A imagem idílica da vida no campo – realidade ou mito?

Não é segredo para ninguém que no contexto da pandemia e principalmente no seu pós, se iniciou uma movimentação natural dos lugares mais populosos para os de menor densidade. A experiência de um confinamento dentro de uma grande cidade, as janelas com vista apenas e só para outros prédios, a poluição e a ausência de contacto com a natureza, criaram em muitas pessoas o desejo de uma fuga para o campo. A ideia desse escape é claramente uma consequência de uma visão romântica do que pode ser a experiência de viver no meio da natureza, mas para muitos a dúvida persiste sobre a veracidade dessa visão. 

A experiência da construção das dezenas de Histórias deste projeto, onde tantas dessas mudanças nos foram relatadas na primeira pessoa, deu-nos imenso material de estudo e as conclusões foram tornando-se cada vez mais evidentes. Assumindo que nunca existem cenários perfeitos e que todas estas mudanças pressupõem certas cedências, o que foi bastante claro em todos os momentos, foi que a balança pende sempre mais para as vantagens dessa transição. As que mais vezes surgiram envolvem uma sensação de se ter mais tempo, a possibilidade de criar uma horta e de ter animais, casas maiores e a menores preços, um novo sentido de pertença e de comunidade e no geral, ou na junção de tudo isto, uma maior qualidade de vida. 

O fôlego que vemos impresso nessas descrições é inequívoco da sensação de paz e tranquilidade que se pode extrair desses lugares, e ao mesmo tempo – e este argumento foi também partilhado por muitos – é altamente potenciador para a criação, a criatividade e o surgimento de novas ideias e projetos. O dia a dia muitas vezes caótico das grandes cidades, onde as últimas horas do dia após o trabalho se esgotam em filas de trânsito, faz com que persista em muitos, uma sensação de pequenos hamsters a correr numa roda. Nesse sentido, para todos os que escolheram começar novos capítulos em moradas menos povoadas, é recorrente o sentimento de um certo reencontro com o eu. Como se a ausência de estímulos e impulsos constantes fosse o segredo para se ouvirem mais e para melhor cuidarem de si.

Desconstruindo o mote para esta reflexão, todos os indicadores apontaram na mesma direção, viver no campo é de facto idílico. Idílico no sentido de poder parecer de facto um sonho e de ter uma poesia natural que lhe é inerente, e não no sentido de ser utópico. Se esta tendência começa a ser natural, o mesmo se passa com a transformação destas pessoas em verdadeiros embaixadores destes territórios. Pessoas que na grande maioria das vezes não detêm relações familiares nem raízes nesses lugares, mas que pela vivência dos mesmos os começam também a sentir como seus. Nesta nova era onde a tecnologia e as novas metodologias de trabalho permitem que em muitas áreas se possa trabalhar a partir de qualquer lugar, é apenas de prever que estas mudanças se tornem cada vez mais comuns, e que esta seja a tendência do futuro.

Filipa Assunção, Cooperativa – Cowork das Aldeias de Montanha – Lapa dos Dinheiros

A Filipa é aquilo a que podemos chamar uma alfacinha de gema. Nasceu e cresceu na capital e mesmo no momento de seguir para o ensino superior, foi por lá que ficou, tendo feito a sua licenciatura em Ciências da Comunicação na Universidade NOVA. Depois de ter passado por várias agências de marketing e publicidade, hoje, com 29 anos, assume funções na área do e-commerce de uma multinacional desportiva. Apesar de pelas suas circunstâncias podermos de forma natural assumir que é uma pessoa mais citadina, rapidamente esse pensamento se desvanece pelo seu discurso. O seu habitat natural e que gostaria de privilegiar sempre é ao ar livre e no meio da natureza, preferencialmente com a montanha bem por perto. Por esta razão não é de estranhar que sinta um fraquinho tão grande pela região Centro, apesar da total ausência de raízes familiares no território. 

Eu sou de Lisboa, a minha família é toda de Lisboa e nesta altura do Natal em que todos vão para a terra, eu sinto como se não tivesse terra. Apesar de obviamente gostar das muitas vantagens que também encontra na vida da cidade, a verdade é que sempre que a oportunidade surge, foge para o campo.  Sou uma pessoa completamente outdoor, faço muitos desportos de montanha, por isso passo a vida ou a escalar, ou a conhecer novos trilhos e ferratas. Além de obviamente gostar da sensação de ar puro, o seu maior impulso é a paixão pelo turismo de natureza. Aliada a essa paixão, assume também um enorme fascínio por conhecer novas pessoas, e pelas tradições e costumes tipicamente portugueses. É aqui que surge a ligação óbvia com a região Centro, onde adora perder-se mas também desfrutar de diferentes experiências gastronómicas. Normalmente quando há um colega novo na empresa e que chega de uma localidade que ninguém conhece eu sou aquela pessoa que diz “sim sim, eu já lá estive, tem uma cascata, tem isto, tem aquilo”. 

Habitualmente as suas escapadinhas para o interior aconteciam apenas quando as férias assim o permitiam, mas agora que trabalha em regime híbrido, só tendo de estar dois dias presencialmente no escritório, pode finalmente alargar esses momentos. Foi assim que em Agosto do ano passado decidiu rumar à Serra da Estrela para fazer algo com que há muito sonhava, a “Rota da Transumância”. Marcou a estadia em Seia e o passo seguinte foi descobrir que locais poderia usar para trabalhar. Descobri o coworking da Lapa dos Dinheiros, mandei um email e no dia seguinte tinha uma resposta. Quando lá cheguei fiquei super surpreendida. O espaço está extremamente bem decorado, adorei os pormenores do uso do burel, a cozinha, e está super acolhedor, senti-me mesmo em casa. E na minha hora de almoço ainda aproveitei e fui à praia fluvial dar um mergulho. Apesar da rota ter sido cancelada pelo pico de calor que se fez sentir nessa altura, toda a restante experiência foi tão boa que automaticamente ficou a promessa de voltar. Depois confesso que fui procurar e já fiz assim um roteirinho de espaços de cowork, com sítios onde gostava de ir. 

Na zona Centro conhece particularmente bem a zona da Lousã pelas caminhadas, a Ecovia de Viseu, Dão Lafões, e mais uma série de outros lugares perfeitos para trilhos e atividades de geocaching. Eu também não sou tanto de praias, sou mais de montanha, de rio, de lagos, portanto é mais essa área que conheço. Depois também vou muito pelas tradições ou por eventos regionais que vou vendo que surgem e que gosto de ir, como por exemplo, o Festival dos Míscaros no Fundão. A flexibilidade que o teletrabalho lhe veio trazer proporcionou todas estas possibilidades, e isso faz com que já não se consiga imaginar de todo a trabalhar num escritório de segunda a sexta. 

O futuro é ainda uma grande incógnita, mas quando o lado profissional estiver mais estabilizado – isto é, quando tiver a certeza se se manterá o regime híbrido – a ideia é sair de Lisboa. A vontade de comprar a sua primeira casa cresce e com ela o desejo de poder estar finalmente num meio mais sossegado e onde a natureza vence o domínio do cimento. Até lá, aquilo que tem absoluta certeza é de querer continuar a conhecer novos lugares, novas pessoas e vivências, e a estar sempre que possível mais perto da montanha. E por isso, o Centro e as suas infinitas opções farão sempre parte do roteiro, até porque a Rota da Transumância ficou já reagendada para o próximo ano. 

Inês Barata Raposo, Aranhas

Corria o ano de 2015, época em que a perspetiva de uma pandemia era algo absolutamente distante, quando a Inês, com apenas 25 anos, decidiu fazer as malas e fugir da capital do país, para a pequena aldeia de Aranhas pertencente à sub-região da Beira Baixa. Numa época em que o trabalho remoto era ainda uma realidade distante, o nomadismo digital um conceito estrangeiro e os espaços de coworking ou coliving uma ideia que pareceria alienígena, podemos dizer que a Inês foi a paciente zero deste movimento para o interior que hoje está na ordem do dia. Sabendo ainda, que para chegar ao multibanco mais próximo tem de percorrer uns singelos 10km, faz sentido perceber a profundidade desta decisão. 

A Inês nasceu e cresceu em Castelo Branco, e assim que lhe foi possível, fugiu para Lisboa para estudar. Tirou a licenciatura em Ciências da Comunicação, seguiu para uma pós-graduação em Artes da Escrita e finalmente um Mestrado em Edição de Texto. Numa primeira fase seguiu a vertente de jornalismo, tendo começado por estagiar no Jornal Público, depois a trabalhar como freelancer na mesma área, e o seu último trabalho em Lisboa passou pelo mundo do editorial, eu estava bem nessa vida, mas tinha 25 anos quando comecei a sentir, eu e o meu companheiro, que se calhar estava na altura de fazermos uma mudança e é aí em 2015 que decidimos desacelerar a nossa vida, até porque tendo eu algumas aspirações artísticas, criativas, literárias se quisermos chamar, eu percebi que estava a perder o controlo do meu tempo.

Aranhas surge assim como o destino mais evidente, terra de origem do seu pai, onde existia uma casa de família que não estava habitada, e onde a confusão de Lisboa não poderia ser um cenário mais distante. Tomada a decisão, o seu companheiro consegue passar a trabalhar remotamente e a Inês despede-se, nós fomos com o salário dele e eu fui naquela certa ingenuidade e loucura que também fazem um pouco parte deste processo que é, alguma coisa é possível, alguma coisa vai acontecer. Os amigos mais próximos e a família mostraram-se reticentes com esta decisão, assumindo mais do que alguma descrença, alguma falta de compreensão pelo sentido da mesma, havia muito aquele discurso mais ou menos enraizado de isso é dar um passo atrás, temos muito aquela sensação de que o regressar às raízes, imagina, os nossos pais fazem todo um esforço para nos pagar as propinas, para nos colocar a estudar lá fora, é todo um investimento e depois, de repente, puxamos assim o tapete.

Uma das primeiras certezas de ter tomado a decisão mais acertada, rapidamente se materializou. Podendo finalmente dedicar-se à escrita, não tardou a receber os frutos dessa viragem, já ganhei alguns prémios no campo da Literatura e é uma coisa que só aconteceu na minha vida desta forma, depois desta minha mudança, porque enquanto estive em Lisboa, esses 7 anos foram anos muito estéreis criativamente. Mas nem só de concretizações profissionais esta mudança se manifestou. A vida numa pequena aldeia também lhes permitiu finalmente um contacto mais próximo com a natureza, que levou à criação de uma horta, mas essencialmente a adquirir uma diferente noção de tempo, numa semana recuperas várias horas e, de repente, estás a recuperar dias todos os meses porque de certa maneira, o tempo também se expande.  Às vezes custa-me falar sobre o interior e as aldeias porque sinto que estou a reforçar aquele cliché de que a vida no campo é maravilhosa e temos os horizontes e o pôr-do-sol mas é verdade.

Hoje o seu núcleo mais próximo de conhecidos e amigos é também ele bastante diferente do que traziam de Lisboa, era uma faixa etária à qual eu estava blindada, mas a verdade é que hoje quando saiu-o de casa vou sempre encontrar muito mais pessoas com mais de 70 anos do que com menos. A vizinha que faz pão e me traz ainda quentinho, o vizinho que me traz os ovos, e eu tento retribuir passando tempo com eles, ouvindo-os e ajudando-os com qualquer questão tecnológica como uma chamada por skype para um filho que está emigrado ou responder que sim ao agendamento de uma vacina de Covid. Estas novas dinâmicas sociais foram claramente uma das maiores mudanças mas também algo que encaram como brutalmente positivo e impossível de acontecer desta forma numa grande cidade.

Apesar de o trabalho acabar sempre por implicar algumas idas a Lisboa, este já não é um destino que encare como possível morada, voltar a Lisboa, não posso dizer nunca mas posso dizer que espero não ter de voltar porque isso sim seria mesmo sinal de que alguma coisa não tinha corrido bem. Apesar de hoje conseguir ver a capital com outros olhos, já não se consegue imaginar de volta aquele reboliço e acima de tudo o que o mesmo implicava na sua vida. Apesar disso, e apesar de adorarem viver em Aranhas, a possibilidade de trabalharem a partir de qualquer lugar faz com que gostem de o fazer por certos períodos, o que por vezes acabo por fazer é em momentos agarro no meu trabalho e passo uma temporada noutro sítio, no verão, por exemplo, estamos muitas semanas à beira-mar. 

Sete anos após aquilo que para muitos era uma ideia completamente louca, a realidade destes novos tempos faz desta história um retrato de pioneirismo naquilo que são as novas movimentações demográficas e os novos regimes de trabalho. Já nas palavras da Inês, e no registo partilhado do seu dia a dia em Aranhas, a certeza de um final feliz.

João Almeida, Rural Move

Nascido e criado em Viseu, o João é não só um legítimo filho da região Centro como um verdadeiro embaixador deste território. Licenciou-se na Universidade de Aveiro em Línguas e daí seguiu para um mestrado em Gestão. Hoje é aluno de doutoramento e move-se por uma grande paixão – não só enquanto área de estudo, mas também enquanto material para o trabalho que quer desenvolver –  o empreendedorismo em territórios rurais. Apesar de termos marcado encontro virtualmente, durante toda a conversa foi evidente a sua energia inesgotável e acima de tudo a sede por fazer mais, por criar e por saber que o seu objeto de estudo é um repositório de um potencial incomensurável. 

Se a maioria dos projetos que encontramos nesta área surgiram no contexto da pós-pandemia, este não foi o caso da Rural Move. Esta associação sem fins lucrativos nasce ainda em pleno período pandémico e o seu propósito, esse sim, foi pensar o que seria a realidade dos territórios rurais finda a pandemia. No âmbito do movimento Tech4Covid19, em meados de 2020, é criada a associação, da qual o João é co-fundador e após terem ganho um concurso da Casa do Impacto, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, conseguiram lançar uma melhor versão da plataforma e arrancar com o projeto. Tudo isto surge com a consciência de que o trabalho remoto e o nomadismo digital seriam modelos que estariam para ficar, mas também de que existiria uma movimentação natural de pessoas para locais menos populosos. E portanto, criámos uma plataforma cujo objetivo era, e continua a ser, criar uma one stop shop de todos os apoios. Pensámos “temos de criar aqui qualquer coisa que a pessoa vai lá e saiba quais é que são as oportunidades de alojamento, quais são as oportunidades de emprego, os espaços de cowork existentes, os apoios nacionais e locais que existem. 

Com o surgimento da plataforma, foram centenas os primeiros pedidos de ajuda a surgir, mas também a evidência de que muitas dessas pessoas sonhavam com uma mudança, sem de facto a terem já pensado, 95% dessas pessoas eram aquelas pessoas que diziam “ai eu gostava tanto de um dia ter uma quinta no interior”, mas no fundo não estavam preparadas, muito longe disso. Este primeiro “obstáculo” foi o que lhes permitiu enquanto associação perceber qual seria o passo seguinte. Assumindo a Rural Move enquanto um facilitador e um criador de pontes entre pessoas, era essencial criar parcerias e encontrar voluntários nas comunidades. Nós queremos posicionar-nos como ponte entre estes dois grandes mundos, as comunidades locais nestes territórios e aquilo que nós chamamos de Rural Movers que são pessoas que querem trabalhar, viver ou investir nos territórios locais. É neste sentido que a associação vai crescendo, pensada por pessoas para pessoas, e principalmente com foco em soluções e não em problemas. 

Apesar de neste momento terem apenas parceria com 7 municípios, a sua rede de anfitriões e parceiros locais é já bastante extensa e dispersa por todo o território Centro, estas pessoas só querem ver coisas a acontecer nestes territórios e juntam-se à Rural move um pouco para fazer parte de algo maior, nacional. Além de visitas, workshops, ou um workplace online onde partilham ideias e criam projetos com outras dezenas de pessoas envolvidas, no início do próximo ano têm já uma ação planeada, em parceria com o município de Miranda do Douro, vamos levar 15 trabalhadores remotos para lá passarem uma semana, como uma experiência, e também darmos um feedback ao município do que é que é preciso fazer, do que faz falta. Este será o tipo de iniciativas que querem depois poder replicar noutras regiões, conseguindo desta forma atrair novas pessoas e por outro lado perceber de forma evidente quais as suas necessidades, podendo estes locais adaptar a sua oferta. 

Poderem estabelecer sinergias e no fundo dar um apoio informal ao que são normalmente as questões associadas a estes processos de mudança e o que de facto os move. Nós nunca nos quisemos assumir como uma consultora de mudança, nós não somos uma imobiliária, nós fazemos a ponte. Muitos destes apoios são difíceis de medir, mas a verdade é que as evidências surgem, e muitas vezes de forma inesperada. Durante uma das conversas que regularmente organizam online, uma participante partilhou que vivia no Algarve interior e que gostaria que acontecessem por lá mais coisas, e em forma de resposta o João sugeriu-lhe que isso deveria começar com ela. Passado um mês, ela enviou uma mensagem para o facebook da Rural Move a dizer “Olá, depois de ter ouvido aquela conversa e me terem dado a resposta que deram, decidi criar a minha pequena consultora de branding, e comecei a trabalhar para os pequenos negócios rurais aqui da minha zona. São exemplos como este cujo impacto é muito difícil de medir mas ao mesmo tempo, também são eles um dos maiores e mais poderosos motores para continuarem a desenvolver este trabalho.


Esta relação umbilical entre o João e a região Centro, aliadas à paixão pelo empreendedorismo e pelas comunidades rurais guardam a certeza de que continuará firme nesta sua jornada. A região Centro, tem tudo e é muito diversa e isso pode ser bom quando nós tentamos atrair pessoas não para um território específico mas para a região como um todo. Profundo conhecedor das idiossincrasias destes territórios vê a missão da Rural Move neste sentido “Movimento para os territórios rurais e territórios rurais em movimento” e acredita que se conseguirmos mostrar que existem territórios rurais em movimento e dinâmicos, a outra parte, vai acontecer naturalmente. O futuro da associação está repleto de novas ações, mas acima de tudo de uma grande vontade de pensar e trabalhar com e para estas comunidades, assumindo que esse caminho não se faz apenas através de potenciais novos habitantes, mas principalmente através dos que já os habitam.

Na Era do Digital, as exigências do trabalhador – para com o seu trabalho e empregador – são agora muito maiores e mais complexas.

O que há não muito tempo era [quase] expectável em termos de trabalho: 9 to 5, numa secretária num escritório fechado, com pouca ou nenhuma perspetiva de mudança – hoje é impensável. No rescaldo da pandemia [de Covid-19], é possível observar uma alteração generalizada da abordagem que os indivíduos – trabalhadores e empregadores – têm do que é o trabalho e das suas metodologias.

Nos dias que correm, a procura de uma atividade profissional – com um salário apelativo ou que nos permita iniciar uma carreira – já não é a questão mais premente. Há agora, em contraste, uma procura incessante pela liberdade, mudança e descoberta – pessoal e do mundo em redor. A perspetiva de fixação, segurança financeira e laboral tem-se tornado, em muitos casos, pouco apetecível e um fator de relevância reduzida. Contudo, há cada vez mais uma procura incessante pelo risco e pelas experiências. Acima de tudo, há uma procura pela liberdade: de circulação, de pensamento e de tomada de decisão.

Desde o surgimento de novas necessidades – à rápida perda de outras há muito consolidadas – a proliferação do nomadismo digital veio agitar: as pessoas, as comunidades e o mundo. Hoje, aceitar ou decidir onde trabalhar exige uma reflexão profunda sobre novos e decisivos fatores.

Por um lado, coloca-se a questão do local de trabalho: se é fixo ou remoto. Neste momento, [esta questão] coloca enormes limitações na tomada de decisão e – para muitos – já é uma questão decisiva.

Por outro, a natureza do trabalho. 

Se há 20 anos um trabalho tinha – expectavelmente – um horário fixo, com deslocações diárias para o local de trabalho e com um contrato de exclusividade sem termo – hoje em dia essa realidade é cada vez mais minoritária e de interesse diminuto.

A procura por flexibilidade e conforto é, nos dias que correm, um fator peremptório na escolha de um trabalhador do século XXI. A visão de que o local de trabalho equivale a trabalho é hoje facilmente refutada pela perspetiva de que as condições de trabalho são o maior fator para a produtividade e, acima de tudo, o bem-estar do trabalhador.

Trabalhar já não é – apenas e só – apresentar resultados e fazer parte de uma empresa na qual podemos fazer carreira e subir na hierarquia. Trabalhar é, agora, a consequência de um processo de conhecimento e realização pessoal – através da procura de experiências, desafios e novas realidades.

Um nómada digital não terá qualquer tipo de problema em dizer que não a uma oportunidade meramente porque não compactua com os seus objetivos e visões naquele momento da sua vida. As experiências valem – agora – incomparavelmente mais do que qualquer ordenado avultado, carro vistoso ou roupa de marca. 

O que era um trabalho – unilateral e singular – é agora substituído por vários em regime de freelance; a figura do chefe – a quem devemos justificações e nos pode despedir – é agora arcaica, dado que cada um de nós pode ser o seu próprio chefe; e por fim, o que tradicionalmente era um local de trabalho, é agora irremediavelmente diferente: cafés, espaços de cowork ou residências são agora os locais em que se trabalha mais, se cria mais e se cresce mais.

Assiste-se – hoje – a uma mudança drástica naquilo que se espera de um trabalho, de um chefe e de um local [de trabalho]. 

O Nomadismo digital e o surgimento de um novo tipo de minimalismo

Historicamente, o conceito de Nomadismo não é novo. Porém, as nuances [dos movimentos nomádicos] e os contextos [em que ocorre] têm vindo a mutar-se na dita Era do Digital.

Antes de se iniciar a jornada de nomadismo digital, é essencial refletir sobre o que realmente é fundamental adquirir e manter no nosso espólio. Há, neste momento, um conjunto bastante específico de critérios que devemos ter em conta na preparação desta mesma jornada: durabilidade, qualidade, funcionalidade e compactabilidade.

Na Era Digital, um computador, tablet e telemóvel funcionam – em simultâneo – como ferramenta de trabalho, estudo e lazer. Poder-se-á dizer que, a internet é – hoje, o equivalente às estradas para os nómadas antigos. Mais ainda, o guarda-roupa e a alimentação são questões igualmente importantes que devem ser consideradas com grande afinco.

Mais do que uma experiência, embarcar no nomadismo digital é assumir uma atitude e estabelecer hábitos, de vida e das relações inter e intrapessoais que compactuam com a natureza deste novo estilo de vida. Nos dias que correm, o conceito de posse é algo que necessita ser repensado – tanto em termos de aplicabilidade prática, como em termos da natureza da relação que um indivíduo possui para com ela(s). O conceito de destralhar – neste caso concreto a priori da jornada nomádica – é fundamental para definir um padrão.
Muito se tem discutido sobre os impactos – reais – do nomadismo digital. Estes impactos, cada vez mais, assumem-se multidisciplinares e com uma aplicabilidade variada – desde a atividade profissional desenvolvida à alimentação escolhida. E por isso, a decisão de assumir o nomadismo digital como estilo de vida é nada mais do que um posicionamento para com o mundo, as pessoas e nós mesmos.

Rui Santos, Rural Move

Nasceu em Angola, mas viveu muitos anos em Braga, e foi na região Norte que se formou e que começou a trabalhar, sempre ligado à produção têxtil. O trabalho acabaria por levá-lo até Berlim com 25 anos, lugar a que chamou casa durante 14 anos. Mas hoje, foi na sua casa em Mação que nos recebeu. A umas boas centenas de quilómetros de Braga e a alguns milhares de Berlim, mas num espaço que não poderia ser mais seu, onde cada objeto parece ter uma história e onde os vários mundos que o habitam a si, parecem ali viver em perfeita comunhão.

Depois de mais de uma década a viver na Alemanha, sentiu que estava na hora de partir e começou aí a sua procura por uma casa em Portugal. Por coincidência, apareceu aqui esta casa à venda, eu nem sabia onde ficava Mação. Estive 18 meses em Abrantes na tropa mas nunca aqui tinha vindo. Vim ver a casa e apaixonei-me logo por ela, desde 2018 que vivo aqui. Com o regresso a Portugal decidiu começar a trabalhar como consultor e esse facto tem-lhe permitido usufruir de um certo nomadismo do qual já não abriria mão, o meu trabalho permite-me trabalhar um pouco à distância, estar aqui temporadas, estou também temporadas em África, depois volto para cá ou para Berlim, é um pouco este intercâmbio de cidades. 

O dia a dia em Berlim desconstruiu por completo a sua percepção das distâncias, e nesse sentido um possível isolamento com a mudança para Mação não o intimidou.  Eu chego a Berlim, por exemplo, chego ao aeroporto e demoro o mesmo tempo do aeroporto até minha casa lá que demoro de Lisboa até esta minha casa. Em 2018, quando efetivamente aterrou ali, nem tudo foi um mar de rosas. Deparou-se com um certo marasmo na vila, um cheiro a mofo que se podia sentir na rua quando certas casas eram abertas depois de muito tempo fechadas, e uma população muito envelhecida. Mas rapidamente lhe viu não só um enorme potencial, como um sem fim de vantagens. A proximidade, a qualidade de vida de estar num meio pequeno em que numa 1h30 tenho de ir à Câmara, ao advogado e às finanças e faço tudo sem marcações e a pé. Os ovos caseiros, o pão que te vêm trazer à porta. E depois o fator tempo também é extremamente importante, a luz do sol é fantástica, a natureza. Nós adoramos a feira das Mouriscas, se há coisa que é sagrada todos os domingos é irmos ao mercado.

Desde 2018 até aos dias de hoje, consegue perceber que muitas coisas foram mudando positivamente na vila e que o sentido é que isso continue a acontecer. Por querer ter uma participação ativa e por sentir que vivendo ali também deveria dar o seu contributo à comunidade, procurou a existência de alguma associação com a qual pudesse cooperar, e foi aí que conheceu a Rural Move. Foi assim que num primeiro momento se tornou gestor de comunidade em Mação, fazendo atualmente parte da Coordenação da Associação. Embora admita a existência de outras associações na vila e em redor, sente que funcionam na sua maioria como ilhas, e nesse sentido, a Rural Move surge como um elemento aglutinador. No meio disto tudo, desde que cá estou, 12 casas já foram vendidas para pessoas amigas e conhecidas e hoje o nosso grupo é cada vez maior e com maior número de nacionalidades diferentes. 

