabei a minha primeira corrida em 3.º, super chateado porque o meu irmão ganhou.” A partir de 95, os dois começaram a participar no campeonato nacional, em categorias diferentes. “Estes fins-de-semana eram passados em família, com amigos dos meus pais, de Coimbra, e rivais. Fomos fazendo amizades pelo resto do país. Havia um ambiente especial entre todos, uma grande afinidade entre as pessoas e passávamos muito tempo juntos. De manhã ao final da tarde, estávamos sempre a pôr gasolina no kart e dar corda ao motor para andarmos. Nas pausas para o almoço jogávamos à bola, o ambiente era muito relaxado e até podíamos andar no meio da pista a ver os outros pilotos a andar.”

A carreira, orientada pelo pai, começou a ganhar corpo quando Filipe integrou uma equipa de karting que estava a dar cartas em Portugal. “Foi a partir desse ano [de 1998] que passei a ser um dos pilotos da frente. Fui vice-campeão nacional e ganhei a Taça de Portugal na categoria Iniciados.”

Seguiu-se um encontro feliz, dos que mudam vidas e destinos. Conheceu os irmãos Nuno e Pedro Couceiro, foi correr para a Couceiro Júnior Team e de lá seguiu para Itália, aquela que sempre foi a referência no karting a nível mundial. Tornou-se piloto profissional de karts aos 17 anos, uma conquista que chegou de mão dada com os desafios da responsabilidade e as dores de crescer longe da família. “Vivia no Norte de Itália, em Desenzano, nas traseiras da fábrica, num apartamento para pilotos. Acordava às 7h para estar às 7h30 a montar karts, preparar as corridas e ajudar a equipa, trabalhava até às 18h todos os dias. Era um empregado a tempo inteiro, fez-me crescer bastante. Tive de me adaptar a viver sozinho num país diferente e aprender outra língua. Foi uma altura muito difícil, o meu pai tinha sobrevivido a um aneurisma mas ficou tetraplégico, tudo era diferente na minha família, de quem eu estava tão distante. Foi muito duro estar longe do meu pai, deixei de ter os conselhos dele, de saber o que devia fazer.”

Conversámos sobre a escalada profissional, feita de trabalho, muita pressão e algumas coincidências, umas felizes (e outras nem tanto). Filipe foi saltitando entre os momentos decisivos que guarda com a vivacidade de quem gosta de se demorar nos detalhes. Fizemos marcha-atrás, até ao ano de 2005, o primeiro contacto a sério com os fórmulas em que foi  o melhor piloto estreante em três campeonatos, a Eurocup, o Campeonato Alemão de Fórmula 2.0 e a Fórmula 3 espanhola e os sucessos que se seguiram até ser piloto de testes da Fórmula 1 para a Red Bull e Toro Rosso. Falámos de desilusões e de jogadas de bastidores que obrigaram a desvios e reajustes nas expectativas, nas oportunidades.

O mundo das corridas de resistência abriu-se em 2013, com a primeira participação nas 24h de Daytona que se resumiu a veni, vidi, vici (ir, chegar e vencer). Em 2014 foi premiado como o melhor piloto  estreante das 24h de Le Mans e os últimos anos de corridas têm consolidado o seu perfil como um dos melhores pilotos do mundo – e não somos nós que o dizemos, a constatação é feita pela imprensa internacional.

2020 foi um ano denso nas emoções e marcado pela perda do pai. Também foi uma soma impressionante de feitos: Filipe ganhou as 24h de Le Mans, o campeonato europeu de resistência, o campeonato do mundo de resistência e recebeu  ainda o Prémio de Excelência na primeira edição da sua criação. Estas conquistas levaram-no ao Palácio de Belém onde foi condecorado pelo Presidente da República e ainda à Assembleia da República onde mereceu um voto de louvor perante uma audiência que o aplaudiu de pé. “Foi exatamente a seguir à morte do meu pai que todos estes resultados começaram a surgir, senti que a vida tira de um lado e põe no outro.”

Filipe tem o dom de falar do escuro dos dias com uma tranquilidade que lhe chega do sítio que o viu nascer e que lhe amarra os afectos. Em boa verdade, depois de horas em que viajámos por todo o mundo, no assento do lado das memórias, abrimos os olhos para os verdes da mata que nos rodeava, para a calma daquele local que abranda ritmos e recentra mentes. “Cada pessoa tem as suas raízes, diz-me muito crescer e ficar ligado às minhas origens. Apercebi-me mais disso quando comecei a ir para fora, são razões que nem sempre consigo explicar. O que é certo é a qualidade que esta cidade me dá, é aqui que encontro o meu bem-estar, carrego energias. Tenho uma vida muito ocupada, o percurso contado ao minuto, corridas que começam às 15h07, reuniões às 9h04. No resto do tempo, gosto de ter sossego, de estar relaxado com a minha família e viver os dias com o ritmo que quero. Aproveito os finais de tarde com a minha família, tenho mais tempo aqui do que teria noutro sítio.”

A vida de Filipe anda a duas velocidades bem diferentes, quando vai para as corridas ou quando fica por esta cidade que é mais que casa, é alicerce da sua maneira de ser. “Houve uma altura na minha vida em que me mudei para Lisboa, estava mais próximo do aeroporto, aparentemente seria tudo mais simples. Mas o tempo que perdia a ir ao ginásio, o trânsito, o stress constante, aquele frenesim. A certa altura, percebi que aquele não era equilíbrio nenhum, não me fazia verdadeiramente feliz. Falo muito da calma e do sossego porque é mesmo essa a minha necessidade, é algo que valorizo muito.”

Este amor profundo à cidade é inteiramente retribuído. “Levo Coimbra no capacete, é a minha cidade, apoia-me, corro com ela no coração. Muitos colegas comentam “quem me dera que isso acontecesse comigo, que a minha cidade me apoiasse”. Isto mostra o carinho que a cidade tem por mim e que eu tenho por ela, tento dar o meu contributo para que lá fora percebam a elevação do sítio de onde venho. Corro nos EUA e há muita gente que olha para Portugal como um destino de turismo mas também quando pensam em mudar o seu estilo de vida. A minha cidade entra para uma dessas opções.”

Na rua, no supermercado, num restaurante, as pessoas vão-se metendo com Filipe, desejam-lhe sorte e dão-lhe ânimo mas nunca o incomodam nem perturbam o treino. “Sinto-me muito acarinhado pelas pessoas que me reconhecem e que têm sempre palavras de encorajamento.”

Como pai de família, a qualidade da educação e o acesso à saúde também foram fatores determinantes para viver em Coimbra mas nunca irá condicionar as filhas para que lhe sigam os passos na escolha do sítio onde vivem. “O importante é que sejam felizes, é importante que conheçam o mundo até para darem valor ao que têm, a opção será sempre delas. A minha opção foi voltar, é aqui que sou feliz e onde me sinto bem. Coimbra é onde eu pertenço.”