No contexto da pandemia e principalmente no seu pós, começou a perceber novas movimentações e novas dinâmicas na vila. Esta rua de trás estava toda à venda e agora não vês uma única placa a dizer “vende-se”. As pessoas foram adquirindo as casas e remodelando-as, ou seja, há aqui uma preocupação, uma melhoria significativa. A Câmara também fez agora a requalificação do cine teatro que ficou muito bem e também estão a dinamizar essa parte cultural. Sabe que para muitas pessoas a sua voz pode ser desconfortável por ser alguém naturalmente crítico, mas vive perfeitamente bem com isso por estar consciente de que o faz apenas com interesse num bem maior e não em proveito próprio. O nosso objetivo na Rural Move é trazer pessoas e empresas e ajudar as comunidades a prepararem-se para receber bem as pessoas. Esta é uma grande oportunidade de deslocalização dos escritórios dos grandes centros para estas zonas do interior.
O futuro não é algo que faça por planear ao pormenor,não é essa a sua essência, mas neste momento assume como certo a vontade de se manter a viver na vila. Temos aqui umas dinâmicas muito engraçadas e quando isso se multiplicar pelos eventuais negócios que vão acontecer, por escritórios que eventualmente vamos abrir aqui, um projeto de coworking space, uma loja, umas casinhas para alojamento, será ainda melhor. A verdade é que a sua casa já é só por si um pólo atrativo para muitos, e não é por isso de estranhar que com a constante entrada e saída de pessoas muitos se questionem se não se trata afinal de um hostel. Já estamos a preparar o nosso Natal, amanhã já vão chegar 3 amigos da Alemanha que compraram aqui também uma casa e vão ficar até dia 29, e também está cá uma amiga da Holanda que vai ter a casa pronta em princípio para o ano, então já estamos a dizer que o próximo Natal será na casa dela. Mais do que uma pequena comunidade, percebemos que existe ali uma pequena família e na despedida ficou a certeza de que os próximos tempos a farão crescer ainda mais.

Uma nova era na atração e descoberta de novos talentos: o recrutamento através das redes sociais

Se a pandemia veio modificar de forma inequívoca, o que há muito eram as metodologias de trabalho, e a própria visão que temos sobre o mesmo – enquanto empregados e também enquanto empregadores – uma grande mudança chegou ainda antes, e atingiu os processos de recrutamento. O crescimento exponencial e imparável dos utilizadores das redes sociais e das suas próprias funcionalidades, alteraram o que há muito eram os modelos de captura e descoberta de talento. Dentro desse universo, destaca-se claramente a plataforma Linkedin, e hoje, essa é provavelmente a maior montra para qualquer um que procure trabalho, tal como para os que procuram trabalhadores.

Os recrutadores atualmente procuram muito mais do que uma listagem de experiências profissionais e percursos académicos, e neste sentido, este tipo de plataformas permite que outras valências e características, tão ou mais importantes, possam ser vistas. A presença de cada um e a forma de apresentação da sua página profissional, é hoje um dos seus mais importantes cartões de visita. Contudo, esta medida serve da mesma forma os dois lados, ou seja, também para as próprias empresas que procuram captar novos talentos, é essencial que a sua comunicação seja não só assertiva como apelativa. A relevância dessa mensagem é a chave para que empresas encontrem candidatos que façam o fit perfeito com o que procuram, e para isso é crucial que consigam passar de forma muito clara, quais os seus valores e a sua cultura. Num estudo recente, realizado pela Net Impact, a população estudantil afirmou que aceitaria um corte de 15% sob a possibilidade de trabalhar numa empresa cujos valores correspondam aos seus. 

Se num passado bastante recente, uma das principais preocupações dos jovens em busca do primeiro emprego, era evitar publicações algo questionáveis em plataformas como o Facebook, hoje a tendência é claramente a de se tornarem relevantes e originais na forma como se apresentam nas suas páginas profissionais. Se isto é evidente no que concerne aos candidatos a um emprego, também começa a ser da parte de quem os procura. As empresas têm hoje a missão de definir abordagens que possam ir muito além de uma job description e conseguir mostrar de que matéria são de facto feitas. Uma conclusão que se vai tornando bastante palpável é que estas mudanças tornam estes processos claramente mais competitivos, mas ao mesmo tempo também permitem que as chamadas soft skills comecem finalmente a ser tão ou mais importantes que as competências académicas e profissionais. 
Se os processos de recrutamento são hoje tendencialmente mais longos, e com uma competência hands-on cada vez mais forte, também o são cada vez mais simples, já que o uso destas plataformas permite condesá-los a todos num só lugar. Contudo, também é necessário prever algumas fragilidades das mesmas, tais como a verificação das competências apresentadas, descrições de vagas sem requisitos mínimos, potenciais esquemas de burla ou bastante vagas ou a sobrevalorização de cargos por parte dos usuários. Não obstante, hoje não estar presente nestas novas redes profissionais é uma forma de invisibilidade, pelo que todo o esforço e tempo que a elas se possa dedicar, será sempre um investimento ganho.

Andreia e Fernando, Projeto Fundão

Países Baixos, informalmente conhecido como Holanda, o país das tulipas é hoje a morada da Andreia, natural de Abrantes, e do seu marido Fernando, natural de Espinho. Há vários anos a viverem neste país, foi ainda num contexto pré- pandemia que começaram a ponderar – ainda sem grandes planos – uma nova mudança de vida e também de localização geográfica. Já em pandemia e com mais tempo para poderem pesquisar, refletir e tomar decisões, tornou-se claro que a estadia na Holanda estava em reta de conclusão. Hoje a partida é uma certeza, e também o é o destino que assim os trará de regresso a Casa e a Portugal.

Chegada ao ensino superior, a Andreia decidiu seguir o mestrado em Engenharia Biomédica e trocar Abrantes por Lisboa. Já o Fernando encurtou as distâncias e deixou Espinho para seguir os seus estudos em Engenharia Física na cidade de Coimbra. Anos mais tarde, o destino acabaria por cruzar os seus caminhos, e após uma passagem por Inglaterra, a Andreia acabaria por partir para a Holanda, onde o Fernando já trabalhava há algum tempo na área de IT, área na qual ela também viria a trabalhar.  Muito influenciada pelo Fernando que foi o primeiro a vir para a Holanda – mas eu achei que a maneira dos holandeses serem fazia muito sentido para mim e o sítio, o país é mesmo muito bonito. Após essa mudança, já totalmente instalados no país, tomaram uma decisão que viria a ser crucial para a grande viragem que hoje planeiam fazer, alugaram um espaço num jardim comunitário. 

Com a pandemia começaram a trabalhar remotamente e por consequência a ser naturalmente mais ativos no jardim comunitário do qual faziam parte. Começámos a produzir e rapidamente percebemos que a qualidade dos produtos era muito superior à dos que adquiríamos no supermercado, e além disso não tínhamos muito trabalho devido aos métodos naturais que usamos. Aliado a esta descoberta começaram a sentir cada vez mais que o futuro de ambos não passaria pela área de IT mas sim por algo que sabiam poder vir a construir juntos. Tudo o que a sociedade nos diz é “tens uma boa profissão, tens um bom ordenado, tens de ser feliz”. Só que não, nós chegamos lá e de repente apercebemo-nos que ok não tens de te preocupar com contas o que é ótimo mas falta alguma coisa, falta um propósito na tua vida. 

Após muita pesquisa, Portugal foi-se tornando o destino claro e o que mais fazia sentido a ambos, pelos mais variados motivos. Começámos a ver terrenos e demos com um no Fundão, lugar a que nenhum de nós tem qualquer ligação. E foi assim amor à primeira vista, aquele terreno foi literalmente chegar lá e dizer “nós temos de comprar isto”. A vista é lindíssima, o sítio é espetacular e ainda tem uma comunidade interessante de estrangeiros de diferentes culturas que ali vivem. Fizemos a escritura de um dia para o outro. Hoje, a cada visita são inundados por um espírito de comunidade típico destes lugares mais pequenos e um apoio bastante significativo, não só das pessoas que ali vivem como do próprio município.  Neste momento até temos de meter algum travão no projeto porque as pessoas querem tanto ajudar-nos que dizem “não, não, nós queremos ajudar, fazemos já isso hoje”, ou “vai já almoçar com a pessoa responsável”.

A experiência no jardim comunitário trouxe assim a certeza de que o projeto seria agrícola na sua base e privilegiando sempre uma agricultura o mais natural possível. Neste sentido, o projeto estará numa primeira fase dividido em três vertentes principais: turismo ecológico, produção de licores e produção de compotas. Se eu focar mais em compotas e licores biológicos, posso começar já a fazer parcerias com quintas biológicas que eu já conheço na zona e que têm sempre produtos que não têm calibre suficiente para ser vendido devido às normas e para eles é interessante porque em vez de deitarem fora escoam para nós e fazem também uma segunda vertente de lucro. Para a vertente de ecoturismo, ideias não faltam. A primeira é a de que seja um regime participativo, ou seja, em que as pessoas partilham do que são as atividades do dia a dia da quinta, quer seja na vertente agrícola ou na parte de tratar dos animais. Num futuro não tão próximo, planeiam adicionar a componente dos retiros, onde além de yoga ou meditação, gostariam de ter um programa específico para pessoas em burnout

A paixão pela agricultura é evidente em cada uma das palavras de Fernando, para quem tudo parece ser já palpável apesar de grande parte ainda estar a viver apenas em papel. No fundo é o que se chama uma floresta de comida. A ideia é daqui a 7/ 10 anos, que é o tempo da floresta, aquilo deixar de ter qualquer manutenção. A própria floresta torna-se autossuficiente. Conscientes de que a natureza tem o seu tempo próprio e que o mesmo deve ser respeitado, não pretendem de forma nenhuma condicioná-lo do seu normal funcionamento. Assim, a ideia é que nos primeiros anos continuem a trabalhar remotamente nas suas atuais áreas profissionais – já a viver  no Fundão – e que gradualmente lhes dediquem menos horas, até que as abandonem por completo, podendo assim estar 100% dedicados a este projeto. 

Cansados de um estilo de vida com que não se identificam, onde os estímulos parecem chegar-nos em catadupa e onde parar parece sempre sinónimo de falhar, anseiam pela vida bem mais leve e equilibrada que a quinta lhes permitirá alcançar. Estamos na fase da história humana documentada com maior taxa de burnout de sempre. Mas a verdade é que quando nós nos permitimos relaxar, desligar um bocadinho, já não há essa necessidade constante do estímulo só pelo estímulo. Uma coisa é certa, a partir do momento que abracem por completo a vida de campo, tudo isto deixarão de ser preocupações e o futuro será a passagem destes ensinamentos a todos os que se venham a cruzar com este projeto. 

David Ferreira, Lago Azul

Em plena albufeira de Castelo de Bode, em Ferreira do Zêzere, encontrámos uma paisagem idílica digna de uma produção cinematográfica, o Lago Azul. Entre uma grande mancha florestal e o rio Zêzere, este enorme lago serviu-nos de cenário para conhecermos mais uma história sobre alguém que se rendeu aos encantos do centro de Portugal. Se a primeira razão desta descoberta aconteceu pela prática desportiva, rapidamente toda uma outra série de motivos foram surgindo para que aqui, o David encontrasse uma segunda Casa.

David Ferreira, nasceu e viveu grande parte da sua vida em Lisboa. Desde os 16 anos que tem barco, o que faz com que estas vivências façam parte da sua vida há quase 30 anos. Numa fase em que surgiu a questão de onde poder deixar o seu barco, foi-lhe sugerido por alguns amigos exatamente esta localização do Lago Azul. Gostei disto aqui, deixei o barco aqui e estive 2 ou 3 anos a ir e vir constantemente, principalmente ao fim de semana. Vinha de Lisboa à sexta-feira ou dormia aí e às vezes arrancava ao sábado de manhã, passava o dia todo a fazer wakeboard e depois arrancávamos sábado à noite para Lisboa. 

A sua vida profissional iniciou-se em Portugal, mas quando começou a sentir-se frustrado e com vontade de agarrar projetos diferentes, a oportunidade acabaria por lhe chegar da Irlanda, e hoje, já são quase 12 anos a trabalhar por lá. Contudo, uns anos antes, acabou por comprar casa aqui, e isso fez com que a sua vida hoje se encontre dividida entre os dois países. Com dois filhos essa logística tornou-se ligeiramente mais complexa, mas nada que não tenha arranjado forma de conseguir contornar, falamos com os professores, trazemos os livros todos e depois arranjamos uma rapariga aqui de Ferreira do Zêzere que vem todos os dias de manhã e faz duas ou três horas do programa da escola com eles em inglês. acho que lhes dá alguma ginástica mental e física do que estarem o ano todo com uma rotina no mesmo sítio. Com a possibilidade de trabalhar em qualquer parte do mundo, tal como a sua esposa, não lhes faria sentido não se aproveitarem desse facto.

Foi o desporto que me trouxe aqui em primeiro lugar. Não gosto muito de Lisboa, não estou nunca muito tempo em Lisboa, mas aqui especificamente, esta zona é muito bonita, e sossegada, tens restaurantes bons e tens supermercados em Ferreira do Zêzere em 2 minutos. Se a prática desportiva foi o mote, hoje parece-nos evidente que ela é apenas um dos muitos motivos que o trazem até ao interior do país. Apesar de nem tudo ser perfeito – porque nenhum lugar de facto o é – este estilo de vida algo saltimbanco, parece ser o seu ponto de equilíbrio e o que lhe consegue dar o melhor de dois mundos. 

Além da clara paixão pelo wakeboard e pelos desportos náuticos, esta localização também lhe permite usufruir de outro hobby, os passeios de mota. Os seus filhos curiosamente parecem querer seguir-lhe as pisadas e também já se assumem fãs de motocross, depois de terem tido essa experiência num campo de férias, e a verdade é que a ausência de trânsito nesta zona, juntamente com as fantásticas paisagens que a envolvem apelam mesmo a esses passeios. 

Com a certeza de querer continuar a manter-se preferencialmente 100% em trabalho remoto, o plano a médio prazo será manter a vida entre estes dois lugares, mas na hora da reforma já existe uma certeza, quando me reformar venho para cá permanentemente, quando os miúdos forem mais velhos e já tiverem a vida orientada. Ir viver para Lisboa está fora de questão,contudo queremos manter a nossa casa na Irlanda, a minha mulher gosta imenso daquilo, eu nem tanto. A verdade é que nos últimos anos vários estrangeiros têm escolhido esta região em particular para se instalarem, o que faz com que se comece a criar ali uma comunidade internacional interessante. A chegada destes novos habitantes poderá certamente contribuir para um dinamismo ainda maior deste território, trazendo com certeza mais aficionados dos desportos náuticos mas também mais famílias que cada vez mais procuram o slow living.

Raquel Ribeiro , Overtrail

Raquel

Existem pessoas que pela forma leve e simples como vêem a vida, se tornam imediatamente inspiracionais para quem as ouve, mesmo que o seu discurso não seja intencionalmente pensado para atingir esse fim. A Raquel além de ter claramente essa capacidade, consegue ainda, e mesmo que através de um computador, transmitir uma energia que de alguma forma contagia. Ao longo de toda a conversa fomos reforçando esse sentimento e fomos também percebendo a lógica do caminho que vai hoje trilhando enquanto pessoa, e também enquanto profissional. Não fomos de autocaravana, como gostaríamos, mas foi uma viagem em todos os sentidos.

A Raquel nasceu e cresceu na cidade Invicta, e após ter-se formado em Psicologia, teve a sorte de começar imediatamente a trabalhar na área, estando 10 anos numa IPSS que acolhe crianças e jovens. Apesar de terem sido anos de uma enorme aprendizagem, chegou um momento em que sentiu que estava na altura de mudar. Sabem quando a vida corre naqueles trâmites muito normais e nós começamos a sentir, e o que é que vem a seguir? À medida que ia viajando, e conhecendo pessoas com vidas e objetivos muito diferentes dos nossos e que nem por isso eram menos felizes, comecei a questionar-me se o meu modelo de vida era de facto o que eu queria e que fazia sentido para mim. As viagens, aliadas à doença da sua mãe, foram a grande alavanca para que de forma ponderada, começasse a pensar no que viria a ser o próximo passo. Com o falecimento da mãe, pareceu-lhe evidente que a hora de sair tinha chegado, a partir daí foi uma descoberta, porque inicialmente a ideia era sair e ir fazer outro trabalho, mas quando ela faleceu, eu saí sem ter mais nada. 

No ano seguinte foi para o Algarve, onde esteve a viver numa eco-comunidade. Essa experiência permitiu-lhe conhecer e desenvolver uma série de novas áreas, como o desenvolvimento pessoal e os retiros, mas também uma paixão recente sua e para a qual havia já tirado uma pós-graduação, em gestão de turismo e hotelaria. Ainda estava a trabalhar quando comecei a receber algumas pessoas em casa, e percebi que gostava muito desta área. Continua a ser o meu sonho, receber pessoas em casa, não no sentido de um turismo rural convencional mas mais ligado à parte da ecologia, retiros, desenvolvimento pessoal, experiências etc. Nesta fase, já partilhava o gosto de viajar, mas acima de tudo de conhecer outros modos de vida e de poder integrá-los no seu, com o Daniel, o seu companheiro. Viajámos muito pelo Centro de Portugal, porque o nosso trabalho está muito relacionado com pessoas que se mudam para zonas rurais e que procuram zonas onde possam plantar e semear os seus próprios alimentos e o Centro é onde existe mais esse potencial. Para nós o Centro tem o melhor de vários mundos. 

Nesta fase dispunham já da carrinha que viriam a transformar numa autocaravana. Nós já trabalhávamos remotamente, e sempre foi nossa ideia ter condições na carrinha para trabalhar e viver, como painéis solares e uma boa cama. Eu tinha o meu apartamento que arrendei, portanto deixei de ter casa e passámos a viver na autocaravana. Passámos de 100m2 para 9m2 e temos vivido assim de uma forma nómada. Muitas vezes aproveitam as bibliotecas para trabalhar e lamentam que estejam quase sempre sem ninguém quando a grande maioria possui excelentes condições que estão a ser desaproveitadas. Por outro lado, aliam muitas vezes estas viagens a trabalhos de house-sitting, onde tendo os proprietários de se ausentar, ficam a tomar conta e a viver na casa deles, e a cuidar dos seus animais, hortas, etc. É assim que vamos vivendo de uma forma minimalista e vendo o que nos faz felizes, que é claramente muito menos do que achávamos que precisávamos. Ao longo do caminho, e percebendo cada vez mais o fascínio pelas temáticas do desenvolvimento pessoal, formou-se também nessa área e hoje é ela própria a criar os seus, a que chama de “experiências com propósito”. Por outro lado, o Daniel é responsável pela gestão do site “Pure Portugal Holidays” onde faz a ponte entre pessoas que querem vir viver para o interior de Portugal e que procuram não só, casa, mas acima de tudo uma comunidade ligada à sustentabilidade onde se possam inserir. 

 Eu não viajo para visitar um monumento, eu viajo na perspectiva de me integrar lá e de tentar perceber o que é que as pessoas pensam, como é que vivem, e de tentar aprender ao máximo. A sua forte consciência ambiental, fez com que criasse o seu primeiro blog, muito antes ainda desta sua mudança de vida, o “Exploring Sustainable Worlds” em que partilhava exactamente os projetos que ia conhecendo nas suas viagens, ligados à sustentabilidade e à ecologia. Não é por isso de estranhar, que hoje quando desenvolve os seus retiros, procure muitos desses lugares que foi conhecendo, muitos deles de turismo sustentável e regenerativo, onde os participantes podem contactar com opções de vida mais sustentáveis. O meu último retiro foi num desses locais, numa quinta que gera a sua própria eletricidade através da utilização de painéis solares e de recursos hídricos, onde a tecnologia dos tempos de hoje se une à natureza. Acredito que este contacto nos permite viver mais em sintonia com os recursos e ciclos da natureza e, por isso, mais em sintonia também connosco próprios e com a nossa essência. 

Passados 8 anos que eu deixei o meu trabalho, eu sinto que sou uma inspiração para as outras pessoas que ainda não deram esse passo e cada vez são mais as que me procuram a dizer “eu sinto o mesmo”, “tens muita coragem”. Hoje o seu foco está muito direcionado para essa questão da mudança e assume que a questão da pandemia, veio acelerar esta necessidade em muitas pessoas que de alguma forma já ansiavam por conseguir fazê-la.  Todos nós temos mudanças para fazer na nossa vida, não é preciso sair do emprego e ir para uma autocaravana viver, não é preciso nada disso. Mas todos nós temos coisas que queremos transformar em nós. Além dos retiros, que é algo que quer muito continuar a fazer, cria também círculos online, onde num espaço seguro, se aprofundam temas de desenvolvimento pessoal, e participa ainda em palestras em universidades dentro das temáticas do nomadismo digital e também do seu estilo de vida na autocaravana.  

Para um futuro próximo existem já muitas ideias de novos projetos e até muitas viagens programadas que prefere ainda não revelar. Contudo ficou a certeza de que a autocaravana continuará a rolar e de que pelo caminho muitas pessoas serão impactadas pelo seu trabalho a que se dedica diariamente com sentido de missão e de propósito. 

https://overtrail.com/

https://www.exploringsustainableworlds.com/

https://pureportugalholidays.com/

Sónia Jerónimo, Cooperativa – Cowork das Aldeias de Montanha – Lapa dos Dinheiros

Por entre uma paisagem mágica, brindados com o ar puro que só na Serra se consegue fazer sentir, chegámos à aldeia de Lapa dos Dinheiros. Depois de subidas intermináveis e de um silêncio que nos acolhe à chegada, encontrámos o espaço de Coworking da rede de Aldeias de Montanha, uma antiga escola primária da aldeia. Fomos surpreendidos pela familiaridade do lugar, o que de forma imediata quebra qualquer potencial preconceito com este tipo de espaços de trabalho compartilhados. A combinar com a atmosfera do espaço, foi a recepção da Sónia, que rapidamente percebemos que seria a anfitriã perfeita para este encontro. 

A Sónia nasceu e cresceu na cidade de Tomar, mas a entrada no ensino superior levou-a no 12º ano até Lisboa para ingressar na licenciatura em Economia. Cinco anos depois, sentia que o caminho seria através da vida académica, e após ter sido selecionada para uma bolsa na Universidade da Beira Interior da Covilhã, para lá se mudou de armas e bagagens durante 4 anos. Cheguei à conclusão que dar aulas não era boa ideia, sobretudo porque eu tinha acabado de sair dos bancos da escola de um lado e estava a sentar-me no outro. Além de manuais académicos eu não tinha nada para apresentar aos alunos, porque eu não tinha experiência nenhuma de mercado. Foi assim que após terminar o mestrado fugiu do doutoramento, e entrou finalmente no mercado de trabalho, regressando assim à capital. 

Esse primeiro contacto com o mundo empresarial iniciou-se logo com um grande desafio, enquanto Diretora Geral do Instituto de Formação Prisma.  Eu sou muito de aceitar desafios, primeiro porque eu acredito em mim e eu acho que nós para avançarmos temos de acreditar primeiro em nós. Aceitei e aprendi imenso nesse trabalho e com muitas pessoas com quem lidei e fiquei nessa posição durante 4 anos. Depois veio um bebé e com o final da licença de maternidade a certeza de que estava na altura de mudar, contudo, um novo desafio dentro do mesmo grupo surgiu, e claro que não lhe virou as costas. Eu aceitei e entrei como Senior Manager juntamente com um colega da sede em França e nós os dois devíamos recuperar aquela empresa, era esse o desafio. A verdade é que conseguimos no espaço de 1 ano. Passámos de 10 ou 12 pessoas para mais de 100 e tal e acabámos por ser chamados a França e sermos nomeados diretores executivos da empresa porque tinha sido um case-study a nível europeu. A partir daí a minha carreira no IT nunca mais parou.

Nos anos seguintes, os desafios a nível profissional foram constantes, com muitas mudanças, embora sempre na mesma área e sempre em Lisboa. Há pouco mais de 2 anos sentiu que tinha chegado o momento de fazer a derradeira mudança na sua vida, e foi assim que chegou a esta região. Recebi um convite para formar a GO IT Concept e que tem cerca de 6/7 meses de existência, e escolhemos especificamente a sede aqui na Lapa dos Dinheiros e neste coworking. Somos uma empresa que é um misto de remote first, com nómada digital porque isso é que permite uma integração entre a vida profissional e a vida pessoal. Empreender nesta zona é fantástico, eu tenho uma filosofia que é give first and give back. Nós quando chegamos a um local que não conhecemos acho que primeiro devemos sempre dar. 

Com este sentido de missão, foi criando uma série de parcerias com outras empresas e instituições, de forma a conseguir de facto fazer crescer as oportunidades nesta região e também de trazer novas pessoas para trabalhar e viver aqui. Hoje,  o meu propósito é continuar a fazer crescer a GO IT, desenvolver tecnologia para qualquer parte do mundo e promover integração entre vida pessoal e profissional e não o tal balanço. Para mim “balance” é uma balança, e se eu tenho mais vida pessoal ou profissional de um dos lados, pareço um equilibrista. A integração é mais do que um balanceamento, significa que a minha vida pessoal faz parte da minha vida profissional. O meu lema é liberdade com responsabilidade e uma liderança muito proativa e muito inclusa. As pessoas têm de ter segurança e espaço para falar e expressar o que sentem e eu promovo muito isso internamente. 

A forma como lidera e a procura incessante que demonstra em tornar os seus colaboradores mais felizes no trabalho, é um tema que de alguma forma permeou toda a conversa, tal a paixão que revela por estas problemáticas. Este mindset assume-se claramente como o resultado das múltiplas aprendizagens que foi obtendo ao longo de tantos anos de carreira e principalmente, ao trabalhar com tantas empresas internacionais, onde muitas destas políticas não são novas. O mercado está a reinventar-se. Fala-se muito em pegada ambiental e em sustentabilidade, mas depois vejo os empregadores exigirem o regresso ao escritório, é absurdo.

Quase dois anos depois de se ter mudado para Seia, mais especificamente para uma quinta numa pequena aldeia ali vizinha, deixando para trás a confusão de Lisboa, tem a certeza de que esta foi a escolha certa para esta fase da sua vida. Um sítio muito menos populoso, para mim faz toda a diferença já que demoro 5 minutos pela ausência de trânsito a chegar aqui, e tenho uma paisagem fantástica pelo caminho, e este back to nature é muito importante para mim. Do ponto de vista da habitação é muito mais acessível, tem imensa oferta cultural, tem poucos mas ótimos restaurantes, hospitais, universidades. Eu não consigo ver desvantagens honestamente nesta região, isto do meu ponto de vista e da minha opinião pessoal.

No futuro será certamente este o lugar em que a iremos encontrar, já com novos projetos e com muitos outros na gaveta à espera do momento certo para de lá saírem. Na despedida da aldeia de Lapa dos Dinheiros e após conhecermos a praia fluvial, foi bastante evidente o que levou a Sónia a perder-se de amores por este lugar e a escolhê-lo como a sua nova morada.

Saiba por onde vai passar a tour de workshops do Work From Centro de Portugal 2022

O Turismo do Centro de Portugal está a promover uma série de 8 workshops em cada uma sub-região do Centro de Portugal. Estes workshops pretendem dar uma resposta de estruturação de produto e comunicação neste segmento emergente no Centro de Portugal, enquanto destino para visitar e trabalhar, para todas as pessoas, famílias, equipas e nómadas digitais, que pretendem trabalhar à distância.

O trabalho remoto não é uma forma de trabalho recente na organização das empresas mas, a partir de 2020, em todo o mundo, os períodos de confinamento e o distanciamento físico afetaram a vida quotidiana dos trabalhadores e levaram a um enorme aumento do número de pessoas que trabalham em casa.

Com os diversos anúncios de mudança da organização do trabalho em empresas de todo mundo e o aumento do número de pessoas em trabalho remoto, também crescem as oportunidades para a oferta turística.

[Inscrições para o workshop]

Benefícios do Trabalho Remoto para as Empresas

Setembro 2022

Enquanto muito se vai refletindo e escrevendo sobre as vantagens desses novos modelos de trabalho para os trabalhadores, as análises sobre os benefícios para os empregadores ainda escasseiam. Melhorias em questões como a motivação e a assiduidade parecem mais evidentes, mas no que concerne a problemática da produtividade, parecem ainda restar dúvidas, dúvidas essas que se inflamam com afirmações como a de Elon Musk, que considerou o teletrabalho como “fingir que se trabalha”. 

Enquanto vozes como a de Musk parecem querer assumir o teletrabalho como sinónimo de menor produtividade, todos os sinais parecem apontar na direção contrária. Menos distrações com colegas, maior equilíbrio entre a vida pessoal e profissional ou mais horas de sono, são apenas algumas das mudanças que facilmente se traduzem numa maior produtividade por parte dos colaboradores a usufruir deste regime. Mas esta é claramente uma das variáveis que necessita de tempo de adaptação para poder ser devidamente medida. Contudo, existem outras vantagens que se conseguem antever mesmo antes de serem colocadas em prática pelas empresas.

Estes novos regimes de trabalho permitem às empresas poupar nos custos com arrendamento de espaços. Num caso mais extremo, deixarem de ter essa despesa por completo, e noutros, a de poderem reduzi-la significativamente mudando para espaços mais pequenos. Outra das grandes vantagens é a retenção de pessoal qualificado, ou seja, oferecer este tipo de regime mais flexível, permite que os colaboradores não necessitem de mudar de empresa de forma a encontrarem esta opção. Um dos principais benefícios e que é muitas vezes negligenciado, é a oportunidade dos empregadores poderem recrutar as pessoas com melhores qualificações, independentemente de onde vivam. Finalmente, mas não menos importante, é a questão ambiental. Os consumidores querem que as empresas sejam mais verdes, e com um pensamento mais sustentável, aqui com a redução ou eliminação das deslocações, essa mensagem torna-se mais forte. 

Compromisso entre empregados e empregadores surge assim como uma das chaves para o sucesso destes novos regimes de trabalho. Se as relações interpessoais podem sofrer pela ausência de contacto presencial, é importante que se promovam outras formas de a fomentar, tal como, se a incapacidade de algumas pessoas se desconectarem aumentar, perceber que ferramentas utilizar para o combater. 
Encontrados os benefícios para empresas e colaboradores, o passo seguinte envolve a aceitação de que este processo de adaptação implicará sempre o empenho das duas partes e o tal compromisso necessário para que tudo flua de forma pacífica e sem constrangimentos. É assim essencial que os trabalhadores sejam avaliados pela sua capacidade de apresentar resultados e não pela sua disponibilidade em estarem presentes fisicamente em locais onde na grande maioria das vezes a sua presença é dispensável.

A Pandemia enquanto Alavanca de um Novo Paradigma Laboral

A experiência da pandemia foi brutalmente transformadora no que ao mercado de trabalho diz respeito, mas acima de tudo à forma como encaramos o balanço entre a sua vida pessoal e profissional. Se o conceito de teletrabalho começou por parecer assustador – pelo desconhecimento que muitos tínhamos do mesmo – rapidamente descobrimos as suas múltiplas vantagens e nos tornámos adeptos deste regime. O que pareciam ser tendências futuristas de adaptação a novas formas de trabalho mais flexíveis, rapidamente se foram tornando parte da norma,e  foi com uma rapidez avassaladora que passámos de céticos a fãs. 

Com o fim à vista da pandemia, muitas empresas exigiram o regresso ao local de trabalho, mas nesta fase, a grande maioria estava já consciente de que novos regimes de trabalho teriam de ser equacionados. Novos conceitos começaram assim a emergir, como o trabalho remoto, o trabalho híbrido e o nomadismo digital. Mas o que realmente se torna evidente com todas estas mudanças, é a forma como o contexto da pandemia e a reflexão que a mesma permitiu, alterou de forma definitiva a forma como encaramos o nosso trabalho. Para uma grande fatia da população, o teletrabalho implicou uma proximidade com a família que nunca antes tinha sido possível, e um maior equilíbrio entre os dois universos, pessoal e profissional. Tudo isto trouxe ainda a consciência de que a produtividade não tinha de ser afetada, aliás, muitas vezes o sentimento foi até o contrário, Estas conclusões levaram tanto empregados como empregadores a ponderarem no caminho a seguir.

Aqui não existem respostas certas nem fórmulas milagrosas que possam ser aplicadas a todos. Se por um lado existirão sempre funções onde a opção de teletrabalho é impossível, também existirão sempre pessoas que não dispensam a rotina do escritório e a dinâmica do trabalho em equipa de forma presencial. O que as empresas necessitam é de tentar procurar um equilíbrio, e de perceber que em certos momentos, não perder um colaborador valioso, poderá implicar dar-lhe maior flexibilidade no seu regime de trabalho, sendo o regime híbrido a escolha mais evidente. Neste sentido, uma das grandes premissas do futuro será a criação de uma política que permita, por um lado, manter os níveis de produtividade e qualidade de um negócio, ao mesmo tempo que se atua em linha com as preferências e as necessidades dos seus colaboradores.
Os últimos dois anos marcaram um virar de página na forma como durante as últimas décadas encarámos o paradigma laboral. Em consequência, as empresas que se alienarem desta adaptação ficarão claramente em desvantagem competitiva, enquanto as que se assumirem como pioneiras nesta transição para uma maior flexibilidade, estarão sem dúvida na vanguarda, tornando-se certamente as mais apetecíveis e com maiores índices de felicidade no trabalho. O grande desafio é não encarar esta mudança como algo temporário mas sim como uma oportunidade de evolução.

As Principais Vantagens do Nomadismo Digital

É seguro afirmar que o nomadismo digital é um dos estilos de vida que mais tem crescido nos últimos tempos. Potenciado pela pandemia e por todas as mudanças e adaptações que a mesma obrigou, este conceito deixou de ser algo exótico e para muitos até longínquo, para fazer parte da equação no futuro de muitos trabalhadores ditos convencionais. Previsões apontam para que até 2035 existam mais de 1 bilião de nómadas digitais por todo o mundo, portanto faz sentido refletirmos no que de facto torna este movimento tão popular. 

Os desafios parecem ser mais evidentes, como garantir previamente que os espaços de trabalho/alojamento dispõem de acesso à Internet, acautelar as diferenças horárias de forma a não interferir com a interação com clientes e colegas, ou fortalecer as relações interpessoais. Contudo as vantagens podem não ser tão claras – apesar de múltiplas – e nesse sentido enumerá-las torna-se um exercício pertinente a todos, não só os que já ponderam esta mudança.

A liberdade é a palavra de ordem para qualquer nómada digital. A limitação a um espaço de trabalho, que pode muitas vezes nem sequer oferecer as condições ideais, é a primeira barreira a extinguir-se. Mais do que poder escolher onde se trabalha, enquanto nómada digital, pode escolher-se mudar de local de trabalho diariamente. Para uns fará sentido estar mais perto do mar, para outros da montanha, mas para a grande maioria a chave é mesmo o poder de decisão

O fim das deslocações para o local de trabalho obrigatórias é uma grande vantagem que se divide em diferentes áreas. Primeiramente, permite evitar o tempo perdido nessas mesmas deslocações e utilizá-lo para outras tarefas. Em segundo lugar, permite a redução da poluição ao haver menos deslocamentos de carros e transportes públicos, e finalmente, facilita a conciliação entre a vida familiar e profissional, reduzindo consideravelmente o stress que esses trajetos potenciam.

Quando para muitos de nós o sonho de viajar pelo mundo parecia um sonho para se pensar apenas depois da reforma, e a saúde assim o permitisse, para os adeptos deste estilo de vida, essa pode ser a realidade hoje. Poder conhecer outros países e interagir com outras culturas é provavelmente uma das vantagens mais tentadoras desta opção, o que aliado à questão da liberdade e da flexibilidade, na grande maioria dos casos, se traduz numa maior motivação. 
Quando de facto refletimos sobre as principais vantagens de se tornar um nómada digital, percebemos que a lista poderia ser quase infindável. Crescimento pessoal, novos desafios, novos hobbies, fazer parte de uma comunidade global ou aprender novas línguas, continuam a ser apenas algumas das muitas mais-valias deste estilo de vida que parece estar a  disseminar-se a uma velocidade estonteante.

Ana Melo, Cooperativa Cowork das Aldeias de Montanha – Alvoco das Várzeas

A beleza dos lugares singulares é que podemos criar uma ligação com eles que não implica raízes familiares nem ligações afetivas. É algo mais profundo que advém quase sempre do que a presença nesses lugares nos faz sentir. A Ana encontrou esse elo com as aldeias de montanha, e hoje sabe que essa relação embora não seja de sempre, será para sempre. Para nos explicar o porquê deste acontecimento, e o que de facto torna estes territórios tão especiais, usámos mais uma vez as vantagens do universo digital e marcámos encontro.

 Filha de um pai Setubalense e de uma mãe Algarvia, hoje é a vila de Azeitão a que chama de Casa. Foi para Lisboa estudar Design de Comunicação e foi sempre essa a sua área de trabalho, fazendo com que vivesse os últimos anos em Oeiras, antes da mudança. Na altura da pandemia começámos a procurar casa porque queríamos poder ter um quintal e acabámos por vir para Azeitão. A primeira vez que conheceu as aldeias de montanha estava ainda a trabalhar com a sua antiga agência de comunicação e design e apaixonou-se imediatamente por esta zona. Depois, quando ganhou uma bolsa de investigação e decidiu dedicar-se a 100% ao doutoramento, percebeu que poderia encontrar uma forma de voltar lá. O meu doutoramento é sobre design aplicado a territórios de baixa densidade, e eu imediatamente escolhi as Aldeias de Montanha como território para aplicar a parte prática da minha investigação. 
Quando percebeu que gostaria de trabalhar com estas aldeias e de dinamizar estas comunidades, contactou a ADIRAM – Associação de Desenvolvimento Integrado da Rede das Aldeias de Montanha, através da Célia Gonçalves, e aí começaram um caminho de processos colaborativos. Com esta parceria pôde acompanhar todo o processo de criação dos espaços de coworking, a ligação dos mesmos a artesãos locais e a filosofia de economia circular que os sustenta e com a qual se identifica. Todas as pessoas com quem me cruzei foram sempre super queridas, tem-se logo uma relação de proximidade.

Por ter gostado tantos dos espaços de coworking criados pela Aldeias de Montanha, percebeu que tinha de criar lá uma atividade que lhe permitisse trazer outras pessoas a conhecer estes espaços, tendo sido o de Alvoco das Várzeas o escolhido, convidei algumas pessoas da região, e outros especialistas e fizemos uma espécie de workshop para o meu doutoramento e todos ficaram rendidos à envolvência do espaço.  O Alvoco das Várzeas tem aquela praia fluvial lindíssima e o coworking está a 2 minutos. Poder estar a trabalhar e no final do dia ir dar um mergulho no rio é incrível. 
Apesar de ter trabalhado sempre em agência e em regime presencial, agora que o doutoramento está prestes a terminar, já meteu totalmente fora de hipótese regressar ao mesmo sistema, o meu marido também trabalha na mesma área e estamos sempre a dizer que já não nos encaixa voltar a um escritório, depois de experimentarmos esta liberdade e flexibilidade, imaginar esse cenário torna-se uma prisão. Hoje a realidade que conhece, principalmente nas áreas criativas e tecnológicas é a do trabalho remoto ou pelo menos a do regime híbrido, o feedback que tenho é que em anúncios de emprego, especialmente em áreas de programação e tecnologia, se não colocarem pelo menos a possibilidade de regime híbrido o número de candidaturas que recebem é mínimo. As empresas vão de facto ter de se adaptar porque este é o futuro, não há volta atrás.

A colaboração que criou com a ADIRAM fez com que estivesse envolvida numa série de outros projetos desenvolvidos por eles nestes territórios, sempre muito ligados às comunidades locais, e no futuro sabe que esta relação só se poderá intensificar. Agora que se encontra na parte final da escrita da tese, só gostaria de conseguir deslocar-se por períodos maiores para estes espaços de coworking onde criar se torna um processo tão mais leve e por isso tão mais produtivo. Reconhecendo o enorme valor que encontra na região Centro e o potencial em poder ali desenvolver uma série de novas ideias e projetos, a certeza da sua ligação eleva-se ainda mais.

Matilde Leitão, Remote Portugal

Existem pessoas que são o verbo “ir”. Pessoas que encontraram as ferramentas para fazer de qualquer lugar a sua casa ou o seu trabalho, e que por isso não receiam a distância nem a ausência. Pessoas para quem a viagem é um ato constante e não um plano delimitado por datas que se congelam numa qualquer agenda. A Matilde é uma dessas pessoas e não é por isso de estranhar que a nossa conversa a tenha “apanhado” em paragens búlgaras, nesse país que agora escolheu como morada.

A Matilde licenciou-se em Terapia Ocupacional, uma área que sempre a apaixonou e na qual começou a trabalhar assim que terminou o curso. Contudo, foi durante umas férias com amigas que aleatoriamente descobriu no Facebook um curso sobre nomadismo digital e como trabalhar no online. Curiosa decidiu imediatamente inscrever-se, e a partir desse momento, a sua vida pessoal e profissional mudaram de forma drástica, o curso acabou e eu só pensava, eu quero fazer isto, eu preciso disto, e embora eu adore o meu trabalho eu vou estar sempre no mesmo sítio e isso não me faz sentido. O bichinho das viagens já existia, embora ainda não tivessem sido muitas até essa data, então nesse momento começou o plano do que seria a primeira grande viagem, 8 meses pela Ásia. Na altura comecei então o projeto Travelb4settle com o meu ex-namorado e a ideia era fazer um blog e escrever sobre as viagens.

No primeiro ano a base continuava a ser Portugal e após a exploração pela Ásia, seguiram-se 6 meses pela América do Sul. Hoje a mulher que sempre quis estar perto do mar por ter vivido e crescido em Santa Cruz, apaixonou-se pelas montanhas, e é em Bansko na Bulgária que vive há 1 ano e meio. Nos últimos dois anos, além do Travelb4settle, está envolvida numa ONG a “Bansko Lab” e nasceu ainda um novo grande projeto na sua vida – criado juntamente com outros dois co-fundadores – a “Remote Portugal”. A Remote é uma plataforma de educação e conexão no mundo do Trabalho Remoto, que agora se assume de forma oficial como Associação de Trabalho Remoto em Portugal. A ideia é ajudar portugueses a trabalhar remotamente ou mesmo nómadas digitais. Empresas a tornarem-se remotas, consultoria para espaços de coworking e coliving, como atrair essas pessoas que como nós trabalham remotamente e viajam há anos ou pessoas que começaram agora a trabalhar remotamente e que estão um bocadinho sem saber o que fazer.

Dentro do projeto da Remote, em 2020 criaram a “Remote Tour Portugal”, um projeto pioneiro em Portugal que visou demonstrar o melhor que o trabalho remoto tem para oferecer. Foi assim criada uma tour que durou 1 mês, e que incluiu também o centro de Portugal, com trabalhadores remotos e que se focou em 3 grandes pilares: Trabalhar, Viajar e Comunidade. Na região da Ria de Aveiro foi incrível, nós ficamos num espaço que era um alojamento rural que se estava a tentar tornar em coliving e daí o termos escolhido para esta colaboração. Ali percebemos claramente que já há esta consciencialização das necessidades dos trabalhadores digitais e dos trabalhadores remotos. 

Para a Matilde uma das grandes mais valias desta mudança de estilo de vida e da forma como pode agora encarar o seu trabalho, foi a possibilidade de uma aprendizagem constante. A disponibilidade e a oferta cada vez maior de cursos online, permite-lhe estar sempre atenta às mudanças no mercado e poder atualizar-se e ganhar novas ferramentas sem ter de sair do mesmo lugar. Para mim, o meu maior valor na vida é a liberdade. E por isso é que quando soube o que era o nomadismo digital e o trabalho online foi “uau, isto é para mim”. É uma questão de pensar que hoje estou aqui e se quiser amanhã  estou ali. Mas se eu quiser estar aqui um, dois ou três meses, estou. É mesmo a questão de poder fazer o que eu quero e quando eu quero. 

Hoje o seu trabalho é muito mais do que um trabalho, é algo que encara com sentido de propósito e de missão. O desenvolvimento dos cursos, das ações de consultoria e de projetos como a “Remote Tour”, fazem com que possam depois receber o feedback de quem de facto os utiliza como alavanca de uma grande mudança profissional. Todos os participantes ficaram muito meus amigos, ainda ontem falava com uma rapariga que era daquelas que dizia “não, eu percebo mas isto não é para mim”, e agora veio ter comigo aqui a Bansko e é uma viajante que não pára quieta um segundo e que adora ter trabalho remoto.

O futuro imediato parece ser na Bulgária, mas é evidente durante toda a conversa que nunca será a longo prazo, eu sou nómada e não consigo estar muito tempo no mesmo sítio. Mais do que uma verdadeira embaixadora das inúmeras vantagens deste regime, a Matilde é uma embaixadora de todas as incríveis mudanças em que este estilo de vida pode traduzir-se. Eterna amante de viagens, de poder conhecer novas culturas e de sair da sua zona de conforto, o seu percurso envolverá sempre a partilha desses conhecimentos que vai bebendo de todos os lugares e de todas essas experiências. Um dos meus motes de vida é a colaboração. Acho que é a colaborar que podemos de facto fazer a diferença.

Fanny Wicky, Pipedream

A grande vantagem de hoje vivermos num mundo onde as distâncias parecem ter-se extinguido, é a forma como podemos relacionar-nos, sejam quais forem os quilómetros que nos afastam de outra pessoa ou de outro lugar. Foi assim que tranquilamente pudémos conhecer e conversar com a Fanny, de Portugal diretamente para a Suíça, sem filas de aeroportos e sem contribuirmos para as emissões de dióxido de carbono.

A Fanny nasceu e cresceu na Suíça e foi na cidade de Genebra que decidiu iniciar o seu percurso no ensino superior, no curso de Direção de Arte, podendo aí desenvolver os seus conhecimentos em áreas que sempre a apaixonaram, como o design gráfico, a fotografia ou a comunicação. Foi durante esse período que uma pessoa a abordou pedindo-lhe para lhe criar um website. Nessa fase ainda não sabia como fazê-lo, mas decidiu aprender por si e aceder a esse pedido, quando eu percebi que sabia construir sites, pensei, isto é incrível, eu posso ganhar dinheiro a trabalhar a partir do meu quarto, a fazer algo que realmente gosto e ainda aprender muito. Este foi um momento de viragem no que viria a ser a sua vida, mas nessa altura a ideia de criar o seu próprio negócio ainda lhe parecia muito distante. 

Vinda de uma família onde todos seguiram profissões mais convencionais, como o ensino, a medicina ou a investigação, nunca tinha tido contacto com o mundo empresarial, nem fazia ideia do que seria necessário para se aventurar nesse sentido,  pensar em construir um negócio era muito diferente dos trabalhos que tinha enquanto estudante, como vender sandes numa estação de comboios às quatro da manhã. Com o aparecimento de novos clientes percebeu que necessitava mesmo de criar a sua própria empresa e foi assim que mais uma vez, fazendo essa pesquisa sozinha, se tornou empresária, apenas com 22 anos.

Muitos dos seus clientes eram também eles empreendedores que começavam a dar os primeiros passos na criação do seu negócio, e na grande maioria das vezes sentia-os ainda bastante perdidos quanto ao cliente ideal, valores, missão e  estratégia de marketing e decidiu aprofundar os seus conhecimentos através de um MBA em Empreendedorismo e Inovação. Foi assim que todo o processo se tornou muito mais fácil e que criei a minha segunda empresa que agora é a principal “The Bold Lab”. Aqui eu ajudo os empreendedores de A a Z, através de um método que mistura coaching, mentoring e consultoria: Business & Lifestyle Design. Além deste trabalho ainda dá aulas online, eu odeio ensinar uma nova feature do instagram que eu sei que em dois meses vai mudar e eles vão sempre precisar de mim. Para mim o que é interessante é ajudá-los uma única vez numa coisa que nunca vai mudar, como o nosso cérebro e a forma como tomamos decisões.

A liberdade de poder decidir a sua localização enquanto trabalha é hoje algo de que não prescinde e a ideia de cumprir um horário e de ter de estar num escritório é um pesadelo, há 2 anos atrás recebi uma proposta de um cliente muito grande que me exigia que eu fosse regularmente ao escritório e aí eu tive de pensar “será que quero este contrato ou poder manter-me livre?” e como para mim é essencial poder viajar e conhecer pessoas novas, assumi o risco e recusei. É neste sentido que apenas neste início de ano, já passou duas temporadas fora, uma delas em Bali e outra nas Ilhas Canárias. Mas foi enquanto planeava o destino para passar um dos meses verão – tendo a prática de surf como elemento essencial – que Portugal surgiu e lhe pareceu o favorito, mesmo quando comparado com a Tailândia ou a Costa Rica.

Cheguei ao Pipedream em Ferrel eram 21h e estavam a fazer um churrasco e eu sinto que entrei logo num novo grupo de amigos. Toda a gente foi sempre simpática comigo, nos mercados, os instrutores de surf, a senhora que cuidava no nosso jardim, os taxistas. Eu acho mesmo que só conheci pessoas simpáticas. Durante a sua estadia de um mês em Portugal neste espaço de coliving e coworking, surfou todas as manhãs e aproveitou as tardes para trabalhar e conheceu ainda a famosa Festa de Ferrel onde se surpreendeu com a mistura de turistas, jovens e gerações mais velhas, algo que seria impensável de encontrar na Suíça. As ondas são incríveis, é seguro andar na rua à vontade sozinha, o clima é ótimo, a vida é leve e simples e os preços são acessíveis, vou voltar de certeza absoluta. 

Se toda a gente fosse nómada digital não haveria mais guerras no mundo, esta é a visão que a vida enquanto nómada digital lhe tem dado. A liberdade de explorar novas culturas, aprender novas formas de estar, abrir a mente e de perceber que não existe apenas uma maneira de se viver são algumas das grandes vantagens que vê no universo do nomadismo digital. Eu estava a dar aulas antes da pandemia aos meus alunos de mestrado e eu diria que 10% queriam criar o seu próprio negócio e agora 90% dizem que não querem um trabalho convencional e que querem ser nómadas digitais ou pelo menos criar o seu próprio negócio. 

A Fanny é o retrato perfeito não só de uma geração sem fronteiras nem amarras, mas também e acima de tudo de uma nova forma de encarar o mercado de trabalho, onde a flexibilidade é tão crucial quanto o sentido de responsabilidade e de autonomia. Longe das ideias ultrapassadas da possibilidade de um trabalho para a vida toda, o futuro está de facto nas mãos dos que se adaptam e se reinventam todos os dias, como a Fanny.


Francisca Carvalho, Cowork Base

Para muitos a ideia de um espaço de cowork ainda está associada a um espaço partilhado, onde cada pessoa ou equipa trabalha na sua pequena ilha. No Base Cowork a realidade que ali se vive é bem diferente, e isso é imediatamente perceptível assim que se entra pela porta. Por entre arquitetos, engenheiros, designers, pessoas da área de comunicação, e a lista poderia continuar, fomos conhecer a Francisca Carvalho, especialista em recrutamento e recursos humanos, e presença assídua no Base.

A Francisca nasceu em Coimbra, mas foi em Alvega que cresceu, no concelho de Abrantes, e é enquanto ribatejana que se identifica. Licenciou-se em Psicologia das Organizações no Porto e confessa terem sido esses, alguns dos melhores anos da sua vida. Posteriormente passou por variadas empresas em Portugal, na sua grande maioria multinacionais, mas foi numa viagem a Londres para visitar uns amigos, que percebeu que poderia estar ali uma oportunidade. Fiz o meu CV em inglês e comecei a mandar candidaturas e em menos de um mês tinha uma oferta de trabalho. Fiz entrevistas online e passados dois meses, mudei-me para Londres. Acho que ter uma experiência no estrangeiro é sempre enriquecedor, não só em termos de trabalho mas do nosso próprio mindset.

Em Londres encontrou ótimas oportunidades de trabalho, a possibilidade de desenvolver o seu inglês, e ainda a de conhecer e aprender com diferentes culturas, mas não encontrou algo valioso, qualidade de vida. Na altura conheci a cidade de Bristol, achei que podia ser feliz ali, despedi-me e fomos viver para lá, eu e o meu companheiro. É uma cidade muito vibrante no sentido artístico também, que é algo que me interessa. Foram 6 anos de grandes aprendizagens, entre Londres e Bristol, da possibilidade de fazer muitas das suas viagens de sonho, como a Índia, Tailândia e Brasil, mas o regresso a Portugal esteve sempre na sua mente. O sol já me fazia muita falta e um dos aspetos que me fez mais confusão foi que sempre que eu vinha e olhava para os meus pais, reparava que eles estavam mais velhos. Depois veio o Brexit e acelerou ainda mais esse processo de decisão.

Despediram-se e regressaram a Portugal, nessa fase já com um primeiro bebé a caminho, e com a decisão em mãos de escolher o que viria a ser a sua nova morada. Não queríamos estar muito longe do mar, queríamos um sítio central em que pudéssemos também viajar por Portugal. Já conhecíamos Leiria, era uma cidade atrativa em termos culturais, que tem todos os serviços – especialmente quando se tem uma criança – mas ao mesmo tempo que não é demasiado busy. Quando questionaram alguns conhecidos que já viviam em Leiria, o feedback foi sempre positivo e isso facilitou com que há 3 anos se mudassem de armas e bagagens. 

Apesar de valorizar o contacto humano e de ser algo que lhe faz muita falta, quando surgiu a possibilidade de ter um trabalho remoto na sua área, pareceu-lhe a opção ideal para esta fase da sua vida. Além de ser o “work from anywhere”, se quiser entrar ou sair mais cedo, está tudo bem – o que interessa é o delivery, ter os resultados quando necessários. Hoje por exemplo, quando abri o computador já tinha uma mensagem do dono da empresa a dizer “you know the rule, it ‘s Friday, 4 hours and 4 hours only”. Ou seja, eu à quinta-feira já sinto que quase estou de fim-de-semana.

Apesar de valorizar a liberdade que este trabalho permite, a tal falta de contacto com outras pessoas trouxe a necessidade de procurar opções de coworking. Trabalhar a partir do Base permitiu-lhe assim ter colegas com quem pode estar presencialmente, além dos que vê todos os dias através do ecrã do computador. Temos sempre o “social Friday” na última sexta feira do mês em que ao final do dia vamos beber um copo, e acima de tudo há aquele espírito de comunidade e de entreajuda que o Carlos, que é o dono deste espaço, tenta imprimir. 

A centralidade de Leiria permite que nunca se sintam distantes dos amigos nem da família e que os possam visitar com regularidade, mas a dinâmica que existe na própria cidade também faz dela apetecível para diferentes programas. Aos sábados de manhã, estaciono e faço tudo a pé no centro. Aqui temos kms e kms à beira rio para passear, vários parques para crianças, e muito comércio de rua que é o que eu mais gosto. Além disso, ainda há muita oferta cultural e diversificada, tanto para nós como para os mais pequenos. Hoje, com mais um bebé a caminho, todas estas mais valias que encontrou no Centro, vão reforçando a certeza de terem feito a escolha certa. 

Ao longo de toda a conversa foi-se tornando evidente o quanto os anos fora de Portugal contribuíram para que hoje valorize ainda mais a vida que veio reencontrar no Centro. Como muitas vezes acontece, a distância reforçou os laços e as raízes que de forma inquebrável a ligam a este território, e a vontade de que este seja também o lugar onde quer ver os seus filhos crescer. Por outro lado, a possibilidade de poder trabalhar remotamente, trouxe uma liberdade e uma flexibilidade acrescidas, e de que já não se imagina a abdicar. Acho que temos uma excelente qualidade de vida – perto da praia, com acesso a muitos espaços verdes, espaços de coworking, e até agora estou super satisfeita e nada arrependida da nossa decisão de nos mudarmos para cá.

Manu Romeiro e Fábio Superbi, São Miguel de Acha

São Miguel de Acha, uma pequena freguesia do concelho de Idanha-a-Nova revelou-se uma surpresa dentro do universo tão singular e diverso da região centro. Ruas estreitas vão desembocar em bonitos largos que criam círculos entre as casas, como se fossem pequenos recreios. Flores nas soleiras de todas as portas, paredes de pedra e o charme típico de lugares por onde o tempo passa devagar. Foi nesse momento de deslumbramento que começamos a ouvir os risos do Fábio e da Manu, e de passada rápida em fuga do calor, entrámos na Casa da Cultura e demos início a uma viagem

Ambos a viver e a trabalhar em São Paulo, conheceram-se há 7 anos enquanto partilhavam o mesmo espaço de coworking e desde aí que partilham a vida e a arte. A vinda para Portugal aconteceu em 2017 com um propósito inicial, o de a Manu tirar o mestrado em Pintura na Faculdade de Belas Artes em Lisboa, e o Fábio poder calmamente trabalhar enquanto marionetista e contador de histórias. Não existia nenhum plano além de ficarem durante todo o período do mestrado, mas a verdade é que a possibilidade do regresso ao Brasil se foi dissipando. Foi através de uma amiga que em 2018 conheceram a aldeia de São Miguel de Acha pela primeira vez, onde ficaram a passar essa passagem de ano, e no ano seguinte decidiram repetir a experiência. Até esse momento a aldeia era apenas um lugar onde ambos gostavam de estar, mas rapidamente perceberam que afinal de contas, viria a significar bem mais do que isso. 

Tendo de deixar o terceiro apartamento em Lisboa, começou a surgir a ideia de que seguissem para outras paragens, e de repente a próxima morada parecia de alguma forma já estar escrita. A chegada da pandemia em 2020 fez acelerar o processo de decisão e foi assim que chegaram à aldeia, ficando os primeiros 4 meses numa residência artística por intermédio de amigos. A “casa do campo”, como carinhosamente lhe chamam, ficava a mais ou menos 2 km da aldeia, não dispunha de energia elétrica e a água era apenas do poço. Havia um gerador que funcionava um dia sim e 20 dias não. Voltámos a descobrir o mundo. Eu a ler o que lia antes e a dormir bem, sem mais distrações (Fábio). Foi incrível morar no mato, conhecer os pássaros da região como a pega-azul, as salamandras de cores vivas, as corujas.

Apesar de se terem apaixonado por essa casa de campo e pela disponibilidade de criação que a mesma lhes dava, houve necessidade de virem para a aldeia, de forma a conseguirem corresponder aos vários projetos que desenvolvem com outras cidades e também com outros países. Mas até hoje não temos planos exatos. Não sabemos vamos só vivendo, mas diria que nos próximos dois anos ficamos aqui na aldeia de certeza. Gostámos muito e fomos muito bem recebidos. Cada esquina é uma conversa. Aqui temos espaço e isso é incrível, nesta casa onde estamos agora temos um atelier para cada um de nós.

O facto de se sentirem de alguma forma devidamente instalados e com vontade de permanecer, levou a Manu a querer desenvolver um dos seus projetos, mas desta vez podendo aprofundá-lo. Foi assim que nasceu o “Retrato Falado”, filho de uma performance e intervenção artística que já desenvolvia há vários anos, trocando retratos por histórias, mas desta vez com a ajuda de Fábio. Durante quatro meses, a Manu desenhou mais de 50 pessoas da aldeia e gravou histórias que lhe contaram durante esse processo, o que importa é o encontro, a pessoa leva o desenho e eu gravo a história. É uma troca, um processo artístico conjunto. Finda essa primeira parte, o Fábio transcreveu-as e fez algo a que chama de “transcriação”. O resultado que hoje pode ser descoberto na Casa da Cultura é um retrato coletivo pintado em tecido e costurado por uma senhora da aldeia que tem como pano de fundo a voz de Fábio enquanto contador dessas histórias. A premissa foi construir uma história coletiva a partir de histórias individuais e criar uma onda narrativa e não algo com princípio meio e fim. 

Num mundo que corre a uma velocidade cada vez mais furiosa, onde o tempo parece sempre pouco e a lista de coisas para fazer e de sítios para estar parece cada vez maior, a Manu e o Fábio parecem ter encontrado um lugar onde nada disso existe. Aqui nunca estamos ansiosos por ter de corresponder a muitos compromissos. Aqui há menos tropeçamentos, menos interrupções e isso é ótimo principalmente para a criação e o nosso bem estar. Se São Miguel de Acha os estranhou num primeiro momento, não sabemos precisar, mas hoje parece ser evidente que os entranhou, porque hoje eles também são parte integrante do retrato que aqui contam e desenham.

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Rui Pina, Cooperativa Cowork @ Aldeias de Montanha – Videmonte

No mundo digital a distância enquanto intervalo entre dois lugares é hoje uma ideia distante. Desde que a internet esteja do nosso lado, qualquer chamada de vídeo nos permite falar de forma confortável com alguém que se encontre do outro lado do mundo. Nesta conversa com o Rui a distância era apenas de algumas dezenas de quilómetros e a perfeita qualidade da ligação fez dela algo muito similar a um encontro numa qualquer esplanada de café.

A ligação do Rui a Videmonte é umbilical. Apesar de ter nascido e crescido em Coimbra, todas as férias eram passadas nesta aldeia, desde pequeno que passo aqui temporadas, passava aqui as minhas férias sempre com os meus avós. Íamos para a serra com o trator e, enfim, divertia-me à brava quando era pequenino. Hoje a aldeia parece ter ficado mais vazia com a ausência dos seus avós, mas por outro lado, transformou-se no ponto de encontro de toda a família, numa espécie de epicentro de todas as reuniões e eventos familiares. As pessoas aqui são únicas porque ajudam-se sempre todas umas às outras, é uma dinâmica que não encontro nas grandes cidades.

A primeira vez que o Rui deixa Coimbra é para iniciar o seu doutoramento em Inglaterra na área de Engenharia Civil e é no seguimento do mesmo que surge a oportunidade de trabalhar em Itália, onde vive ainda hoje. Nesta empresa o seu trabalho foi sempre feito a partir de casa, excepto quando a necessidade existia de visitar clientes presencialmente. Pós-pandemia, já conseguimos ter muitas reuniões remotamente e portanto fazemos tudo dessa forma e as minhas equipas estão todas a trabalhar remotamente também. 

A possibilidade de encontrar um espaço de coworking em Videmonte parecia remota, até de facto regressar este verão e pela primeira vez sentir a necessidade de usar um destes espaços. Foi assim que o Rui descobriu o coworking de Videmonte, inserido na Rede de Aldeias de Montanha, e contando com mais dois espaços, Lapa dos Dinheiros e Alvoco das Várzeas. Este espaço de coworking oferece-me as condições necessárias ao meu trabalho, e assim a possibilidade de poder estender as estadias aqui em Videmonte e ao mesmo tempo continuar a trabalhar. Portanto dá para continuar a gozar o tempo com a família que está longe mas fazer o trabalho na mesma que faria em casa. Se houvesse um espaço destes lá ao lado da minha casa em Roma, era melhor do que estar a trabalhar em casa. 

Hoje Roma é a sua Casa, e a pequena quinta que entretanto comprou nos arredores da cidade, um dos seus grandes projetos, além da carreira profissional. A ideia de poder finalmente manter-se perto da cidade mas longe do caos foi algo há muito desejado e que agora se concretiza. Perfeita para poder trabalhar perto da natureza, algo que partilha com a sua esposa e também para poder ver crescer os seus dois filhos, ah e agora na quinta também somos produtores de azeite, divertimo-nos muito. Embora em Roma trabalhe a partir de casa, poder usufruir de um espaço de trabalho partilhado algumas vezes por semana ou por mês não é uma opção que esteja fora da mesa, se houvesse um espaço como este ao lado de minha casa em Roma, era melhor do que estar a trabalhar todos os dias em casa.

Por ser o regime que há mais tempo conhece, este é também o regime com que mais se identifica, o que faz com que a possibilidade de um trabalho que implicasse idas diárias a um escritório, lhe pareça hoje impossível e muito mais limitativo, este tipo de trabalho permite uma maior flexibilidade com a família, mas também permite às empresa poder contratar pessoas com um perfil ideal, onde quer que elas estejam. Embora constate que noutros lugares da Europa esta mudança de mindset esteja a acontecer de forma mais rápida e evidente, não tem a menor dúvida de que esse caminho também esteja a acontecer aqui em Portugal. 

Uma coisa assume-se como certa durante esta conversa, a de que em próximas visitas, sempre que necessite de trabalhar, este espaço de Videmonte será o escolhido. É com grande orgulho que vê o nascimento destes espaços neste lugar que será sempre a sua segunda casa e no investimento neste tipo de iniciativas através de instituições locais. Aqui dá para se ter uma vida bastante calma, apreciar a beleza natural desta aldeia, aproveitar o rio, a serra e uma série de coisas que não se tem de todo numa cidade. Se eu estivesse aqui em Portugal certamente procuraria este tipo de ofertas mesmo que não fosse esta a minha aldeia.

Leiria, do mar à serra, da história à gastronomia

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Um videojogo para desvendar o passado de Idanha-a-Velha

Desenvolvido pelo conceituado estúdio Trahelium, este jogo coloca o jogador no papel de um aprendiz de epigrafista que viaja de Roma até ao extremo ocidental do Império Romano, Idanha-a-Velha.

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Julia Galecka, Offício

Voltámos ao Offício e a uma das ruas mais bonitas e emblemáticas da cidade de Tomar porque percebemos que ali havia mais uma interessante história pronta a ser contada. Para variarmos no espaço escolhemos uma das muitas esplanadas que por ali existem e deixámos que a informalidade do lugar ditasse a ausência de regras para uma conversa que se quer orgânica e de partilha, e foi exatamente isso que viemos a encontrar nas palavras da Julia.

Diretamente da Polónia para o Centro de Portugal, este foi o lugar escolhido por Julia e o marido para começar um novo capítulo das suas vidas em setembro de 2021. A compra da casa foi feita vários meses antes mas só em setembro conseguiram vir mesmo de malas e bagagens. Nos últimos 10 anos na Polónia viviam já numa aldeia na floresta, depois de se terem cansado da loucura de Varsóvia e quando escolheram Portugal sabiam de antemão que não queriam viver numa grande cidade, decidimos experimentar Portugal por ser um lugar onde não estaríamos super distantes da nossa família e amigos e quando chegámos aqui sentimos imediatamente boas vibrações.

Numa fase inicial viviam cá e lá, mas com a mudança do paradigma laboral, a Julia decidiu perguntar à Agência de Publicidade onde trabalha se poderia continuar com eles mas fazendo-o a partir de Portugal e eles aceitaram. Como nesse momento a casa ainda não estava pronta para que pudesse trabalhar lá, pesquisou opções de coworking e descobriu o “Offício” o que se revelou a solução perfeita, começo a ter alguns amigos aqui, a maioria do Offício e das aulas que fiz presenciais em português quando chegámos. O seu marido continua a deslocar-se com maior regularidade para a Polónia porque trabalha na indústria de filmes e de publicidade, mas a longo-prazo mudar de área é uma opção que está em cima da mesa como forma de conseguir viajar menos e permanecer mais em Portugal.

Nesta região encontrou uma forte envolvência da Natureza, um dos requisitos essenciais para si, mas acima de tudo e segundo ela a genuinidade dos portugueses e a sua hospitalidade, o sol durante todo o ano, e uma forma de viver mais lenta e mais leve, na Polónia temos a necessidade de estarmos sempre ocupados e de fazer tudo ao mesmo tempo como se isso fosse uma coisa boa. Aqui consegue ter mais tempo e de maior qualidade de vida, não só para trabalhar mas acima de tudo para pensar e desenvolver os seus projetos pessoais, o meu sonho é trabalhar para pessoas como eu, com as mesmas preocupações, como a natureza e os animais porque não estamos sozinhos neste planeta.

Fãs de hiking e de tudo o que implique estarem rodeados por natureza, todos os fins de semana Julia e o marido se transformam em exploradores dentro desta região. Enquanto a maior parte dos portugueses foge para o mar, eles fogem sempre para lugares onde é a mãe natureza quem reina. Quando as pernas ficam demasiado cansadas trocam as caminhadas por verdadeiras expedições a feiras de velharias e lojas em segunda mão. 

O grande projeto, mesmo para quem assume não fazer grandes planos, é o de recuperar a “ruína”, como carinhosamente chamam à casa que compararam em Alvaiázere. A ideia é depois poderem transformá-la num lugar onde possam confluir várias artes, num espaço de cultura e criatividade, e para que possa deixar o trabalho da agência e seguir o seu caminho, não sei quanto tempo vou viver aqui, mas eu não sinto que precise nomear tudo como “esta é a minha casa” ou “eu vou viver aqui para sempre” mas agora sinto-me bem aqui agora e muito feliz.

Andreas Frank, Offício

Existe uma beleza intemporal – provavelmente advinda do seu passado templário – que é ali ainda hoje tão presente, que faz da Rua Serpa Pinto, eternamente conhecida como Corredoura, um lugar especial. Morada de lugares icónicos, como o centenário “Café Paraíso”, mas também e acima de tudo, lugar de passagem diária e constante, de encontros e de reencontros. Foi aqui, em pleno coração da cidade de Tomar, que fomos encontrar o Offício, um espaço de coworking criado por Andreas Frank, o nosso anfitrião para esta conversa.

Andreas é natural de uma pequena vila na Alemanha, mas foi em Munique que viveu nos últimos anos antes de se mudar para Portugal. Como muitas vezes acontece, foi o amor que lhe criou a primeira ligação ao nosso país, estando hoje casado com uma portuguesa que conheceu quando ainda vivia na Alemanha. Foi no momento em que começaram a pensar em constituir família, que se tornou evidente para ambos que não queriam fazê-lo numa cidade grande, especialmente uma cidade como Munique. Sendo que a ideia de procurarem uma casa nos subúrbios não se afigurava atrativa, a opção que se tornava ideal de forma cada vez mais consistente era mesmo a mudança para Portugal, e assim foi. Fizeram as malas, deixaram o apartamento que partilhavam em Munique e deram início a um novo capítulo na aldeia de Lamarosa, no concelho de Torres Novas. 

A região centro foi a primeira escolha por serem essas as raízes da sua esposa Andreia Granada, e também por ali poderem estar mais perto da família, contudo, hoje em dia sentem que não faria sentido terem escolhido outro lugar. Há 5 anos quando descobriram a casa onde hoje vivem, rapidamente se apaixonaram pelo seu potencial. Andreas trabalha enquanto jornalista freelancer, dedicado a artigos sobre casas inteligentes e formas de usar a energia de forma mais eficiente, e a sua esposa trabalha por conta própria, e neste sentido, ambos estavam habituados ao conceito de coworking. Foi por isso um passo natural a busca por esse tipo de oferta. Andreas chegou a experimentar dois destes espaços, mas deparou-se com o mesmo problema em todos eles. Por um lado não serem pet-friendly, e por outro não terem o espírito que ele procura, ou seja, não promoverem a interação entre pessoas de diferentes áreas.

A escolha acabou por recair sobre a cidade de Tomar, por ser uma das principais cidades próximas da vila e por ter ali a universidade, mas também por terem encontrado este espaço que lhes pareceu perfeito, principalmente pela sua localização tão central. Foi assim que em 2020 abriram portas, após renovarem a estrutura deste edifício histórico, de tectos altos, com as próprias mãos, e também com a ajuda da família. O aparecimento da pandemia acabou por tornar todo este processo bastante mais lento do que seria suposto, com muitos avanços e recuos, e só na primavera deste ano é que conseguiram de facto usufruir dele com alguma normalidade. Hoje é a sua cadela Lotta que nos recebe assim que aqui entramos, e Andreas parece ter finalmente encontrado o espaço em que sempre sonhou poder trabalhar. Gosto da ideia de não existirem muitos lugares permanentes aqui, mesmo que certas pessoas venham várias vezes por semana, usam quase sempre mesas diferentes e assim cria-se uma mistura interessante e muito dinâmica, e conhecem-se muitas pessoas. Não me assumo como um patrão aqui, quero que todas as pessoas participem nas decisões relativas ao espaço. 

Por estarmos em Agosto, Andreas partilha que acontece ali um fenómeno interessante, em que muitas famílias imigrantes, principalmente vindas de França, ao regressarem para visitar a família, chegam ao seu espaço para poderem trabalhar, enquanto deixam os filhos com os avós. Por outro lado, existem também pessoas que chegam ali de tantos outros sítios como a Ucrânia ou a Polónia. As parcerias recentes com algumas instituições locais, também têm trazido a possibilidade de receber ali equipas de start-ups locais, trazendo mais pessoas da própria cidade até este espaço. O facto de estarem situados na Corredoura também faz com que muitas pessoas descubram o espaço quando ali passam e por curiosidade o decidam conhecer. 

Embora o Offício ocupe uma grande fatia do seu dia a dia, Andreas privilegia muito o tempo passado em casa, principalmente no jardim com a sua esposa e os seus dois filhos, onde só encontra mesmo um problema, aqui fica mesmo muito quente no verão, essa é a única desvantagem, diz entre risos. Por outro lado sente dificuldade em enumerar as vantagens que encontra em viver no centro do país, mas destaca o ritmo muito menos acelerado do que aquele em que vivia em Munique, a natureza, o custo de vida bastante mais baixo, a proximidade com Lisboa e a boa oferta de transportes. Em relação aos portugueses, inveja a sua forma de viver ao estilo go with the flow, a constante disponibilidade para ajudar o outro e o facto de serem naturalmente amigáveis. Não sabe se o futuro será para sempre por estas paragens, porque a verdade é que o medo da mudança se perde depois da primeira transição, mas nesta fase é aqui que se imagina a viver, este é sem dúvida um sítio muito bom para as crianças crescerem.

Work FromSerra da EstrelaCategorias
New Hand Lab

+ info
New Hand Lab - Associação Cultural, Travessa do Ranito, Covilhã, Portugal
962 697 493
newhandlab@gmail.com
www.newhandlab.com

Serra da EstrelaCo-worktrabalho remototeletrabalhoequipainternetsecretáriazona com privacidadeespaço amplosala de reuniõescoworkcozinhaimpressoracomunidade
Co-work Fundão

+ info
Edifício da Antiga Praça Municipal - Rua dos 3 Lagares, 6230-421 Fundão
275771169
dii@cm-fundao.pt
www.movetofundao.pt

Serra da EstrelaCo-worktrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriazona com privacidadesala de reuniõesimpressoracoworkcomunidadecozinha
Fab Lab Aldeias do Xisto

+ info
Antigo Mercado Municipal, Rua dos 3 lagares 6230-421 Fundão
275 751 365
fablabax@cm-fundao.pt
https://movetofundao.pt/fab-lab-aldeias-do-xisto/

Serra da EstrelaCo-work/ Incubadoratrabalho remotoequipainternetsecretáriaespaço amplosala de reuniõesimpressoracoworkcomunidade
Incubadora A Praça

+ info
Edifício da Antiga Praça Municipal - Rua dos 3 Lagares, 6230-421 Fundão
275771169
dii@cm-fundao.pt
https://movetofundao.pt/incubadora-a-praca/

Serra da EstrelaIncubadoratrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressoracoworkcomunidadecozinha
Cowork Alpedrinha

+ info
Largo Padre José Carvalho Santiago nº6, 6230-068 Alpedrinha
275771169
dii@cm-fundao.pt
https://movetofundao.pt/cowork-alpedrinha/

Serra da EstrelaCo-worktrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressoracoworkcomunidadecozinha
Espaço Empresa

+ info
Centro de Negócios e Serviços, Praça Amália Rodrigues, 6230-421 Fundão
275771478
dii@cm-fundao.pt
https://movetofundao.pt/espaco-empresa/

Serra da EstrelaAtendimento empresarial + Coworktrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressoracoworkcomunidadecozinha
Cowork "Da +Alta"

+ info
Parque Industrial, Lote 37, 6300-625
271 205 420
nerga@nerga.pt
https://www.cm-sabugal.pt/camara-municipal/rede-wifi-gratuita/

Serra da EstrelaCo-worktrabalho remototeletrabalhoequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressoracoworkcomunidade
Espaço Cooperativa Cowork @ Lapa dos Dinheiros

+ info
Rua do Soito, 6270-651 Lapa dos Dinheiros
inovacao@aldeiasdemontanha.pt
https://coworkaldeiasdemontanha.pt/

Serra da EstrelaCo-worktrabalho remototeletrabalhoequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressoracoworkcomunidade
Espaço Cooperativa Cowork @ Videmonte

+ info
Largo da Igreja n.º 2, 6300-245 Videmonte
inovacao@aldeiasdemontanha.pt
https://coworkaldeiasdemontanha.pt/

Serra da EstrelaCo-worktrabalho remototeletrabalhoequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressoracoworkcomunidade
Rede Co-working Sabugal

+ info
Rua Luís de Camões, Nº 16 | 6320-380 Sabugal
271 751 040
http://www.nerga.pt/

Serra da EstrelaCo-worktrabalho remototeletrabalhonómada digitalinternetsecretáriaespaço amplocowork

Work FromMédio TejoCategorias
Tagus Valley

+ info
Rua José Dias Simão, 2200-062 Abrantes
241 330 330
geral@tagusvalley.pt
https://tagusvalley.pt/inov-point.php

Médio TejoIncubadora/ Co-worktrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriazona com privacidadesala de reuniõesimpressoracoworkcomunidade
Espaço Empreende

+ info
Rua 5 de Outubro n.º61, 2230-121 Sardoal
241 850 000
empreende@cm-sardoal.pt
http://www.cm-sardoal.pt/index.php/pt/investir/espaco-empreende

Médio TejoIncubadora/ Co-worktrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriasala de reuniõesimpressoracowork
ArtOf - Espaço Partilhado para as Artes e Ofícios

+ info
241855194
art.of@cm-sardoal.pt
http://www.cm-sardoal.pt/index.php/pt/investir/espaco-partilhado-para-as-artes-e-oficios

Médio TejoHub Creativo/ Co-worktrabalho remotoequipaespaço amplocoworkcomunidade
SerQ

+ info
Rua J, Nº 9, Zona Industrial da Sertã, 6100-711 Sertã
274 608 626
serq@serq.pt
https://www.serq.pt/

Médio TejoIncubadoratrabalho remotonómada digitalinternetsecretáriasala de reuniões
Officio

+ info
Rua Serpa Pinto 137 - 139, Tomar, Portugal
915 002 122
info@officio.pt

Médio TejoCo-worktrabalho remototeletrabalhonómada digitalinternetsecretáriasala de reuniõesimpressoracoworkcomunidade
Reativa

+ info
Av. Manuel de Figueiredo N.9 R/C, 2450-771 Torres Novas
249 158 488
agencia@reativa.pt
https://reativa.pt/cowork-torres-novas-2020/

Médio TejoCo-worktrabalho remototeletrabalhointernetsecretáriasala de reuniõesimpressoracoworkcomunidade
Cais

+ info
Largo José da Cruz nº 3, 2260-369 – Vila Nova da Barquinha
249720350
cais@cm-vnbarquinha.pt
http://www.cm-vnbarquinha.pt/index.php/pt/investir/cais-espaco-empresarial

Médio TejoEspaço empresarialtrabalho remototeletrabalhointernetsecretáriaespaço amplocowork

Work FromOesteCategorias
Ossos do Ofício

+ info
Rua da Fonte Nova 2460-028, Alcobaça
262 140 923
ossosdooficioo@gmail.com
https://ossos-do-oficio-creative-lab.negocio.site/

OesteCo-work/ Hub Criativotrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriaespaço amplocowork
HYPEcowork

+ info
Rua de Cabo Verde, bl1 r/c dto, 2460-013 Alcobaça
924237373
info@hypecowork.com
http://www.hypecowork.com

OesteCo-worktrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressoracowork
ALEN_QUER _INOVAR

+ info
Pavilhão Municipal - Rua Orlando Jorge Pereira , 2580 - 385, 2580-385 Alenquer
263 711 673 / 969 653 446
alenquer.inovar@cm-alenquer.pt
alenquerportaldenegocios.pt/inovar

OesteIncubadoratrabalho remototeletrabalhoequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressora
InvestArruda

+ info
Rua Heróis do Ultramar, n.º7 – 1.º, 2630-243 Arruda dos Vinhos
gae@cm-arruda.pt
https://www.investarruda.pt/

OesteIncubadora/ Co-worktrabalho remototeletrabalhonómada digitalinternetsecretáriasala de reuniõesimpressoracoworkcomunidade
Colmeia

+ info
Quinta de S. João, polypark, 2630-260 Arruda dos Vinhos
21 390 3791

OesteCo-worktrabalho remototeletrabalhointernetsecretáriasala de reuniõesimpressoracoworkcomunidadecozinha
Silos - Contentor Criativo

+ info
"Rua Filinto Elísio, Moagem CERES, Edifício Fábrica I, 2500-202 Caldas da Rainha
"
912288809
siloscr@gmail.com
https://www.silos.pt/

OesteHub criativotrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressoracoworkcomunidade
Prontos

+ info
Avenida Primeiro de Maio, 20 A, 2500-081 Caldas da Rainha
927 547 049
estamos@prontos.pt
https://prontos.pt/

OesteCo-worktrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriasala de reuniõesimpressoracowork
StartUp Lourinhã

+ info
Centro Cultural Dr. Afonso Rodrigues Pereira, Rua João Luis de Moura, nº 60 2530-157 Lourinhã
261410138
startup@cm-lourinha.pt
http://www.oesteempreendedor.pt/incubadora-de-empresas-da-lourinha/

OesteIncubadoratrabalho remotointernetsecretáriasala de reuniõesimpressoracomunidade
Ohai Resorts

+ info
Estrada Nacional 242 — Km 31,5 - 2450 – 138 Nazaré, Portugal
262 561 800
infonazare@ohairesorts.com
https://ohairesorts.com/nazare/instalacoes/sala-de-estar-coworking/

OesteHotel/ Co-worktrabalho remototeletrabalhonómada digitalinternetsecretáriaimpressoracowork
Óbidos Parque

+ info
Parque Tecnológico de Óbidos - Edifícios Centrais, Rua da Criatividade, 2510-216 Óbidos
262 955 700
obitec@cm-obidos.pt
https://www.obidosparque.com/

OesteParque Tecnológicotrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressoracomunidade
Selina Peniche

+ info
Av. do Mar 100, 2520-101 Ferrel
927 799 555
https://www.selina.com/pt/portugal/peniche/

OesteCo-work/ Co-livingtrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriasala de reuniõesimpressoracoworkcomunidadecozinhapatrimónio
Aktion Peniche Hostel & Apartments

+ info
R. Alexandre Herculano, 2520-273 Peniche
+351 262 247 980
peniche@aktionhostels.com
https://www.hostelshub.com/aktion-peniche/

OesteCo-work/ Co-livingtrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriasala de reuniõesimpressoracoworkcomunidadecozinhapatrimónio
PipeDream

+ info
Rua Do Jardim No 18, Ferrel, Peniche, Portugal 2520-144
+ 34 627 509 945
info@pipedream.fun
http://www.pipedream.fun

OesteCo-work/ Co-livingtrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriazona com privacidadecowork
Largo Space

+ info
Largo dos Galeões 1 2520-245 Peniche
960 001 270
hello@largospace.com
http://largospace.com/

OesteEspaço colaborativotrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipafamíliainternetsecretáriaespaço amploimpressoracoworkcomunidade
Co-work Torres Vedras

+ info
Rua Dr. Gomes Leal, nº 3A,, 2560-331 Torres Vedras
261 408 673
ola@coworktorresvedras.pt
https://www.coworktorresvedras.pt/

OesteCo-worktrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriazona com privacidadesala de reuniõesimpressoracoworkcomunidadecozinha

Work FromBeira BaixaCategorias
CEI- Centro de Empresas Inovadoras

+ info
Av.ª do Empresário, 1 6000-767 Castelo Branco
272 241 400
geral@cataa-cei.pt
http://www.cataa-cei.pt/

Beira BaixaCentro Empresarialtrabalho remototeletrabalhoequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressoracoworkcomunidade
Fábrica da Criatividade

+ info
Alameda do Cansado 6000-075 Castelo Branco
272 330 370
fabricacriatividade@cm-castelobranco.pt

Beira BaixaCo-work/ Hub Criativotrabalho remototeletrabalhoequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressoracoworkcomunidade
Green Valley

+ info
Praça do Município 3212-023 Idanha-a-Nova
277 200 570br>recomecar@cm-idanhanova.pt
http://www.recomecar.pt/index9fa8.html?page_id=2468

Beira BaixaIncubadora de Base Ruraltrabalho remototeletrabalhoequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressora

Work FromRegião de CoimbraCategorias
Mira Center - Associação da Incubadora da Beira Atlântico Parque

+ info
Rua do Matadouro Valeirinha 3070-436 Mira
231247020
geral@miracenter.pt
https://www.miracenter.pt

Região de CoimbraIncubadora/ Co-worktrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressoracowork
Biocant Park

+ info
Parque Tecnológico de Cantanhede, Núcleo 04-Lote 2, 3360-197 Cantanhede
231 410 890
info@biocant.pt
https://www.biocant.pt

Região de CoimbraIncubadora/ Parque Tecnológicotrabalho remototeletrabalhoequipafamíliainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressora
Incubadora de Empresas da Figueira da Foz

+ info
Parque industrial da Figueira da Foz - Rua das Acácias nº40A 3090-380 Figueira da Foz
233 407 030/233 407 031
geral@ieff.pt
https://ieff.pt

Região de CoimbraIncubadora/ Parque Tecnológicotrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressoracowork
Mercado de Ideias

+ info
Passeio Infante Dom Henrique 22, 3080-042 Figueira da Foz
233 209 520
paula.bras@cm-figfoz.pt
https://www.cm-figfoz.pt/pages/657

Região de CoimbraCo-worktrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressoracowork
Quartel da Imagem

+ info
Largo Arménio Marques 3080-078 Figueira da Foz
233 209 787
coworking.imagem@cm-figfoz.pt
https://www.cm-figfoz.pt/pages/1302

Região de CoimbraCo-worktrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressoracowork
Espaço Inovação

+ info
Avenida Cidade de Coimbra, nº 51 3050-374 Mealhada
231 281 513
espacoinovacao@cm-mealhada.pt
https://espacoinovacao.cm-mealhada.pt

Região de CoimbraCo-work/ Incubadoratrabalho remototeletrabalhoequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressora
IPN-Incubadora

+ info
Rua Pedro Nunes, 3030 - 199 Coimbra
239 700 300
info@ipn-incubadora.pt
https://www.ipn.pt/incubadora

Região de CoimbraIncubadoratrabalho remototeletrabalhoequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressora
Torre Arnado

+ info
Rua João de Ruão, nº 12 | 3000-229 Coimbra
239 100 660
info@arnado.pt
https://arnado.pt

Região de CoimbraCo-worktrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressoracowork
CETEC - Centro de Empresas Tecnológicas de Coimbra

+ info
Rua Coronel Júlio Veiga Simão 3025-307 - Coimbra
239 497 730
cetec@novotecna.pt
http://novotecna.pt/cetec/

Região de CoimbraCentro Empresarialtrabalho remototeletrabalhoequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressora
Co-work Pátio

+ info
St.ª Cruz, Pto. de São Bernardo, 3000-289 Coimbra
239 857 577
cowork@cm-coimbra.pt
https://www.cm-coimbra.pt/areas/investir/inovar/espaco-co-work-patio-criatividade-e-inovacao

Região de CoimbraIncubadora/ Centro Empresarialtrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressoracowork
INES - Incubadora de Negócios e Empresas de Soure

+ info
"Edifício INES – Sala 0.1
Quinta da Coutada
3130-590 Soure"
239 507 566
geral@aesoure.pt
https://aesoure.pt/ines-incubadora-de-negocios-e-empresas-de-soure/

Região de CoimbraCo-worktrabalho remototeletrabalhoequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressora
Condeixa FoodLab

+ info
Rua Combatentes da Grande Guerra nº 19, 3150-134
913 813 488
sofia.correia@cm-condeixa.pt

Região de CoimbraCo-worktrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriaespaço amplosala de reuniõesimpressoracowork
Centro de Acolhimento de Empresas

+ info
Praça da Liberdade 3220 - 183 Miranda do Corvo
239 530 320
patricia.cortes@cm-mirandadocorvo.pt
https://www.cm-figfoz.pt/pages/657

Região de CoimbraIncubadoratrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressoracowork
HIESE – Habitat de Inovação Empresarial nos Sectores Estratégicos

+ info
Quinta do Vale do Espinhal, EM558, 3230-343 Penela
239 560 120 | 912 229 747
pedro.ferreira@cm-penela.pt
https://www.smartrural.pt/

Região de CoimbraIncubadora/ Co-worktrabalho remototeletrabalhoequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressoracowork
Museu Municipal Prof. Álvaro Viana de Lemos

+ info
R. Miguel Bombarda 18, 3200-248 Lousã
239 993 372
patricia.lima@cm-lousa.pt
https://cm-lousa.pt/locais/museu-municipal-prof-alvaro-viana-de-lemos/

Região de CoimbraCo-worktrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriasala de reuniõescowork
Cerdeira

+ info
Lugar da Cerdeira, 3200-509 Lousã
911 789 605
catarina.serra@cerdeirahomeforcreativity.com
https://www.cerdeirahomeforcreativity.com/

Região de CoimbraResidências Artísticas/ Retiro Empresastrabalho remototeletrabalhoequipafamíliainternetzona com privacidadesala de reuniõesimpressoracomunidade
Espaço CULTIVA

+ info
Rua da Indústria, 3420-316

916442530
rcruz@cm-tabua.pt

Região de CoimbraCo-worktrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressoracowork
CETA - Centro Empresarial e Tecnológico de Arganil

+ info
Av. Irmãos Duarte 3300-013, Freguesia de Arganil, Arganil
235200150/155
carmo.neves@cm-arganil.pt
https://www.cm-arganil.pt/noticias/espaco-arganil-coworking/

Região de CoimbraCentro Empresarial/ Co-worktrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadeimpressoracoworkcomunidade
Espaço Cooperativa Alvoco das Várzeas - Cowork @Aldeias de Montanha

+ info
Rua da Igreja n.º 12, 3400-315 Alvoco das Várzeas
centrodinamizador@aldeiasdemontanha.pt
https://www.aldeiasdemontanha.pt/pt/projetos/Espacos-Cooperativa-Cowork/

Região de CoimbraCo-worktrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriacowork

Work FromViseu Dão LafõesCategorias
Cabicanca Coworking

+ info
R. do Castanheiro 1, 3570-031 Aguiar da Beira
232 689 800
geral@cm-aguiardabeira.pt
https://cm-aguiardabeira.pt/cabicanca-coworking

Viseu Dão LafõesIncubadoratrabalho remototeletrabalhoequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressora
CIDEM – Centro de Inovação e Dinamização Empresarial de Mangualde

+ info
Rua Nova 71, 3530-215 Mangualde
232 619 890/891
cidem@cmmangualde.pt
https://www.cmmangualde.pt/servicos/cidem/

Viseu Dão LafõesIncubadora / Co-worktrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõescowork
Centro de Incubação de Empresas de S. Pedro do Sul

+ info
Termas de S. Pedro do Sul (Antiga Escola Primária das Termas) 3660-692 S. Pedro do Sul
232 720 140
geral@cm-spsul.pt
http://www.cm-spsul.pt/conteudo.asp?idcat=328/

Viseu Dão LafõesCentro Empresarial/ Incubadoratrabalho remototeletrabalhoequipainternetsecretáriaespaço amplo
Incubadora de Empresas de Tondela - Oficina de Artes Criativas

+ info
Rua dos Bombeiros Voluntários 3460-572 Tondela
91 001 94 02
vera.machado@cm-tondela.pt
http://www.cm-tondela.pt/index.php/component/content/article/2-camara/459-incubadora-de-empresas

Viseu Dão LafõesIncubadora Artísticatrabalho remototeletrabalhoequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniões
Incubadora de Empresas de Tondela - Incubadora de Empresas Carmelitana

+ info
Rua dos Combatentes da Grande Guerra, 3460-550 Tondela
232 811 123
pedro.adao@cm-tondela.pt
http://www.cm-tondela.pt/index.php/component/content/article/2-camara/459-incubadora-de-empresas

Viseu Dão LafõesIncubadoratrabalho remototeletrabalhoequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniões
AIRV - Associação Empresarial da Região de Viseu

+ info
Edifício Expobeiras – Pq. Industrial de Coimbrões – 3500 - 618 – VISEU

232 470 290
geral@airv.pt
http://www.airv.pt/

Viseu Dão LafõesCentro Empresarial/ Incubadoratrabalho remototeletrabalhoequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressora
C@deia - Incubadora de Empresas de Vouzela

+ info
Rua Dr. Gil Cabral 13 - Vouzela

23 274 80 24
geral@ael.pt
https://www.cm-vouzela.pt/investir/cdeia-incubadora-de-empresas-de-vouzela/

Viseu Dão LafõesIncubadoratrabalho remototeletrabalhoequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressora

Work FromRia de AveiroCategorias
Incubadora de Empresas de Águeda

+ info
R. Luís de Camões n.º 64, 3750-159 Águeda

234 180 155
incubadora@cm-agueda.pt

Ria de AveiroCo-work/ Centro empresarialtrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressoracoworkcomunidade
Alba Cowork

+ info
Lugar da Vista Alegre - Zona Industrial de Albergaria-a-Velha 3850-184 Albergaria-a-Velha

961548406
albacowork@gmail.com
https://www.albacowork.pt//

Ria de AveiroCo-work/ Incubadoratrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressoracoworkcomunidade
Curia Tecnoparque

+ info
Curia Tecnoparque - 3780–544 Tamengos

231 519 710
curiatecnoparque@cm-anadia.pt

Ria de AveiroCo-worktrabalho remototeletrabalhonómada digitalequipainternetsecretáriaespaço amplozona com privacidadesala de reuniõesimpressoracoworkcomunidade
Ocupa Cowork Aveiro

+ info
R. José Afonso 9, 3800-438 Aveiro

234 346 130
info@coworkaveiro.pt
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Carlos Bernardo, O Meu Escritório é lá Fora!

Foi no coração do centro histórico da cidade de Abrantes, que fomos ao encontro de Carlos Bernardo. A fachada do edifício, marcada pelo traço da arte urbana, e coberta por uma série de padrões – que viríamos a saber, homenageiam os muitos azulejos espalhados pela cidade – não nos permitiu duvidar, estávamos no sítio certo. Foi ali que Carlos nos esperava, naquele que é o seu escritório, mas a que também chama de laboratório, de estúdio ou de galeria, e foi pela mão dele que seguimos, certos de uma viagem que não seguiria em linha reta, mas curiosos com um percurso que se anunciava invulgar.

Carlos Bernardo nasceu e cresceu na freguesia de Rossio ao Sul do Tejo. Ali conheceu uma infância e também uma adolescência que assume ter sido feliz e tranquila, sempre rodeado pelos pais, avós maternos e amigos. Sente-se um sortudo por ter nascido ali e pela forma como esse lugar construiu uma parte tão importante do seu carácter. Desde sempre se lembra de estar ligado ao associativismo, às dinâmicas culturais e desportivas e a um forte espírito de pertença e de comunidade. A importância dessas suas raízes, a esse que era nessa altura o seu “pequeno mundo” foi sendo continuamente fortalecida, mesmo quando a vida o levou para outras paragens. É do Rossio que guarda as suas memórias mais profundas, e a que ainda hoje regressa, através dos cheiros, das paisagens e acima de tudo, das pessoas. Cedo percebi que são de facto as pessoas que fazem os lugares. 

Desde sempre se sentiu como um pequeno explorador e essa sede de ver mais além, alimentou-a ainda em criança através de livros do universo fantástico e depois numa fase adolescente através de livros de viagem. Foi assim, de forma prematura que foi percebendo que a sua imaginação lhe criava uma liberdade sem barreiras nem limites, liberdade essa que combinava com a que sempre sentiu ao longo de todo o seu crescimento no Rossio. Do passado histórico desse lugar e da grande influência do rio na paisagem e nas pessoas, bebeu também grande parte da inspiração que um dia viria a fazer dele um contador de histórias e acima de tudo, um sonhador e um eterno romântico como se confessa. 

O seu percurso académico levou-o até Coimbra para estudar Engenharia Civil, mas rapidamente percebeu que nunca se saberia enquadrar na ideia de um escritório convencional. Contudo, apesar de ter tido essa tomada de consciência relativamente cedo, houve todo um caminho a percorrer, até conseguir deslindar por onde e para onde queria seguir. Ao longo dessa jornada nasceu então o projeto, “O Meu Escritório é lá Fora!”. Nessa primeira fase enquanto blog de viagens, onde através de pessoas partilhava as suas experiências em muitos lugares, dentro e fora do país, mas que ao longo do tempo se foi metamorfoseando e que é hoje uma magazine digital, em breve física também. Vejo-me como um construtor de caminhos, de pontes que ligam lugares, pessoas, conceitos, visões e inspirações.

Para alguém que se vê como um “construtor”, conceitos como a rotina, a monotonia ou a inércia são dilacerantes. É dentro do seu eterno desassossego e de uma busca incessante pelo novo, pelo diferente e pelo que ainda não foi feito, que se posiciona, e foi o resultado desse tremor que tem em si, que fez nascer o Estúdio Tipo-grafia, um estúdio de comunicação e design. Sou fascinado pelo pensamento e pela concretização criativa, mas acima de tudo pela comunicação nas suas mais diversas formas, seja através da escrita, do filme, da fotografia ou do som. Mas se tivesse de escolher apenas uma, seria a fotografia. Essa é sem dúvida a minha forma de arte e de contar histórias de eleição. Enquanto líder deste projeto, mais do que gerir pessoas, gosta de descobrir e de potenciar talentos, e de poder transformar o seu escritório num laboratório de ideias e de experiências.

Para Carlos, viver no Centro, particularmente em Abrantes, não foi uma escolha, mas sim uma consequência natural das suas vivências. Já vi muitos lugares mas ainda hoje continuo a ficar fascinado com este. Este é o único onde de facto me sinto em casa. Rapidamente percebemos que é um grande embaixador deste território. Descreve-nos a multiplicidade de culturas e paisagens que nele encontramos, começando pelo norte do concelho marcado pela floresta e pela barragem de Castelo de Bode, passando pelo centro onde se distingue a arquitetura, o rio Tejo e o centro histórico e terminando a sul, na zona de planície e um lugar muito especial para ele. É essa diversidade que vê como o maior potencial deste lugar e o que faz dele tão especial e diferente de todos os outros. Aliado a tudo isto, ainda estamos numa posição geográfica privilegiada, a apenas 1 hora de Lisboa, do mar, da serra ou de Espanha.

Quanto ao futuro, as certezas são poucas, em consequência da sua forma de estar e de viver tão intensa e efervescente e da necessidade de constante mudança e transformação. Talvez a única seja a de que se imagina a continuar a viver neste lugar, com a Liliana, a sua mulher e a pequena Alice. Tudo o resto é um mar de infinitas possibilidades. Pertenço àquele grupo de pessoas que acredita que pode mudar o Mundo e é isso que tento ir fazendo, devagar, à minha escala, começando por este lugar a que chamo Casa. 

José e Alberto, Arte Xávega

Foi num dia cinzento, daqueles em que nos esquecemos que ainda estamos em agosto e em pleno verão, que seguimos viagem até à Praia da Vagueira, no concelho de Vagos, aquela que segundo muitos é a melhor praia do mundo. A primeira imagem que nos prende é a da extensão do seu areal e paredão e, ao mesmo tempo, a envolvente vegetação e paisagem dunar, um território onde a Ria de Aveiro e o mar parecem entrelaçar-se na perfeição. Junto ao armazém de madeira onde os pescadores guardam o material, foi aí que fomos recebidos pelo José e pelo seu irmão Alberto. Dentro do armazém conhecemos outros membros da equipa, a maioria com fortes ligações familiares entre si. Também eles ajudam nas lides dessa arte de pesca costeira artesanal conhecida como a Arte Xávega.

A Arte Xávega remonta ao século XIX e é hoje uma daquelas tradições que parece estar perto de conhecer a sua extinção. Antigamente, este processo era feito com recurso a juntas de bois, mas hoje as mesmas foram substituídas por tração mecânica através de tratores. Os restantes processos mantêm-se praticamente fiéis ao que sempre foram, de barco, os pescadores lançam as redes ao mar e cercam os cardumes, posteriormente, alam a rede para a costa, sendo o seu equipamento composto por um longo cabo com flutuadores, que tem na sua metade de comprimento um saco de rede em forma cónica. A praia da Vagueira, uma das mais populares desta região, é hoje uma das poucas onde ainda podemos assistir a esta que é a mais antiga forma de pesca no mundo. Esta arte de cerco e arrasto, faz parte da cultura e da história local e é pelas mãos de homens como o José e Alberto que vai sobrevivendo, a verdade é que praticamente nascemos dentro de uma proa de um barco. 

Neste momento conseguem juntar 12 a 13 pessoas, mas noutros tempos chegaram a ser o dobro. Nos dias de hoje é muito difícil arranjar quem queira trabalhar na arte xávega, muito em consequência da própria dureza deste trabalho mas também porque monetariamente se torna cada vez menos compensador. Recordam-se de quando chegavam à praia, vindos do mar, e encontravam 10 a 15 peixeiros à guerra pelo peixe que traziam, mas hoje a realidade é brutalmente diferente. Por outro lado, continua a ser a sua presença na praia, de cada vez que regressam, que atrai turistas que enchem o areal para assistirem à chegada do barco e do peixe, um espetáculo que pela sua raridade continua a surpreender todos. Apesar de existirem apoios para que a tradição se possa manter viva, continua a ser um trabalho muito precário, porque estão sempre dependentes do que conseguem ou não vender e os valores não se comparam com o que eram noutros tempos, o que pescamos é o que ganhamos, barato ou caro temos de o vender, não temos ordenado. 

Continuando a enfrentar a força da rebentação em barcos de madeira como antigamente, já foram muitos os sustos por que passaram ao longo de uma vida dedicada ao mar. Numa dessas vezes o barco começou a afundar, estavam eles no meio do mar sem ninguém ao redor. Estava eu, o meu pai e o meu irmão. Lá vimos finalmente um barco, acenámos e conseguimos chegar ao farol. O sangue estava a ferver e ainda fomos para o mar levantar as redes novamente e tirámos o barco do fundo. Não havia outra hipótese, estava lá o nosso ganha-pão. A instabilidade desta profissão e a sua sazonalidade faz com que quase todos eles já tenham estado envolvidos noutro tipo de trabalhos. Alberto, por exemplo, já esteve na pesca do bacalhau em alto mar, mas por entre risos admite que, o bacalhau é bom é no prato e depois custa porque são 4 meses a ver água, gaivotas e as mesmas caras. Já fui a muitos sítios mas a minha cabeça esteve sempre aqui.

Hoje, a esperança de esta arte se poder prolongar está nos filhos. Eles são danados para a pesca e é muito graças a eles que conseguimos continuar. A manutenção dos tratores por exemplo já são eles que a fazem e assim já conseguimos poupar em alguns custos. É curioso que, apesar das muitas dificuldades por que passam e das muitas histórias que vão partilhando connosco, de momentos a que de alguma forma sobreviveram apenas por milagre, continua a ser evidente o amor a esta arte. A sua identidade confunde-se com a deste mar e essa ligação é de facto umbilical. Estes são, sem sombra de dúvida, os verdadeiros homens do mar, que ficarão gravados na história desta tradição e na memória da Vagueira. A vida de pescador não é fácil, uns dias dá tudo e outros não dá nada, mas ir para o mar é a nossa vida, nós somos isto, este lugar. 

Luís Sousa Ferreira, Ílhavo

Foi no final de uma manhã solarenga de primavera que fomos até ao coração da cidade de Ílhavo ao encontro de Luís Sousa Ferreira. O ponto de encontro foi a Casa da Cultura, um espaço que, pela irreverência da sua arquitetura, não deixa ninguém indiferente, e que, apesar da sua contemporaneidade e arrojo, parece estar em perfeita comunhão com a atmosfera que o envolve. Esperamos uns minutos pela chegada do Luís, enquanto deambulamos pelo interior do espaço numa espécie de visita exploratória, onde todos os pequenos detalhes parecem dignos de alguma contemplação. O Luís aparece de repente, sem que consigamos perceber exatamente de que forma ali chegou, tal é a aura mistério do espaço, e é de olhar sorridente que nos recebe. Sentamo-nos numa mesa ao fundo do átrio principal, num lugar cheio de luz e é aí que damos início à nossa conversa.

Luís é um filho da hoje famosa aldeia de Cem Soldos, em Tomar, mas rapidamente percebemos que é também um filho do próprio centro de Portugal. Estudou Design nas Caldas da Rainha e depois, durante o seu percurso profissional, passou por outros lugares como Vila Velha de Ródão, mas também durante um período considerável por Lisboa. Agora, há já cinco anos, é programador cultural em Ílhavo, o que faz dele responsável por quatro espaços culturais, seis festivais e vários projetos pedagógicos de desenvolvimento da comunidade. A Casa da Cultura é um desses quatro espaços, juntamente com o Cais Criativo da Costa Nova, o Laboratório das Artes no Teatro Vista Alegre e a Fábrica das Ideias na Gafanha da Nazaré. Conta-nos que quando recebeu o convite para vir para Ílhavo estava a viver em Lisboa, em pleno Chiado, e que muitos o questionaram por não perceberem essa sua decisão, mas ele sabia que naquele momento, aquele era o caminho, o meu trabalho cria no lugar aquilo que eu preciso também para estar lá.

O projeto “23 milhas” foi criado por ele, juntamente com a equipa que ali o recebeu. A escolha do nome adveio da imagem simbólica da luz do farol, o maior farol de Portugal, e seguindo a mesma lógica de propósito. Precisamos de criar as dinâmicas culturais que proporcionam o ego e o sentimento de pertença. A partir do momento em que as pessoas têm o sentimento de pertença, vão querer lutar pela sua terra. A experiência que Luís teve enquanto um dos pensadores e criadores do Festival Bons Sons é algo que leva para todos os projetos nos quais embarca, não só pelos desafios mas acima de tudo pelas aprendizagens. A experiência do Bons Sons provou-lhe que esse sentimento de pertença, que lá sempre existiu, foi o que de facto permitiu que o Festival nascesse e crescesse daquela forma, e sem esse elo comum às pessoas da aldeia nunca teria sido possível. Por tudo o que Cem Soldos representa e sempre representou para ele, a sua ligação àquele lugar continua a ser total, apesar de agora viver em Ílhavo. Ainda ontem vim de Cem Soldos porque estou a criar lá um projeto cultural onde irei criar a minha empresa ligada à produção cultural, produção de eventos, mas acima de tudo, ao pensamento integrado entre o que é ser contemporâneo no espaço rural.

Apesar dessa ligação umbilical a Cem Soldos, que faz com que vá até lá com imensa regularidade, o que no futuro será ainda mais evidente com o estabelecimento desse seu novo projeto, hoje a sua residência principal é na cidade de Ílhavo. Conta-nos que vive nos “becos” e que adora poder viver num lugar assim, onde as dimensões de espaço público e privado se diluem e onde as pessoas se apropriam da rua, criando um espírito de vizinhança super interessante e dinâmico. No seu dia-a-dia, gosta de acordar cedo, começar o dia com um jogging e só depois iniciar as suas funções segundo a agenda do dia lhe dita, com a grande vantagem de poder fazer esse trajeto casa-trabalho a pé. Tenho a praia aqui ao lado, a Costa Nova com as emblemáticas casinhas às riscas, o espaço maravilhoso da Vista Alegre e a parte histórica da cidade. 

Para ele, uma das maiores vantagens de viver no Centro é o tempo. O facto de não perder horas infinitas no trânsito é tempo ganho não só para produzir, mas principalmente para pensar. Os recursos tecnológicos de que hoje dispomos permitem que tudo seja possível, seja qual for o ponto de que se parte, e onde muitos podem em forma de preconceito ver obstáculos, Luís sempre viu oportunidades. Não há razão para que um artista em Ílhavo tenha menos condições ou menos ambições que um artista em Lisboa ou em Paris ou em Nova Iorque. Tal como não sabia que um dia iria viver em Ílhavo, hoje também não sabe se é ali que vai permanecer. Essa ideia de mobilidade é algo que quer manter e que lhe interessa manter, embora consciente da pertinência de ter um lugar de pouso, onde possa sempre regressar para recarregar baterias. Vejo um futuro muito auspicioso no Centro, se pensarmos em Leiria, se pensarmos em Aveiro aqui ao lado, se pensarmos em Castelo Branco, se pensarmos na Guarda, em Coimbra ou Viseu, são cidades que têm tudo para dar e que serão novos centros. 

A diversidade que existe no Centro é um problema, mas um “bom problema” nas suas palavras, um daqueles que nos obriga a ser melhores e a pensar e fazer diferente. Ao longo de toda a conversa, foi evidente a paixão que tem por este território e o quanto vê a sua profissão como uma forma de contribuir para ele, reforçando, em todos os momentos, o papel imprescindível que a cultura tem para esse resultado, em comunhão com as pessoas que nele vivem e trabalham. Na despedida deste encontro, levou-nos a passear pelas ruelas de Ílhavo, por esses tais becos a que hoje chama de Casa, e se a agenda nos tivesse permitido ainda agora lá estaríamos a ouvi-lo, presos à fluidez do seu discurso e à poesia que carrega nas suas palavras. 

José Oliveira, Moliceiros

Foi em pleno Cais da Béstida, na vila da Murtosa, já ao cair da tarde, que nos fomos encontrar com o José Oliveira. Era deste cais que partiam, rumo à Torreira, as embarcações que transportavam mercadorias e pessoas, antes da Ponte da Varela em 1964, estabelecendo a ligação física entre as margens nascente e poente da Ria, e onde hoje existe um porto de abrigo para pescadores, construído em 1999. Além da praia fluvial e do cais, apenas um restaurante típico ali existia, conhecido na região pelas enguias, e foi aí que nos sentámos para conversar, longe da ventania desconfortável e ensurdecedora que se fazia sentir na rua. 

Embora o seu contexto familiar e a sua localização geográfica tenham contribuído para que os moliceiros fossem desde sempre parte da sua vida, José trabalhou 17 anos enquanto traçador planificador nos “Estaleiros Navais de S. Jacinto, em Aveiro, até tomar a decisão de se dedicar a 100% a este ofício. Desde 1989 que é responsável pela pintura da maioria dos painéis de barcos moliceiros existentes na Ria de Aveiro e foi por isso, que o Município da Murtosa decidiu homenagear o seu percurso criativo com a publicação de um livro “Memórias – 30 anos a Pintar a Ria”. O livro reúne o seu extraordinário espólio documental, com registo em fotografia dos mais de 600 painéis de barcos moliceiros por si pintados. Ao longo destes mais de trinta anos, o Mestre José Oliveira foi já várias vezes premiado em concursos de pintura e escultura e está representado em várias coleções dispersas por Portugal e diversos países do mundo.

José vê na linguagem brejeira impressa nos moliceiros um repositório de história e de estórias, de tradições e de uma parte importante da nossa identidade e cultura popular. A pintura dos painéis é, assim, uma forma de recuperar memórias e de criar uma espécie de galeria flutuante, mas além desse tributo ao passado, há hoje em dia também um cuidado em ligar essas mensagens às temáticas do tempo presente. Eu no fundo sou duas pessoas diferentes, o José Oliveira e o Zé Manel e quando o Zé Manel chega à beira da ria para pintar os moliceiros não há José Oliveira e vice-versa. Apesar de ser neto de moliceiro e de estar ligado a estes barcos há mais de trinta anos, só por uma vez andou num deles e o barco foi ao fundo, pelo que nunca mais o repetiu. 

Parte da sua família vive emigrada entre a França, a Alemanha e os Estados Unidos. A vida dos moliços era muito dura, instável e pouco rentável, o que justifica essa grande massa de emigração nesta zona. Embora a ideia de emigrar lhe tenha passado pela cabeça, admite que gosta demasiado de viver neste território para que o conseguisse alguma vez deixar, e felizmente trabalho nunca lhe faltou. Gosto mesmo muito de viver aqui. Gosto das pessoas, da terra, da natureza, dos pescadores. 

Quanto questionado sobre o futuro dos moliços, numa perspetiva de que essa arte possa estar à beira do fim, a sua resposta é firme e peremptória, eu costumo dizer que vão acabar primeiro os barcos que os mestres. Há sempre alguém que vem a seguir. É como a história do velho oeste – há sempre um pistoleiro mais rápido do que o outro e que aparece depois. Por outro lado assume que um dos próximos passos, e provavelmente o mais importante, será o de tornar os moliceiros uma embarcação histórica e de interesse a nível internacional. Esta mudança facilitaria a enorme carga burocrática que se foi adensando nos últimos anos para a construção destes barcos e traria o reconhecimento que tanto merecem. 

Conhecer José Oliveira trouxe-nos mais do que a história de vida de um artista plástico, trouxe-nos uma viagem aos primórdios desta já tão longínqua tradição e da forma bonita como ela nos é pintada nas palavras de José. Não assistimos a uma das famosas regatas, mas navegámos de tal forma nas suas descrições que foi fácil sentir como se lá tivessemos estado em carne e osso. Não conseguimos ver o futuro dos moliceiros com a mesma clareza com que José o assume, mas parece-nos certo de que enquanto o José estiver capaz, continuaremos a ver esta arte a desfilar sobre estas águas. 

Bernardo Conde, Trilhos da Terra

Não fosse a estranha força do vento que corria desenfreado nesse dia e pareceria de facto um dia antecipado de verão. Chegámos a Aveiro em cima da hora de almoço e foi no típico restaurante “Adega Evaristo” que nos fomos encontrar com o Bernardo Conde. A conversa fugiu deliberadamente ao propósito do nosso encontro, para que a pudéssemos guardar para o local para ela reservado, e fomos debatendo os temas da ordem do dia, os números do Covid, o futebol e as últimas controvérsias que ouvíamos no telejornal. Finda a refeição, bastou-nos percorrer alguns metros para chegar ao espaço do “Trilhos da Terra” e foi aí que demos início a esta viagem guiada pelo seu criador, o Bernardo.

O que salta à vista logo no primeiro momento são as muitas fotografias expostas nas paredes, as muitas máquinas fotográficas espalhadas pelo espaço e a pilha desordenada de livros e revistas, que invocam explorações e viagens. É sob essa nota que Bernardo começa por nos contar da sua paixão por fotografia, que fez com que aos 15 anos começasse a brincar com máquinas de rolo, até que aos 18 começou a colecionar workshops, para que pudesse aprender mais, e a procurar passar tempo com quem já o fazia de uma forma um pouco mais profissional. Apesar desta paixão evidente, acabou por decidir seguir a sua formação em Engenharia do Ambiente e por trabalhar nessa área durante vários anos. Foi no ano de 2007 que percebeu que estava na hora de mudar e de se dedicar finalmente ao que de facto gostava de fazer, a fotografia. 

Os “Trilhos da Terra” nasceram ainda em sua casa e não no espaço onde hoje nos encontramos. Usava o espaço da minha cave. Fiz dois bancos para levar 8 pessoas e tinha uma sala de formação e um escritório. Depois comecei a fazer também sessões clandestinas de cinema de viagem e tertúlias. Depois em 2015 percebi que a cave já não era suficiente e surgiu este espaço. Com a passagem para este espaço pôde criar novas dinâmicas, como os quizzes, a projeção de documentários, os concertos ou as conversas e foi inserindo um tema também muito importante para si, a conservação ambiental. Antes da pandemia passavam mensalmente pelo espaço 200 pessoas, o que faz com que lhe seja ainda estranho estar neste espaço agora tão vazio. Contudo, essa mudança drástica profissional acabaria por ir muito além deste espaço e foi assim que, nessa mesma fase, iniciou também as suas funções enquanto membro da Agência de Viagens de Aventura Nomad, ficando inicialmente responsável pelos destinos de Madagáscar depois também pela Mongólia. 

Em 2017 volta a congeminar a criação de um grande projeto e nasce o “National Geographic Exodus Aveiro Fest”. A ideia surgiu após visitar um festival de fotografia de viagem em Itália chamado “Cortona On The Move” e também o trabalho da ONG “Rewilding Europe”. O Exodus é um festival de fotografia e vídeo de viagem e aventura, que tem por base palestras inspiracionais e informativas onde o que queremos realmente falar é sobre o estado do Mundo visto pelos fotógrafos, o que faz deste evento uma experiência muito intensa. E foi aqui neste espaço que ele nasceu, numa cave sem vitamina D mas profícua em ideias. Nesta fase, em que a pandemia ainda não permite que retome em pleno as atividades dos “Trilhos da Terra” e da Nomad, tem estado a trabalhar em projetos de fotografia com o Turismo do Centro, as Aldeias de Xisto e o município de Aveiro, porque estar parado não é uma possibilidade para alguém tão desassossegado.

Outro dos projetos que gostava de retomar, e que se tinha esquecido de referir anteriormente, foi o “Explorers” que desenvolvia também neste espaço. Uma espécie de escola direcionada para a exploração, a ecologia, a biodiversidade e a interculturalidade, para a qual criou inclusive um programa curricular e pedagógico, com uma série de atividades que miúdos entre os 6 e os 10 anos faziam depois das aulas e para o qual muito contribuíram os 20 anos que dedicou ao escutismo. Tendo-se associado a uma empresa de turismo ativo da região, promoveu também momentos de interação entre pais e filhos, estando consciente de que essa conexão tão importante está cada vez mais difusa, e fê-lo através de atividades como rapel e canoagem. 

Hoje Aveiro não é apenas a cidade onde nasceu, é a casa onde quer ficar, embora a sede das viagens esteja mais alta do que nunca. Aveiro tem tudo. Além das boas acessibilidades a Lisboa e ao Porto, tem uma característica de que eu gosto muito – é plana, o que faz com que eu consiga ir a pé ou de bicicleta para todo o lado. Além disso, tem praia e tem montanha e serra bem perto. E ainda, claro, a universidade que está entre as melhores do mundo. Admite sem grandes rodeios que provavelmente nunca será alguém alinhado com o mundo do negócio, o que faz com que o projeto esteja muito dependente dos trabalhos que faz em nome individual e não das receitas dos eventos que concretize neste espaço porque a grande maioria são de entrada gratuita. No fundo é um espírito de propósito ou de missão, o que o une aos temas das viagens, da fotografia e do ambiente, e que lhe dá esse ímpeto para criar espaços e momentos em que esses temas possam ser explorados e debatidos. O que o futuro trará ao Bernardo e a este projeto do “Trilhos da Terra” é ainda uma incógnita, mas fica a certeza que numa próxima visita a Aveiro haverá certamente novidades e uma série de novos projetos a rolar juntamente com todos os que teve de deixar em stand-by.  

Surma

É numa manhã estranhamente solarenga de abril que vamos encontrar a Surma, na porta do Atlas Hostel, bem no centro de Leiria. Rapidamente percebemos estar na presença de um ser vibrante, porque a energia que transmite é de tal forma contagiante que transfigura o ambiente à sua volta. A conversa aconteceu num pátio no topo do edifício, num cenário carregado de cor e plantas, alegre e pueril, a combinar de forma perfeita com a nossa Débora Umbelino, a que hoje já todos chamam carinhosamente de Surma. 

A Surma nasceu e cresceu em Leiria e a música foi sempre um elemento presente na sua vida. Conta que, em bebé, o pai a deitava num tapete e colocava um vinil a tocar, e quando a música parava, ela começava automaticamente a chorar. Na grande maioria das vezes a banda sonora seguia pela mão de Hank Williams, que considera uma espécie de avô adotivo e que mantém até hoje como uma das suas grandes referências no contexto musical. Embora ninguém na sua família estivesse diretamente ligado à música, o seu pai sempre foi um musicófilo, que inclusive comprava guitarras mesmo não sabendo tocar, sempre atento aos últimos gadgets na área. 

Imaginar que a música poderia ser de facto uma profissão era algo que não considerava possível, o que fez com que durante muito tempo a visse apenas como um hobby. O plano A era a medicina e foi com esse pensamento que acabou por escolher a área das Ciências. As bandas de liceu fizeram obviamente parte do seu crescimento e foram criando o bichinho pela realização que sentia com os ensaios e a adrenalina dos concertos. 

Desde os cinco anos que teve aulas de música, de piano e de guitarra, mas passados poucos meses acabava sempre por desistir. Sentia que a teoria, embora lhe trouxesse um conhecimento importante, era ao mesmo tempo uma espécie de prisão, e não se conseguia rever nessa forma rígida de ensino. É com 16 anos que se dá finalmente o momento de viragem, fui para Lisboa estudar para o Hot Clube, contrabaixo e voz, e naquele momento percebi que a música era a única coisa que me fazia totalmente realizada e feliz. Para trás ficou o plano de se tornar pediatra e a música passou a ser o centro de tudo na sua vida. É também nessa altura que é aceite para estudar em Berklee, nos EUA, mas os pais consideraram que seria uma mudança demasiado drástica sendo ela ainda tão nova, e ela própria compreendeu que provavelmente teriam razão. A passagem pelo Hot Clube foi crucial no seu percurso, não só pelo conhecimento que ali adquiriu mas por lhe ter trazido a certeza de ser esse o seu caminho. Apesar disso, voltou a sentir-se encurralada numa forma de ver a música muito inflexível e demasiado estruturada, e essencialmente muito diferente do que era a sua visão, que a esta altura era já bastante sólida.

Quando chegou o momento de criar um nome para o seu projeto, passeava-se com um pequeno caderno onde ia escrevendo possíveis denominações, mas seria um documentário na televisão que acabaria por lhe trazer essa resposta. Surma é o nome de uma tribo na Etiópia, e foi a forma como essas pessoas vêm a vida que a apaixonou, os Surma não pensam nos bens materiais, vivem como se fosse sempre o último dia, e eu quis ligar esta parte muito humana da música e não criar um projeto só porque sim. Achei mesmo muito bonito a maneira como levavam a vida e aquilo ficou-me na cabeça meses e meses. É em 2019 que, já enquanto Surma, se estreia no Festival da Canção. Fala desse momento com uma certa nostalgia, por ter sido tão marcante e também um desafio tão extraordinário. O facto de lhe ter sido dada liberdade total, sem qualquer imposição de limites, e ainda a possibilidade de criar a sua própria equipa, transformou esta experiência em algo muito especial. Aproveitou não só para partilhar essa experiência com as pessoas que a ajudaram e impulsionaram desde o início da sua carreira, mas também a de poder levar consigo uma parte da sua cidade, com o grupo de meninas do coro Ninfas do Lis. Chegar à final foi algo totalmente inesperado mas brutalmente gratificante e confessa ter ficado muito feliz com a vitória do Conan, alguém que admira e por quem torceu desde o começo. 

Hoje vive entre Lisboa e Leiria, mas é em Leiria onde se sente verdadeiramente em casa, mais especificamente na pequena aldeia do Vale do Horto, perdida no meio do bosque. Para criar o álbum tenho mesmo de estar em Leiria para compor, tem de ser cá e em casa sem ninguém, no meio do campo a ouvir os passarinhos e o mesmo para gravar. Gosto de gravar aqui porque é mais cosy. Com o Rui num estúdio muito caseirinho. Sinto que ganha muito mais personalidade. Para Surma, Leiria é mais do que o seu porto seguro, é também uma cidade dinâmica, culturalmente muito ativa e onde a música sempre fervilhou. Nas suas palavras, Leiria oferece todos os serviços que encontramos numa cidade de maior dimensão, mas ao mesmo tempo mantém-se com a essência dos lugares pacatos. Está longe do caos, do stress e da confusão de Lisboa e ao mesmo tempo perto de tudo, o que faz com que exista mais tempo para tudo, e que a vida seja em si mais calma.

Para o futuro o seu maior desejo é o de voltar aos palcos. Embora se tenha mantido sempre ativa durante o confinamento, com presença constante em eventos no digital, sente falta da azáfama da estrada e do contacto com as pessoas. Conta-nos que talvez venha até a escrever uma música em sueco, língua que começou a aprender durante a pandemia, embora admita que eu continuo a achar que consigo transmitir mais através da minha música sem recurso a letras. Depois deste ano tão estranho que todos vivemos, as certezas no que estará para vir são obrigatoriamente poucas, mas existe uma em particular que partilha ser inabalável, e essa é o quão bem lhe faz estar na sua cidade, não só para a saúde da sua música mas para a sua própria, física e mental. 

Contactos:

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Pedro Redol, Mosteiro da Batalha

Antes de chegarmos ao encontro de Pedro Redol, o sentimento que nos assola é o do enorme privilégio que deverá ser, o de poder trabalhar num lugar como este. O Mosteiro da Batalha está imerso numa mística difícil de explicar por palavras, tal é a força com que a sua magnitude visualmente nos esmaga. Por mais adjetivos que pudéssemos usar para caracterizar a sua beleza, o esforço ficaria sempre aquém desse exercício e a própria pertinência de o fazer se tornaria assim moribunda por se antever um resultado sempre artificial e sem fidedignidade. É por essa razão que tendemos a um silêncio quase cerimonial quando estamos diante dele, silêncio que se viria a quebrar por completo durante o encontro com Pedro, Curador do Museu, e um conversador inveterado. 

Pedro nasceu em Tomar, mas com pouco mais de 1 ano de idade acabaria por mudar-se para o Porto em consequência da profissão do pai enquanto militar. Contudo, dois anos depois mudar-se-iam novamente, desta feita para Coimbra, lugar onde Pedro viveu até terminar a sua licenciatura em História de Arte. A sua rebeldia assumida fez com que não se revisse num sistema educativo à época ainda tão autoritário e conservador, onde via a sua liberdade de pensamento ser de alguma forma espartilhada, e isso faria com que se fosse afastando da ideia de continuar na academia. Finda a sua licenciatura, teve a oportunidade de iniciar um estágio em Conservação de bens arqueológicos e etnográficos em Conímbriga, e foi no término desse estágio que surgiu pela primeira vez a possibilidade de trabalhar no Mosteiro da Batalha, onde ficaria durante dois anos enquanto Coordenador do curso de Restauro de Monumentos de pedra. Em 1987 fala-nos de uma Batalha brutalmente diferente da que conhecemos hoje, onde escasseavam espaços de lazer, e onde os acessos eram ainda de alguma forma rudimentares, o que fez com que esse primeiro encontro não se tornasse uma história de amor à primeira vista. 

Apesar de essa primeira experiência na Batalha não ter sido de todo perfeita, foi durante esse período que conheceu alguém que marcaria para sempre o seu percurso, tive a sorte de trabalhar com uma pessoa extraordinária que já não é viva, que foi o Mestre Alfredo Ribeiro, que foi como o meu pai no trabalho, e que foi aquela pessoa que fez com que eu gostasse muito do Mosteiro, e que depois tivesse dificuldade em me ir embora daqui. Após esses dois anos surgiu-lhe a oportunidade de trabalhar enquanto professor assistente de História de Arte Medieval, no Instituto de História de Arte da Universidade de Coimbra, e apesar de ser algo que queria muito, acabou por recusar. Na sua ótica o meio académico é bastante corporativo e burocrático, envolve pouca proximidade em relação ao objeto de estudo e oferece pouco tempo que possa ser dedicado à investigação, uma das suas grandes paixões. Acabaria assim por ficar na Batalha por um período de 12 anos, até que uma nova oportunidade o levaria para junto do grande monumento da sua infância, o Convento de Cristo. Embora existisse essa ligação umbilical, alinhada com as memórias de infância dos muitos passeios que o avô por lá fazia com ele e o seu irmão, rapidamente percebeu que gostava mesmo era de trabalhar na Batalha, e aí regressou. Pelo caminho ainda voltaria a Coimbra, enquanto Diretor do Museu Machado de Castro, mas essa, tal como as outras experiências, só foram tornando mais evidente o quanto queria de facto ficar na Batalha, onde continua ainda hoje como Curador do Mosteiro, 34 anos depois. 

Em vários momentos poderia ter decidido viver noutro lugar, inclusive em Lisboa, por onde também passou, mas a Região Centro viria a falar sempre mais alto. Inicialmente viveu mesmo na Batalha junto ao Museu, depois em Ourém e, mais recentemente, mudou-se para Leiria. Para Pedro existem algumas razões lógicas que podem explicar o seu fascínio pela Batalha, o Mosteiro da Batalha é o grande monumento gótico português e foi a grande escola de todas as artes no século XV, claro que isso também teve a sua importância no desenho do meu percurso porque eu especializei-me nos vitrais do século XV e XVI de que temos restos consideráveis aqui no Mosteiro que não existem noutros sítios, portanto isso já era uma razão importante. Mas como acontece na maioria das vezes, as razões mais fortes são sempre aquelas que inferem no nosso bem estar, e percebemos que são essas que verdadeiramente o impedem de residir noutra morada. Viver no Centro, além de obviamente possível, é benéfico e favorável. Aqui, além de ter criado uma família de amigos, tenho tempo para estar com eles. Tenho tempo para passear com o meu cão, tempo para explorar lugares incríveis como a Serra de Aire por exemplo e claro, esta costa fantástica. 

A serenidade com que nos levou a passear pela sua vida durante esta conversa reflete a qualidade de vida que afirmou ter encontrado aqui. Algures terá usado inclusive a expressão “renova-me as energias”, como forma de explicar o bem que se sente por trabalhar e viver neste território. Eterno estudante, no sentido em que dedica grande parte do seu tempo à investigação, mas também eterno professor, no sentido em que tira grande prazer em partilhar esse mesmo conhecimento com os outros. Para Pedro, viver no centro do país é ter acesso a uma liberdade de que necessita para criar e pensar, e que não conseguiu encontrar noutros lugares, por essas e por todas as outras razões, esta é a sua casa.

Nuno Fonseca, Sound Particles

É na Incubadora IDDNET, Associação para a Promoção de Empreendedorismo e da Inovação situada em Leiria, que vamos encontrar Nuno Fonseca, o CEO da Sound Particles. A atmosfera do espaço da empresa onde nos recebe, apresenta uma simbiose quase perfeita entre tecnologia e cinema. Somos rapidamente transportados para uma dimensão diferente, que nos faz perceber, mesmo antes de a conversa começar, que iremos explorar um mundo novo, do qual será o Nuno a abrir-nos as portas. O que se passa ali parece-nos de alguma forma tão estrangeiro que a sensação é a de termos chegado a um território desconhecido, dentro do qual seguiremos com o Nuno enquanto guia. Sentamo-nos confortavelmente, apertamos os cintos de segurança imaginários e preparamo-nos para a descolagem.  

O Nuno nasceu e cresceu em Leiria e foi apenas com a entrada no ensino superior que temporariamente a abandonou. Ingressou no curso de Engenharia Informática no Instituto Superior Técnico e lá permaneceu durante cinco anos, até terminar os seus estudos. Enquanto nos fala sobre essa fase do seu percurso académico, partilha connosco uma particularidade desse período, enquanto estava a tirar a licenciatura, ao mesmo tempo ia assistir a aulas do Curso Superior de Composição na Escola Superior de Música. A música sempre foi uma das suas paixões, tendo frequentado aulas de música durante 4 anos ainda em Leiria e depois tendo seguido esse caminho de forma autodidata. É também neste momento que nos conta que nos resultados dos testes psicotécnicos do 9ºano obteve a mesma percentagem para engenharia e música, mas foi o seu lado mais nerd que acabou por falar mais alto. 

Findos os seus estudos em Lisboa regressa a Leiria, começando a trabalhar numa empresa de serviços informáticos, na qual permaneceria durante três anos. Quando começa a lecionar no Departamento de Engenharia Informática, algo que acabaria por fazer durante 15 anos, decide que se irá dedicar apenas ao ensino superior, de forma a poder ter mais tempo para algo a que chamou de os meus projetos malucos e esquisitos. Foi em 2012 que, tendo terminado o seu doutoramento, decidiu agarrar numa ideia que lhe tinha surgido quase 15 anos antes e que envolvia três das suas grandes paixões, a música, a tecnologia e o som. Eu achei que seria interessante podermos fazer a mesma coisa que já se fazia com os efeitos visuais no cinema, mas com sons, ou seja poder criar milhares de pequenos sons que depois todos juntos criassem a ilusão de sons absolutamente fantásticos. Intitulando-se de cromo informático, avançou para a criação do software, e em 2014, aquando da sua ida a Los Angeles para uma conferência, decidiu enviar alguns e-mails para alguns dos principais estúdios. Nesses e-mails explicava o tipo de tecnologia no qual estava a trabalhar e de que forma poderia ser usada por eles, e mostrava a sua disponibilidade para se poder encontrar com eles, caso existisse esse interesse, durante as duas semanas da sua estadia lá. A primeira resposta que eu tive foi da Skywalker Sound, que foi o estúdio de som criado pelo George Lucas aquando da Guerra das Estrelas, e que é atualmente o maior estúdio de som para cinema que existe em todo o mundo. Este foi o momento de viragem no seu percurso e o início de uma viagem extraordinária.

No espaço de seis meses, Nuno Fonseca estava a dar palestras na Universal, na Fox, na Warner Brothers, na Sony, na Paramount, mais tarde na Disney, na Pixar, em Stanford, na Apple, e a lista poderia continuar. O que naquela fase era apenas um protótipo suscitou interesse imediato por parte de vários desses estúdios, e poucos meses depois estava já a dar-lhes acesso a uma versão beta do software. Em 2015, esse mesmo software é usado pela primeira vez no remake do filme de terror “Poltergeist”. No final desse mesmo ano, é lançada a versão comercial do software, e como nesse período estava ainda a lecionar e não queria estar preocupado com questões de faturação e pagamentos, decidiu colocar a aplicação à venda. Contudo, as coisas continuaram a acontecer, em 2016 decide finalmente criar a empresa e em janeiro de 2017 mudam-se para a Incubadora. 

Hoje em dia o Nuno é responsável por uma equipa de 20 pessoas, com quem trabalha diariamente neste espaço, exceto com um dos elementos, que está sediado em Londres. A Sound Particles trabalha essencialmente com cinema e com videojogos. O software criado por si já foi entretanto utilizado em filmes e séries como “Game of Thrones”, “Star Wars” ou “Frozen”. Já na área dos videojogos trabalham com empresas como a Playstation, a Epic Games ou a Blizzard. De uma forma bastante simplista, o que esta sua aplicação veio permitir e trazer de novo foi a possibilidade de, utilizando um software de áudio 3D e conceitos de computação gráfica aplicados ao som, conseguir simular milhares de sons em simultâneo. Conta-nos que, nesta fase, estão já a pensar noutras potencialidades desta aplicação, particularmente para que músicos possam também tirar partido do som 3D. 

Sendo os EUA, em particular a Califórnia, o seu principal mercado, admite que a ideia de viver lá lhe chegou a passar pela cabeça, até porque antes da pandemia viajavam várias vezes por ano para Los Angeles e São Francisco. Mas a verdade é que, num mundo atualmente tão global, estarem a trabalhar em Leiria não é de forma nenhuma redutor ou impeditivo do que quer que seja. Para mim do ponto de vista de qualidade de vida é priceless, ou seja, quando eu demoro mais do que 7 minutos de casa ao trabalho já acho que está um trânsito infernal (risos). Apesar disso, confessa ter saudades de viajar e está ansioso por poderem regressar ao escritório, sendo que a equipa se mantém ainda a trabalhar em casa. Partilha connosco que, como forma de manterem o espírito de equipa, decidiram criar – embora virtualmente – as sextas feiras musicais. Sendo que mais de metade da equipa tem algum tipo de background nessa área, quinzenalmente juntam-se e cantam e tocam juntos. As diferentes velocidades de internet não facilitam a coordenação de sons e de vozes, mas quando estes encontros se tornarem presenciais, prometem transformar para sempre as festas de Natal da empresa.

Viver em Leiria é o melhor dos dois mundos. O melhor das grandes cidades e o melhor dos pequenos lugares, ou seja, por um lado temos as coisas que as grandes cidades têm e ao mesmo tempo as vantagens das cidades pequenas, como não haver trânsito. Estamos a 1h de Lisboa, estamos perto da praia, perto da neve, perto de tudo basicamente, e é por isso que tenciono continuar em Leiria e continuar a ter aqui a minha paz de espírito. 

Micael Silva, De Raíz

Foi no meio da natureza, em plena sintonia com o meio envolvente e com a banda sonora que tão bem o carateriza, que fomos encontrar o Micael. É imediatamente percetível o quão bem o Micael se sente naquele lugar e o quanto lhe parece pertencer, não no sentido de apropriação do espaço, mas de perfeita comunhão com ele. Logo nas primeiras palavras é notória a paixão que nutre pela forma de estar que ali encontrou e por aquilo que de alguma forma se veio a tornar o seu propósito, a sua missão. Assim começou esta conversa, num misto de grande tranquilidade mas também de grande entusiasmo.

Nasceu e cresceu na vila da Maceira, e as vivências desse lugar marcariam em grande parte o rumo da sua história e o percurso que viria a trilhar. A bicicleta sempre foi uma companheira de viagem e de exploração e recorda-se principalmente dos passeios que fazia com o seu pai e da fruta que iam colhendo pelo caminho, naquilo a que chamava de “voltas recoletoras”. Ainda hoje me lembro das voltas que dava dos 13 aos 18 e das frutas que apanhava e onde é que elas estão. Esse Micael e o de agora são idênticos. Foi desde sempre um miúdo carregado de energia, para quem estar sossegado era um problema. Era na rua e principalmente na natureza que se sentia no seu elemento, como se de um chamamento se tratasse. 

Quando chegou o momento de escolher que curso seguir no ensino superior, a escolha recaiu sobre algo que parecia englobar vários dos seus interesses, e foi assim que rumou a Rio Maior para ingressar na licenciatura em Desporto de Natureza e Turismo Ativo. Ao longo da sua vida sentiu vários clicks que o foram empurrando até ao universo onde hoje se move, e um dos primeiros foi exatamente na Faculdade, numa cadeira que era desporto e ambiente, o professor falou nos  impactos ambientais das atividades de turismo e aquilo deixou-me a pensar, depois o derradeiro click veio quando terminei o curso e fiz uma viagem de seis meses pela Ásia. 

Nessa grande viagem passou pela Turquia, Índia, Nepal, Tailândia, Camboja, Vietname, Laos, Malásia e Indonésia. Foi esta viagem que lhe trouxe a certeza de que queria estar ligado à terra e também onde aprofundou os seus conhecimentos sobre a permacultura enquanto filosofia que promove trabalhar com e não contra a natureza – foi durante essa viagem que teve algumas experiências em lugares onde esta se praticava, que viria a complementar posteriormente com formações na área. Para mim, era super claro que as pessoas que mais entregavam e mais davam e mais te recebiam bem e partilhavam, eram as que tinham mais ligação à terra. 

Há três anos começou a sua própria aventura, após ter bebido saberes de todos esses países e também das muitas pessoas com quem se foi cruzando. Pegou num terreno com aproximadamente 4000m2 e com um historial terrível de agricultura industrial e intensiva e começou a tentar regenerá-lo e dar-lhe vida. Percebeu que precisava de alimentar aquele solo e começou por pedir restos de comida às pessoas, criou um vermicompostor com minhocas e depois um compostor orgânico que alimentava de folhas que apanhava e guardava. Como auxiliar e acelerador desse processo, começou a ter também cabras e galinhas, um cavalo e um burro. A melhor forma de voltares ao equilíbrio é a biodiversidade. Depois, no espaço de dois anos, passaram por mim mais de mil e quinhentas espécies diferentes. No meu terreno neste momento estão cerca de 700 espécies estáveis que eu introduzi. 

Para a introdução de todas essas diferentes espécies, o Micael contou acima de tudo com a troca de sementes com outras pessoas. Chegas a um ponto em que percebes que tens aqui uma economia tão forte e tão crescente. Uma planta, em média, dá-te 1000 sementes. Estas a ver a quantidade de oportunidades que tens? Se eu partilho dessa planta com 10 pessoas e se essas 10 pessoas forem fazer o mesmo! Foi num desses encontros nacionais que contou ter conhecido o seu maior professor, Jaime, que lhe ensinou a saber interpretar um terreno, saber o que lhe está a acontecer e do que ele necessita. Lembra-se de um momento em particular que o marcou: estava a surgir no seu terreno uma planta que toda a gente que lhe dizia ser uma praga e para a qual deveria usar herbicida, e quando o Jaime olhou para ela disse-lhe de imediato, esta aqui é a tua melhor amiga.

Depois de ter criado uma horta, um bosque de alimentos e uma agrofloresta a partir de um solo despido, compactado, poluído e sem árvores, nasceu o seu projeto “De Raiz”, um projeto de permacultura, sustentabilidade e educação ambiental. Senti que tinha de partilhar isto. Isto tem de ser feito em mais lados. E já há quase dois anos que comecei a juntar pessoas e a mandar este tema para o ar. Se calhar no espaço de um ano falei com mais de mil pessoas sobre isto. Para Micael, a mudança de paradigma que necessita de acontecer deve começar pelas crianças, e ele quer ter um papel ativo nessa missão. 

Para um futuro próximo quer criar caminhadas interpretativas, com identificação de plantas e com leitura de natureza e ter um alojamento local e agroturismo e claro, continuar a ensinar e a transmitir o máximo de conhecimentos sobre isto. Por agora é no Centro Portugal que quer manter esta sua viagem, criando ali uma base que depois possa levar até outros lugares. 

Gonçalo Cadilhe, Escritor de viagens

Pedimos a Gonçalo Cadilhe que nos indicasse o melhor local para nos encontrarmos e a resposta veio pronta, seria no Cabo Mondego, na Figueira da Foz, um sítio mágico que nos abraça entre a Serra da Boa Viagem e o Atlântico.

Gonçalo calcorreou os caminhos da sua história com a mesma agilidade com que já se perdeu e encontrou por todo o mundo. Nasceu na Figueira da Foz em 1968, esperava-se dele que tirasse um curso superior, na altura não existia nada que se parecesse com jornalismo ou literatura de viagens. “Meti-me em contabilidade como podia ter ido para eletrotécnica ou construção civil, fui andando no ramo das economias e, quando chegou o momento de ir para a Universidade, escolhi Gestão de Empresas, na Universidade Católica do Porto, que tinha imensa saída.” Ainda teve uma breve experiência profissional na área do marketing mas a vida acabou por convidá-lo para outras paragens.

No início dos anos 90, em Portugal, havia escassez de reportagens de viagens. Publicou a sua primeira reportagem, dedicada ao México, no número de Fevereiro de 1992 da extinta revista Grande Reportagem, dirigida por Miguel Sousa Tavares. “Naquela altura, ninguém viajava, ninguém se lembrava de escrever sobre viagens. Eu já tinha aberto essa porta, já estava a publicar reportagens de viagens, tive de pesar entre um emprego seguro ou escrita de viagens. Fui por aí e correu bem.”

Gonçalo começou a viajar e a escrever sobre viagens de forma profissional a partir de 93. O primeiro livro foi o Planisfério Pessoal que descreve uma volta ao mundo que decorreu entre 2002 e 2004, inspirado pelos relatos que ouviu enquanto cresci na Figueira da Foz nos anos 80. “Eu comprava o material de surf e falava com esta malta das Kombi, australianos, sul-africanos e californianos que andavam a fazer uma volta ao mundo, o gap year. Desembarcavam em Heathrow e, à saída, havia um mercado de venda e compra de kombis em segunda, terceira mão ou quarta mão. Iam juntando-se em grupos de 4, compravam a carrinha e vinham em agosto para apanhar a temporada de surf. Em setembro estava muito bom em Biarritz, outubro era no País Basco, aqui [na Figueira da Foz] em novembro e depois seguiam para Marrocos.”

Gonçalo decidiu apresentar uma ideia ao jornal Expresso, de publicar semanalmente crónicas da sua viagem. “Já andava desde 92 a publicar regularmente em todos os órgãos de imprensa importantes em Portugal, o meu nome já era conhecido no meio. Isto pareceu genial, era a primeira vez que o e-mail dava esta possibilidade de continuidade. Todas as semanas, até quinta-feira, mandava o material, texto e fotografias, para ser publicado na semana seguinte. O país todo, que seguia o Expresso, sentia que aquilo era em tempo real, que acompanhava o que se estava a passar, onde estava.” Não foi apenas esta nota de continuidade que desbravou a escrita de viagens em Portugal. “A segunda grande ideia, que era quase uma questão ética, era não viajar de avião, que isso toda a gente faz. Foram duas ideias na altura certa.”

Hoje em dia, Gonçalo é o escritor de viagens português mais reconhecido mas, para cá chegar, percorreu os caminhos  difíceis do seu trabalho, como se soubesse que a sua própria viagem pela vida marcaria tantas outras. “Eu sabia perfeitamente que lá fora se viajava imenso quando em Portugal nem havia dinheiro para ir para a praia. Lá fora, existiam revistas, livros e livrarias apenas de viagens, cá não havia nada. Estava a construir uma carreira de que décadas mais tarde tinha de me orgulhar. Tinha de lhe dar substância e uma densidade cultural, houve sempre uma necessidade de eu não ficar satisfeito onde tinha chegado.”

Demorámo-nos a saber mais sobre a vida aqui, na Figueira da  Foz, em tempos considerada a rainha das praias portuguesas, com 34 quilómetros de areal e mar que guardam séculos de histórias de tantos viajantes, famílias, amigos e surfistas. “Os meus pais são do norte, vieram trabalhar para aqui, eu nasci e cresci aqui. O surf é maravilhoso o suficiente para sentires orgulho pela camisola, para sentires que foste um privilegiado por seres considerado um dos boys, um local, como se diz no surf. Fui escuteiro a partir dos 8 anos, andávamos 15 minutos a pé e já estávamos na serra, nas dunas, nos campos do mondego, horizontes abertos, cresci  habituado a mudar regularmente de espaços. Gosto da dimensão da cidade, não é grande nem pequena, é média, metes-te no comboio e na autoestrada e estás onde quiseres. Se uma pessoa vive na Figueira e pode usufruir das coisas boas que a Figueira tem, é um lugar que pode rivalizar com muitos outros.”

Como está estudado pelos geógrafos, a Figueira da Foz está na linha de divisão dos dois climas em que se divide Portugal, existe um clima a sul, mediterrânico e magrebino, e um clima a norte que nos faz recordar quase sempre o Cantábrico, a Irlanda e Inglaterra. Certamente que existem outras zonas do país com um clima mais constante mas Gonçalo acrescenta um ponto: “essa certeza acaba por jogar contra a beleza ou o misticismo dos lugares porque traz muita gente. A Figueira tanto tem dias miseráveis como os da Escócia e depois tem dias que parece que podias estar no Mediterrâneo. Essa inconstância, quando vives cá, quando esses dias chegam, é uma alegria, eu gosto dessa coisa na Figueira porque também repele o excesso.” 

Junto de quem é tão conhecedor de tanto canto e recanto onde se podem (re)construir futuros, onde se podem assentar arraiais por um pedaço de tempo ou por uma temporada, quisemos saber o que pode fazer alguém escolher a Figueira da Foz. “Eu acho que aquilo que a Figueira tem de diferente e único é mesmo a questão do surf. Quem faz surf informa-se, não vai ao engano, ninguém se deixa enganar com a ideia do paraíso por causa da qualidade das ondas. Os lugares no mundo com ondas de qualidade estão de tal maneira esgotados que a Figueira tem essa coisa muito boa: quando está bom para o surf na Figueira, está também bom em Espinho, na Ericeira, na linha, por isso as pessoas não vêm para cá, cada um fica no seu lado, e para um nómada digital que quer ser integrado, é importante ser aceite e a Figueira é um óptimo lugar. Com as vias de comunicação que há hoje, se quisesse viver em Portugal dois meses, facilmente vinha para a Figueira para poder exponenciar a minha temporada cá, é um óptimo local para fazer a minha bucket list de Portugal a partir daqui.”

Demos mais uns passos e fomos abrindo caminho para chegarmos à reta final, o desvendar do derradeiro mistério. Estávamos intrigados com este escritor de viagens que já atravessou oceanos em cargueiros, escalou o monte Ararat, subiu o Amazonas em balsa local, apanhou boleia de iate para a Colômbia, fez trekking no Caminho Inca, explorou os templos de Angkor e decidiu viver na Figueira da Foz. Porquê?

As partilhas de episódios das viagens permitiram-nos identificar muitos destinos sedutores para uma vida saída de um sonho mas Gonçalo pertence aqui mais do que a qualquer outro lado. No livro “Um quilómetro de cada vez” escreveu sobre a ideia (errada) de que a pessoa que viaja pode escolher o sítio onde quer ficar. “Acho que é uma ideia muito americana, muito de novo mundo. Há uma estatística que diz que o americano médio ao longo da vida muda 13 vezes de cidade, 4 vezes de estado. Se calhar, para alguns povos, que não têm uma História, essa falta de raízes é fácil. No caso europeu, e concretamente português, acho que somos obrigados a ser felizes onde temos as nossas raízes. Já estive em lugares maravilhosos e descobri que não conseguimos ser felizes fora do lugar onde está a nossa ideia de felicidade e a nossa ideia muitas vezes não somos nós que a construímos, vem de trás.” Explicou-nos que as raízes têm a ver com os amigos de infância, as  memórias com os pais e família, mas também com coisas mais profundas que nem sempre apreciamos devidamente como a existência de quatro estações que são típicas de certas latitudes como a nossa, a cozinha, o sentido de humor.

“Há tantas coisas que te obrigam a ser feliz onde estão as tuas raízes.”

Filipe Albuquerque, Piloto de automóveis

O encontro estava marcado para um banco de jardim da Mata Nacional do Choupal. O dia primaveril convidava a uma conversa descontraída, bem à imagem de Filipe Albuquerque, piloto profissional de automóveis nascido e crescido em Coimbra.

Esta história é digna de guião hollywoodesco, de um menino com sonhos grandiosos que se tornou num dos melhores atletas do mundo na sua modalidade. A paixão pelo automobilismo começou em 1993, quando Filipe experimentou um kart pela primeira vez, no Kartódromo da Batalha. Foi  iniciativa do pai que queria tornar o karting num hobby dos filhos e bastou a primeira experiência para que os fins-de-semana começassem a ser preenchidos com dias que esticavam horas de diversão nas pistas. Os karts já estavam preparados de véspera, no atrelado, o pai já tinha tratado da gasolina e do ar nos pneus, e lá seguiam todos, em família, pelas estradas nacionais.

A estreia em competições aconteceu em 1994. “Tinha acabado de abrir a pista nos Milagres, em Leiria, e eu e o meu irmão participámos no campeonato regional. Lembro-me que acabei a minha primeira corrida em 3.º, super chateado porque o meu irmão ganhou.” A partir de 95, os dois começaram a participar no campeonato nacional, em categorias diferentes. “Estes fins-de-semana eram passados em família, com amigos dos meus pais, de Coimbra, e rivais. Fomos fazendo amizades pelo resto do país. Havia um ambiente especial entre todos, uma grande afinidade entre as pessoas e passávamos muito tempo juntos. De manhã ao final da tarde, estávamos sempre a pôr gasolina no kart e dar corda ao motor para andarmos. Nas pausas para o almoço jogávamos à bola, o ambiente era muito relaxado e até podíamos andar no meio da pista a ver os outros pilotos a andar.”

A carreira, orientada pelo pai, começou a ganhar corpo quando Filipe integrou uma equipa de karting que estava a dar cartas em Portugal. “Foi a partir desse ano [de 1998] que passei a ser um dos pilotos da frente. Fui vice-campeão nacional e ganhei a Taça de Portugal na categoria Iniciados.”

Seguiu-se um encontro feliz, dos que mudam vidas e destinos. Conheceu os irmãos Nuno e Pedro Couceiro, foi correr para a Couceiro Júnior Team e de lá seguiu para Itália, aquela que sempre foi a referência no karting a nível mundial. Tornou-se piloto profissional de karts aos 17 anos, uma conquista que chegou de mão dada com os desafios da responsabilidade e as dores de crescer longe da família. “Vivia no Norte de Itália, em Desenzano, nas traseiras da fábrica, num apartamento para pilotos. Acordava às 7h para estar às 7h30 a montar karts, preparar as corridas e ajudar a equipa, trabalhava até às 18h todos os dias. Era um empregado a tempo inteiro, fez-me crescer bastante. Tive de me adaptar a viver sozinho num país diferente e aprender outra língua. Foi uma altura muito difícil, o meu pai tinha sobrevivido a um aneurisma mas ficou tetraplégico, tudo era diferente na minha família, de quem eu estava tão distante. Foi muito duro estar longe do meu pai, deixei de ter os conselhos dele, de saber o que devia fazer.”

Conversámos sobre a escalada profissional, feita de trabalho, muita pressão e algumas coincidências, umas felizes (e outras nem tanto). Filipe foi saltitando entre os momentos decisivos que guarda com a vivacidade de quem gosta de se demorar nos detalhes. Fizemos marcha-atrás, até ao ano de 2005, o primeiro contacto a sério com os fórmulas em que foi  o melhor piloto estreante em três campeonatos, a Eurocup, o Campeonato Alemão de Fórmula 2.0 e a Fórmula 3 espanhola e os sucessos que se seguiram até ser piloto de testes da Fórmula 1 para a Red Bull e Toro Rosso. Falámos de desilusões e de jogadas de bastidores que obrigaram a desvios e reajustes nas expectativas, nas oportunidades.

O mundo das corridas de resistência abriu-se em 2013, com a primeira participação nas 24h de Daytona que se resumiu a veni, vidi, vici (ir, chegar e vencer). Em 2014 foi premiado como o melhor piloto  estreante das 24h de Le Mans e os últimos anos de corridas têm consolidado o seu perfil como um dos melhores pilotos do mundo – e não somos nós que o dizemos, a constatação é feita pela imprensa internacional.

2020 foi um ano denso nas emoções e marcado pela perda do pai. Também foi uma soma impressionante de feitos: Filipe ganhou as 24h de Le Mans, o campeonato europeu de resistência, o campeonato do mundo de resistência e recebeu  ainda o Prémio de Excelência na primeira edição da sua criação. Estas conquistas levaram-no ao Palácio de Belém onde foi condecorado pelo Presidente da República e ainda à Assembleia da República onde mereceu um voto de louvor perante uma audiência que o aplaudiu de pé. “Foi exatamente a seguir à morte do meu pai que todos estes resultados começaram a surgir, senti que a vida tira de um lado e põe no outro.”

Filipe tem o dom de falar do escuro dos dias com uma tranquilidade que lhe chega do sítio que o viu nascer e que lhe amarra os afectos. Em boa verdade, depois de horas em que viajámos por todo o mundo, no assento do lado das memórias, abrimos os olhos para os verdes da mata que nos rodeava, para a calma daquele local que abranda ritmos e recentra mentes. “Cada pessoa tem as suas raízes, diz-me muito crescer e ficar ligado às minhas origens. Apercebi-me mais disso quando comecei a ir para fora, são razões que nem sempre consigo explicar. O que é certo é a qualidade que esta cidade me dá, é aqui que encontro o meu bem-estar, carrego energias. Tenho uma vida muito ocupada, o percurso contado ao minuto, corridas que começam às 15h07, reuniões às 9h04. No resto do tempo, gosto de ter sossego, de estar relaxado com a minha família e viver os dias com o ritmo que quero. Aproveito os finais de tarde com a minha família, tenho mais tempo aqui do que teria noutro sítio.”

A vida de Filipe anda a duas velocidades bem diferentes, quando vai para as corridas ou quando fica por esta cidade que é mais que casa, é alicerce da sua maneira de ser. “Houve uma altura na minha vida em que me mudei para Lisboa, estava mais próximo do aeroporto, aparentemente seria tudo mais simples. Mas o tempo que perdia a ir ao ginásio, o trânsito, o stress constante, aquele frenesim. A certa altura, percebi que aquele não era equilíbrio nenhum, não me fazia verdadeiramente feliz. Falo muito da calma e do sossego porque é mesmo essa a minha necessidade, é algo que valorizo muito.”

Este amor profundo à cidade é inteiramente retribuído. “Levo Coimbra no capacete, é a minha cidade, apoia-me, corro com ela no coração. Muitos colegas comentam “quem me dera que isso acontecesse comigo, que a minha cidade me apoiasse”. Isto mostra o carinho que a cidade tem por mim e que eu tenho por ela, tento dar o meu contributo para que lá fora percebam a elevação do sítio de onde venho. Corro nos EUA e há muita gente que olha para Portugal como um destino de turismo mas também quando pensam em mudar o seu estilo de vida. A minha cidade entra para uma dessas opções.”

Na rua, no supermercado, num restaurante, as pessoas vão-se metendo com Filipe, desejam-lhe sorte e dão-lhe ânimo mas nunca o incomodam nem perturbam o treino. “Sinto-me muito acarinhado pelas pessoas que me reconhecem e que têm sempre palavras de encorajamento.”

Como pai de família, a qualidade da educação e o acesso à saúde também foram fatores determinantes para viver em Coimbra mas nunca irá condicionar as filhas para que lhe sigam os passos na escolha do sítio onde vivem. “O importante é que sejam felizes, é importante que conheçam o mundo até para darem valor ao que têm, a opção será sempre delas. A minha opção foi voltar, é aqui que sou feliz e onde me sinto bem. Coimbra é onde eu pertenço.”

Catarina Serra, Cerdeira – Home for Creativity

A 700 metros de altitude, no coração da Serra da Lousã, em plena aldeia da Cerdeira, fomos encontrar a Catarina Serra. Num cenário pintado em todos os tons possíveis de verde, num envolvente abraço da natureza, sendo ela própria a derradeira banda sonora daquele lugar. Em perfeita comunhão com o verde, a suave rugosidade do xisto, a dar vida a todas as casas e a trazer uma portugalidade que sempre encontramos neste material. Foi neste enquadramento tão particular que a conversa começou e que se deu a descoberta deste projeto, que casa a criatividade com a cultura e as artes numa localização aparentemente improvável.

A Catarina começa por explicar que, há 35 anos, esta aldeia se encontrava completamente abandonada, contando apenas com um habitante; é precisamente nessa altura que lhe chegam duas famílias e que mudam por completo o rumo deste lugar. Uma das famílias era a sua, mas comecemos pelo início. 

Kerstin, uma alemã que estudava português com a mãe de Catarina – de nacionalidade russa – descobriu este sítio com o marido e decidiram fixar-se aqui. A família de Catarina conhece assim a Cerdeira, a convite deles, tinha a Catarina 4 anos, e começam a vir até cá sempre que possível, principalmente em períodos de férias. Reconstruímos uma casa aqui, todos com as nossas próprias mãos, e acabámos por adotar a aldeia como se fosse nossa e a partir daí começamos a vir cada vez mais.

A Kerstin sempre esteve ligada às artes, sendo ela artesã, e quando decidimos começar a alugar as casas aqui foi um processo natural pensarmos em criar algo ligado a essa área. Assim nasceu este projeto, um retiro criativo na montanha. Enquanto retiro criativo conta com uma escola de artes e ofícios, workshops de curta e longa duração, residências artísticas,festivais de artes e vários outros eventos, além de funcionar como turismo rural. Enquanto retiro na montanha, oferece uma experiência diferente da Serra da Lousã, através de caminhadas, passeios de bicicleta e um contacto imersivo com a natureza. Aqui as pessoas aprendem um bocadinho a ser mais gentis com elas próprias e com os outros, nós estamos aqui no meio de uma coisa viva e não controlamos tudo. Aqui sente-se muito a natureza.  

Este projeto contou desde o primeiro momento com o apoio das várias entidades locais e da região e procurou sempre o envolvimento da comunidade local, sendo todos os seus fornecedores aqui residentes. A par desse cuidado, houve também uma preocupação ambiental muito vincada, que lhes confere o selo Ecolabel, um rótulo europeu que se aplica a produtos com caraterísticas ambientais excepcionais e o único atribuído a um turismo rural em Portugal. Ainda nesta vertente, fazem também parte da Rede Natura 2000, uma rede de áreas designadas para conservar os habitats e as espécies selvagens raras, ameaçadas ou vulneráveis na União Europeia.

Segundo Catarina, são hoje maioritariamente jovens, estrangeiros, artistas emergentes, quem procura as residências artísticas, que começaram já em 2017, ano em que a procura foi intensa já que eram um dos poucos lugares com este tipo de oferta disponível. O principal objetivo das residências era, e continua a ser, o de cruzar pessoas de áreas diferentes, que possam beber de outras experiências, potenciando inspiração e criatividade. Temos um mestre japonês que fez o nosso forno lá em baixo, que veio essa primeira vez e ficou completamente apaixonado pela Cerdeira,e agora vem todos os anos do Japão. Agora inclusive é professor na nossa escola de artes, de cerâmica japonesa, um curso que se esgota sempre. Uma pessoa já com 80 e tal anos mas que está completamente comprometido connosco até ao fim da vida. (risos)

Com a chegada da pandemia, uma das primeiras adaptações que fizeram foi a de colocar internet em todas as casas, já que o conceito inicial era esse acesso existir apenas nos espaços comuns. Depois lançaram os pacotes de trabalho remoto com refeições, apostando no mercado nacional. Mas como ninguém na família sabe estar parado e a ideias parecem crescer como cogumelos nesta aldeia, estão já embrenhados num novo projeto numa aldeia ao lado, Silveira. A premissa é criar uma aldeia tecnológica para trabalhadores remotos e nómadas digitais. Pensámos nisto antes do Covid, e as pessoas diziam que éramos doidos e de repente parece que somos génios! Não sendo tudo isto suficiente, vão ainda recuperar uma casa no centro da Lousã, onde querem criar uma galeria, um café e um espaço de coworking.  

Nascida em Lisboa, uma vida inteira a morar na margem sul e uma experiência de dois anos a viver em Amesterdão, no final do ano passado, Catarina veio finalmente viver para a Lousã. Começou por agarrar este projeto da Cerdeira através do Marketing e das Vendas, mas hoje acaba por assumi-lo em grande parte, juntamente com uma equipa de 15 pessoas. Hoje, esta “Home for Creativity”, conta já com dez casas, um hostel com 12 camas, um atelier, uma casa para eventos, um café, uma biblioteca, uma galeria, uma loja, e ainda uma lavandaria própria. Com o seu marido a trabalhar a partir de casa e com uma filha de um ano e meio, esta tranquilidade da Serra nunca lhe fez tanto sentido, e o próximo passo é construir aqui casa, porque o terreno já está comprado. Aqui posso acordar calmamente e ter o privilégio de ir levar a minha filha à escola a pé.  Aqui as pessoas estão mais desconectadas das distrações do dia a dia que não nos deixam apreciar as pequenas coisas, como o barulho do rio ou a mudança de cores das flores da serra.  

Bernardo Patrão, Critical Software

Viajámos até Coimbra, casa de uma das mais antigas universidades do mundo e a mais antiga do país, onde se formaram as mais destacadas personalidades da cultura, da ciência e da política nacional, e que é Património Mundial da UNESCO desde 2013. Inicialmente confinada ao Palácio Real, na Alta, a Universidade de Coimbra marca a paisagem desta cidade universitária que, no século XX, contou com a criação do Pólo II, dedicado às engenharias e tecnologias, o ponto de partida para as histórias da Critical Software e de Bernardo Patrão.

A Critical Software é uma empresa de software e sistemas de informação que nasceu no final dos anos 90, pelas mãos de três engenheiros que se conheceram quando estavam a fazer o doutoramento no Departamento de Engenharia Informática da Universidade de Coimbra. Gonçalo Quadros, João Carreira e Diamantino Costa trabalhavam o desafio da chamada injeção de falhas num projecto na área do espaço. A partir do Instituto Pedro Nunes, sonhavam tanto quanto trabalhavam até que foram contactados pela NASA e a empresa descolou. 

A Critical caminha há mais de 20 anos em cerca de 10 indústrias distintas, sempre com o mote das soluções para sistemas críticos cujas falhas possam acarretar vidas humanas ou perdas financeiras significativas. A pegada da tecnologia conimbricense está espalhada pelo mundo, em sistemas de gestão de eleições, sistemas bancários e financeiros, no transporte ferroviário, sistemas de defesa, projetos de transformação digital com entidades estatais e ainda na área dos edifícios inteligentes e smart cities, entre muitos outros.

Dizem que o bom filho à casa torna e foi isso que aconteceu com Bernardo Patrão, engenheiro informático, com quem conversámos ao longo de duas horas durante uma viagem pelas instalações da Critical, em Taveiro.

Foi durante o curso de Engenharia Informática na Universidade de Coimbra, que Bernardo fez um estágio de verão na Critical Software. Depois da experiência Erasmus em Milão, houve a tentação de ir para fora quando terminou a licenciatura. Pensou em ir para outra cidade, outro país, mas a decisão foi simples: queria ficar em Coimbra.

Este sentido de casa fez com que Bernardo regressasse à Critical para um estágio curricular, num projeto na área do espaço. Seguiram-se diversos outros desafios, o último dos quais na área de segurança de informação. Era um projecto que tinha muito potencial de mercado e que, em 2012, justificou a criação de uma spin-off, a Watchful Software, para onde Bernardo foi trabalhar. Os episódios que se seguem enchem qualquer conimbricense (e qualquer português) de orgulho porque a Watchful Software foi comprada pela Symantec que, apesar de estar apenas interessada no software, acabou por contratar toda a equipa de engenharia. E tudo aconteceu porque a empresa compradora conheceu as pessoas, os engenheiros, que são mais do que máquinas de trabalho e competência. 

Em Outubro de 2020, Bernardo recebeu um convite interessante de João Carreira. “Para mim, foi voltar a casa mas para um trabalho novo. Tinha sempre feito gestão de equipa e gestão e desenvolvimento de produto mas agora vim fazer gestão da inovação na Critical, ou seja, a gestão de conhecimento, a gestão dos objectivos estratégicos técnicos da organização, identificar onde queremos investir para sermos a empresa que amanhã está à frente da curva em áreas tão diferentes como inteligência artificial, cibersegurança, entre outras.” 

Fomos espreitando as salas de trabalho, umas em open-space, outras para reuniões e ainda zonas de alta produtividade, verdadeiras telas em branco que permitem que o espaço se monte com a configuração mais adequada a cada projeto, movendo-se bancos, mesas e quadros brancos colaborativos.

Entrámos no Fikalab, um espaço multifunções, laboratório de inovação. Vimos material eletrónico, impressoras 3D e um pequeno expositor que exibe orgulhosamente uma amostra de projetos concluídos. “As pessoas gostam de se divertir com  tecnologia e aqui damos hipótese para o fazerem. Como bónus, adquirem esse conhecimento e aproveitam-no para outros projetos. Há ainda projetos de responsabilidade social, como a adaptação de brinquedos para crianças com paralisia cerebral que fazemos todos os anos.”

Em conjunto com diversos outros parceiros, o Fikalab promove o The Future City Challenge, uma grande competição de IoT (internet of things) que desafia a imaginar o futuro da cidade de Coimbra. Procuram-se ideias com um impacto positivo nas comunidades e que vão desde a monitorização de transportes, qualidade de ar, ruído, entre outros. Neste concurso, as soluções são desenvolvidas tirando partido da The Things Network, uma rede sem fios de longo alcance com uma cobertura significativa em Coimbra.

Demorámo-nos a admirar um espaço envidraçado e guardado a sete chaves (que é como quem diz com acesso controlado). Tratava-se de um laboratório que permite fazer validação de sistemas utilizados para controlo das linhas de comboios, semáforos e fragatas da Marinha. De Coimbra trabalha-se para o mundo, aqui são pensados sistemas que garantem a segurança de muitas pessoas.

A Critical Software não é apenas uma fábrica de sistemas de ponta mas também uma escola de engenharia. Aquelas mais de 950 pessoas trabalham todos os dias para mercados muito exigentes, com regras estritas e entregam resultados garantidos. E a exigência e minúcia no trabalho dentro destas portas acaba por levar à criação de outras empresas, é alimento constante para um ecossistema que faz a cidade fervilhar futuros. 

A propósito da pegada social, Bernardo falou-nos no chamado triple p, o mote da empresa que resume os seus três pilares de actuação: person, planet e profit. “Isto é claro na forma como a organização está estruturada e faz com que consigamos cativar pessoas que partilham esta visão do mundo. A verdade é que as pessoas já não ficam só num sítio, mudam de emprego e o que distingue as empresas é o seu propósito. A Critical trabalha para ser uma escola de engenharia mas também para ser uma empresa cidadã no mundo.”

Foi neste segundo que a nossa conversa começou a desbravar outras tantas camadas da identidade desta casa. “Na nossa comunidade interna, já somos 1000 pessoas que também estão envolvidas na comunidade do sítio onde nos inserimos. Este foco é cada vez mais claro, há uma pessoa na organização só responsável por programas de  responsabilidade social, só a pensar nas formas como podemos ajudar. É uma cultura que está impregnada na própria empresa, não é uma imposição mas um ecossistema que se cria e que nos faz sentir que não estamos aqui só para trabalhar, temos um impacto real.”

Foi o caso da iniciativa Neighbour to Neighbour, lançada em 2020, que permitiu que os trabalhadores da Critical comprassem refeições para pessoas carenciadas a um conjunto de restaurantes que estavam também a passar dificuldades, numa altura aguda para a restauração. Outro exemplo é a Companhia do Estudo, também aberta aos trabalhadores da Critical que se queiram voluntariar para ajudar crianças e jovens que precisem de apoio ou estejam em risco de chumbar, tornando-se seus mentores e dando explicações remotas. Mais recentemente, têm estado a desenvolver um programa para integrar pessoas neuro-diversas. “Não é um programa de caridade, queremos apenas criar emprego para pessoas que são muito produtivas, honestas, não têm barreiras sociais.”

Este papel social da empresa, que está mesmo no seu código, também originou a decisão de mudança das instalações para o centro de Coimbra, mais concretamente para o antigo edifício da Coimbra Editora. “No início era uma teimosia, agora já se provou que é possível ter empresas na área tecnológica e noutras áreas de formação qualificada a trabalhar aqui, é possível reter talento aqui.” Aliás, nos últimos anos a Critical diversificou as localizações dos seus escritórios em Portugal, colocando-os cirurgicamente junto de ensino de qualidade, em Viseu, Tomar e Vila Real. 

Bernardo contou-nos que as décadas de sucessos que a Critical tem percorrido nunca fizeram com que estivesse na mesa uma retirada da sede de Coimbra. “Manter a sede em Coimbra era um fincapé de todos os fundadores. Surgiram muitas oportunidades para a empresa ir para outros sítios mas sempre se acreditou no potencial desta nova indústria nesta zona. Apesar de existirem outras empresas do setor tecnológico, a Critical foi abrindo caminho. É um local que tem potencial para captar talento.” Se há dez anos atrás não havia quase oportunidades de trabalho nesta área (e toda a gente ia para Lisboa, Porto ou para o estrangeiro), agora já há quem venha de longe para trabalhar em Coimbra.

Coimbra é uma lição, de sonho e tradição, que Bernardo goza todos os dias. “Tenho uma paixão pela cidade e pelas pessoas. Sei que temos potencial para localizar as pessoas aqui, Coimbra tem uma localização privilegiada, qualidade de vida, é o sítio onde sempre sonhei educar os meus filhos. Aliás, hoje em dia vou almoçar a casa, vou buscar cedo o meu filho à escola  e, num dia mau, apanho 15 minutos de trânsito para chegar ao trabalho. Vou muitas vezes ao Parque Verde, gosto de ir à Baixa, ao Centro histórico, temos uma oferta de restauração cada vez melhor e muito inesperada. Fujo um pouco mais das zonas dos estudantes mas ainda gosto de ir à Praça beber um fino com amigos. Apareceram agora esplanadas no centro da Praça, no Jardim da Sereia e na Sá da Bandeira. Ao fim-de-semana vou muitas vezes de bicicleta de casa até ao Choupal, adoro ir à Serra da Lousã para fazer caminhadas, visitar as aldeias históricas, ir à praia da Figueira da Foz ou a Aveiro. Estou muito perto do Porto e de Lisboa, demoro o mesmo tempo a chegar ao aeroporto do que qualquer pessoa que vive em Milão.”

“A minha mãe sempre me abriu os olhos para as vantagens de viver numa cidade que tem todos os luxos e comodidades de uma cidade grande mas tem uma enorme qualidade de vida, qualidade de ensino, de saúde.” Também é assim que este profundo sentimento de pertença à terra vai sendo passado de geração em geração.

Rogério Leitão, Pescador Berlengas

Foi numa manhã estranhamente quente e solarenga, que apanhámos o barco e seguimos até às Berlengas. O mar estava tão calmo que quase nos esquecíamos do seu habitual balanço, e foi assim, que num piscar de olhos chegámos ao destino. A hora estava marcada, mas não havia ponto de encontro, contudo, esse facto não nos preocupava, porque já tínhamos percebido que por ali, todos conheciam o Rogério. Assim que desembarcámos, perguntámos por ele à primeira pessoa que vimos e seguimos em direção à sua casa. A noite anterior tinha sido de pesca e quando lhe batemos à porta, ele ainda descansava. Esperámos apenas alguns minutos e o Rogério apareceu, sorridente e pronto para nos abrir parte do livro da sua vida. Sentámo-nos num banco corrido à sua porta e seguimos com ele pelo comando.

O Rogério tem 55 anos e é pescador na ilha da Berlenga. Vive entre a ilha e Peniche, cidade onde nasceu e cresceu. O inverno continua a passá-lo lá, mas durante os outros 6 a 7 meses, muda-se para a Berlenga. No inverno vai e vem consoante a meteorologia permite. Pesca maioritariamente robalo, dourada, peixe-galo, pargo e sargo. Esta paixão pelo mar chegou pela mão do pai que tinha uma traineira da pesca da sardinha, e foi aos 14 anos que começou a trabalhar com ele. Reforça que isso aconteceu por opção sua e não por vontade dos seus pais. Eu andava obrigado na escola e desde miúdo que queria vir para o mar. Era o meu sonho e neste aspeto sinto-me um privilegiado porque faço o que gosto. Até aos 24 anos andou no mar, mas depois um problema na coluna obrigou-o a parar. Foi trabalhar para uma siderurgia no País Basco, depois regressou e abriu um restaurante em Peniche, trabalhou em bares e segundo ele, o currículo segue tão extenso como uma enciclopédia. Há 15, 20 anos – as datas não são o seu forte – regressou ao mar e esteve a trabalhar por conta de outro até há 7 anos atrás quando decidiu comprar o seu próprio barco. Era um dos sonhos da minha vida vir para aqui e ter aqui uma casinha e consegui concretizá-lo.

Entre Peniche e a Berlenga, Rogério não tem dúvidas e escolhe a ilha. Eu tenho uma ligação muito grande com o mar. Acho que a água salgada me corre nas veias. Hoje em dia pesca completamente sozinho, à cana e acredita ser esta a forma mais sustentável de o fazer. Assume essa preocupação, com a sustentabilidade, a preservação das espécies e a poluição marítima e acredita que esse pensamento já vai sendo mais comum entre os seus pares. Enquanto conversávamos, os barcos continuavam a chegar, carregados de pessoas, e Rogério partilhava connosco que agosto é o mês em que menos gosta de ali estar exatamente por essa confusão. Prefere dias mais calmos, quando tem a ilha quase só para ele, mesmo quando isso acontece em consequência de mau tempo. A força da natureza é um filme dos melhores que há, mas já fiquei aqui sem dois barcos e já tive um naufrágio no Baleal. Foram dois surfistas buscar-me e eu já estava quase do outro lado. A esse sítio nunca mais regressou, ficou ali um trauma, mas o bichinho do mar foi sempre falando mais alto. 

Hoje tem a certeza de que esta será a sua profissão até que o corpo lho permita, e essa certeza é tão forte que nos diz que isso já está escrito. Fazemos uma pausa na conversa e convida-nos a conhecer a sua casa. Um espaço com menos de 10m2, com uma pequena cozinha e o seu quarto, mas que parece ter tudo o que ele necessita, eu não preciso de mais do que isto, já tenho o melhor escritório do mundo ali fora. A sua casa segue numa linha de uma série de outras todas iguais, que foram ali construídas para servirem de abrigo aos pescadores. Quando lhe perguntamos se a sua mulher partilha desta paixão pela ilha, os seus olhos brilham, ela adora isto, aliás, foi ali na fortaleza que nos conhecemos. 

Apesar do contexto de pandemia, conta-nos que os valores do peixe têm estado consideravelmente altos e que hoje em dia compreende existir já um mercado específico para o peixe ali pescado, o que faz com que não vá sequer para venda em supermercados e com que siga diretamente para restaurantes de topo. A qualidade excepcional deste peixe, explica-nos Rogério, está ligada aos nutrientes da água, à constituição dos fundos e à própria alimentação dos peixes. Ali são apenas 11 pescadores, o que faz com que funcionem como uma pequena comunidade, onde a entreajuda é um espírito comum. A decisão de pescar à noite está diretamente relacionada com a questão das correntes, as fases da lua, e as horas em que os peixes se alimentam. No melhor dia deste ano, apanhei com um amigo, 210 kg de peixe galo. É um gozo incrível, parece que entramos em piloto automático, mas depois a excitação e a adrenalina são tão fortes que nem consigo dormir. Há mais de um mês e meio que não existe uma folga, e o cansaço começa já a fazê-lo sonhar com o inverno e uns serões à lareira. 

Esta conversa com Rogério terminou da única forma possível, com um passeio no seu barco, a que deu o nome de “Fé”. Enquanto nos contava alguns dos segredos da pesca, segredos esses que para sempre guardaremos em segredo, mostrava-nos também alguns dos recantos mais bonitos desta ilha. Por várias vezes referiu que trabalhar num lugar assim é de facto um privilégio e em nós ficou a certeza de que este será o seu eterno escritório.   

Inês Fialho, Maria da Nazaré

Existem meses que combinam com certos lugares, e neste caso, agosto combina de facto com a Nazaré. As ruas estão mais vivas do que nunca e esta vila piscatória torna-se uma das praias de banhos mais concorrida do litoral Oeste. Chegados e após a tarefa hercúlea de encontrar um lugar de estacionamento, seguimos até ao Mercado Municipal. Gostamos muito de mercados e principalmente do tanto que nos contam sobre os lugares e sobre as pessoas. Os cheiros, as texturas, a variedade e os bordões que ouvimos entoados pelos comerciantes – mulheres na sua maioria – torna este local num ponto de paragem obrigatória a qualquer um que visite a vila. Foi dentro desta atmosfera tão particular que fomos encontrar a Inês, que sorrindo já nos esperava.

Inês Fialho faz parte da quinta geração de mulheres nazarenas a trabalhar o peixe seco. Conta-nos que este processo ancestral de secar o peixe surgiu pela necessidade de garantir a alimentação para os longos e rigorosos meses de inverno. Na ausência de outros meios de refrigeração, a seca do peixe permitia a sua conservação natural. Com o mesmo propósito nascia o aluguer de casas. Muitas pessoas iam para as suas cabanas ou sótãos durante o verão para alugarem as suas casas. Era típico ouvirmos os carrinhos de mão em maio para tirarem as mobílias. Hoje esta tradição da secagem do peixe está em risco de extinção e essa foi uma das razões que levou Inês a agarrar este negócio, dói-me o coração pensar que esta tradição pode acabar e daí ter-me dedicado a isto. Inês, nazarena de gema, licenciou-se em Educação Básica em Lisboa e aí viveu e trabalhou durante 13 anos. Contudo, todos os verões, durante o mês de agosto, tirava férias e regressava para ajudar a mãe e a avó.

A sua avó Maria sempre foi uma das suas grandes inspirações. Começou a trabalhar com 6 anos e só parou aos 87 quando a sua saúde assim o obrigou. Filha de uma peixeira e de um pescador, teve assim de abdicar da escola para ajudar a sustentar a família. O seu caráter empreendedor fez dela uma figura conhecida de todos e um exemplo de vida para Inês. Se é verdade que uma parte significativa do regresso de Inês à Nazaré se deveu a querer prolongar essa tradição, existiram também outros fatores que o precipitaram. O seu marido, também ele nazareno, sempre teve o sonho de regressar, e, quando Inês engravidou, a ideia de poderem criar a sua família na vila pareceu-lhes ideal. Foi assim que, já casados e à espera do primeiro filho, deixaram Lisboa e começaram um novo capítulo na Nazaré. Eu acho que tenho de estar onde estou feliz e eu quero estar aqui. 

Inês explica-nos que a técnica de secagem do peixe é o resultado de uma série de pequenos processos. O peixe é primeiro amanhado (são-lhe retiradas as tripas), depois é lavado e passado por uma salmoura feita de água e sal grosso e depois é finalmente aberto ou escalado e estendido ao sol nos famosos paneiros, que são uma das mais emblemáticas imagens desta vila. O facto de ser estendido na praia faz com que a maresia lhe dê um toque especial também. Secam apenas 4 tipos de peixe, o carapau, a sardinha, o cação e os verdinhos ou batuques. A tradição mantém-se assim tal e qual como sempre foi, a única diferença é que Inês se esforça por poder elevá-la e levá-la mais longe. Hoje, além de poderem encontrar estes produtos nos mercados municipais, podem também prová-los em vários restaurantes, dentro e fora da vila, levá-los em vácuo caso estejam em viagem e ainda encomendar online. 

Foi também por insistência do seu irmão, que começou a olhar para o negócio dessa forma, ou seja, além da manutenção da tradição, a possibilidade de homenagear de facto a sua avó, levando a marca mais longe. Assim nasceram, por exemplo, os cartuchos em 2013, para venda individual do carapau e com indicações em três línguas de como se come e como se conserva. A aposta na exportação é também um dos grandes objetivos, para que a Maria Nazaré possa chegar às melhores lojas gourmet de qualquer cidade do mundo. Gosto muito da venda, mas o que me tira o stress é amanhar e escalar. É duro, é tudo manual mas é uma terapia. 

Inês diz nunca se ter arrependido desta mudança. Embora goste muito de Lisboa e tenha de lá memórias muito felizes, agora as suas visitas são sempre com regresso marcado. Explica-nos que com a pertinência cada vez maior do surf na vila, a Nazaré deixou de parar como habitualmente acontecia a partir do mês de setembro e que agora o que acontece é que muda simplesmente o tipo de turista, fazendo com que exista trabalho durante todo o ano. Temos qualidade de vida, não uso carro para nada. Todos os dias vão à praia brincar um bocadinho. Eu acho que tenho de estar onde estou feliz e eu quero estar aqui.

Sérgio Cosme

Foi num dia típico do que habitualmente encontramos pelo Oeste, com um sol ainda tímido e um vento que corria em todas as direções, que chegámos ao Noah Surf House, mesmo de frente para a praia, em Santa Cruz. Subimos até ao primeiro andar, onde se encontra a zona de restaurante o “Noah Beach House”, com um incrível pátio com piscina e vista mar. Foi nesta atmosfera descontraída e relaxada que começou a conversa com o Sérgio Cosme, piloto de jet ski e profissional das equipas de salvamento de ondas grandes. Apesar das muletas, na sequência de uma cirurgia ao joelho que resultou de um acidente de mota, foi a sua boa disposição e sentido de humor que dominaram desde o primeiro momento, e foi nesse tom que navegámos durante todo o encontro.

Sérgio nasceu e cresceu em Lisboa, mas o seu avô comprou casa em Santa Cruz e era para cá que vinha sempre que podia, principalmente durante o período das férias de verão. Sempre foi fascinado pelo mar e sempre foi um aventureiro. Lembra-se de ainda muito miúdo entrar mar adentro, curioso e destemido, e da infinita quantidade de vezes em que o nadador salvador vinha “ralhar” com a sua mãe. Desde os 3/ 4 anos que se lembra de andar com o tio de mota de água e do quão cedo ele próprio aprendeu a conduzi-la. Apesar disso, começou por sonhar com profissões mais vulgares como veterinário, médico e depois engenheiro civil. Mas a necessidade que sempre o acompanhou de testar os seus limites, e que levou consigo para o surf e também para as motas, guardava-lhe um destino diferente.

Apesar das vindas constantes a Santa Cruz, foi apenas em 2007 que comprou ali a sua casa. Mas foi anos antes, por volta de 2003/2004 que começou com amigos ainda por brincadeira no tow-in, uma modalidade de Surfing, onde o surfista é rebocado por um Jet-Ski, este método permite que o surfista entre nas ondas mais cedo do que o normal, e tem uma vantagem demonstrada nas situações em que a onda é muito grande e se move muito rapidamente. Depois, enquanto geria um bar na praia, tirou também o curso de nadador-salvador, como trabalhava na praia, se alguma coisa se passasse eu queria poder ajudar e sentia que precisava de ter os conhecimentos certos para o saber fazer da melhor forma. 

Em 2007 foi vice-campeão nacional de Todo o Terreno na classe principal como copiloto e desde os 14 anos quando comprou a primeira prancha de surf que nunca parou de surfar,no reboque de surfistas encontrou o melhor desses dois mundos, a condução e o surf. Com esta sua profissão chegou também, a sua agora segunda casa, a Nazaré. A sua sede insaciável por adrenalina e a paixão pelo mar, teriam obrigatoriamente que o levar até às ondas grandes, nomeadamente na Praia do Norte, junto aos reconhecidos Nic von Rupp, Garrett McNamara, Alex Botelho, entre muitos outros. Eu costumo dizer que no porto de abrigo estão várias equipas mas lá dentro somos uma família. Esta afirmação explica de forma clara o porquê de ter sido apelidado de The Guardian Angel of Nazaré num documentário feito pela Red Bull. 

Quando questionado sobre a preferência, entre a Nazaré e Santa Cruz, o seu coração fica dividido. Embora a sua casa oficial esteja em Santa Cruz, também já considera casa, ao lugar onde fica na metade do ano que passa habitualmente na Nazaré. Já as considero família e a vila recebeu-me mesmo de braços abertos. Sinto-me tanto em casa lá como aqui. Aqui não consigo ter tanto trabalho como na Nazaré e na Nazaré não consigo tanto descanso como aqui, diz entre risos. Quanto ao futuro, admite que gostaria de continuar nesta profissão até que se sinta capaz de o fazer, mas confessa um desejo. Custa-me saber o quanto a gasolina e o fumo da mota poluem o mar e também a forma como o barulho afeta os peixes. Gostava de estar envolvido num processo que levasse à criação de uma mota eléctrica, até já contactei a Tesla. A preocupação com o futuro do planeta e com a causa ambiental é algo que lhe diz muito e um dos motivos porque também gosta tanto do espaço do Noah, onde a sustentabilidade foi um dos conceitos chave. 

O facto de ter tido este último susto e de estar ainda a recuperar de uma cirurgia, não lhe acalmou de forma nenhuma o desejo de voltar ao mar e é a ideia desse regresso o que verdadeiramente o motiva para trabalhar afincadamente na sua recuperação. Já sobre a possibilidade de voltar a viver em Lisboa, a resposta surge-lhe imediata e natural, a minha mãe continua a ter casa lá, mas mesmo assim, quando tenho de ir lá dois dias seguidos, venho dormir a Santa Cruz, acho que isso diz tudo. Aqui estou ao lado do mar, posso treinar e nem preciso de ginásio, posso ir correr para o pinhal. Aqui a minha vida é muito mais saudável. Para terminarmos este encontro, Sérgio aponta um único lugar como o possível, a praia, e de repente esquecemo-nos das suas muletas e da sua lesão no joelho e é para lá que seguimos, em direção ao seu habitat natural. 

Larissa Amaral e Felipe de Moraes, Larissa Amaral Arte e Tatuagem

Foi nas Caldas da Rainha – cidade criativa, cuja arte se respira em todos os recantos – que tivemos o privilégio de conhecer esta história inspiradora. Quem conhece a cidade e as pessoas que nela e, sobretudo dela, vivem, certamente terá facilidade em imaginar a expectativa com que chegámos – de que este encontro seria com pessoas talentosas e estimulantes. Mais do que isso, foi momentaneamente notório que estaríamos perante alguém predisposto a dar o seu contributo para este projeto através da sua energia.

A Larissa e o Felipe receberam-nos no edifício do Silos, um contentor criativo – como é conhecido – que foi outrora uma fábrica de moagem, e que dá hoje palco a artistas de diversas áreas, como é o caso de Larissa. Arquiteta de formação, sentiu as veias criativas presas às exigências inerentes a essa profissão, e decidiu seguir o que realmente a fazia sentir realizada. Exerci no Brasil durante 6 anos e senti uma falta de liberdade artística muito grande. Então, sabia que queria parar de trabalhar com isso. Depois, fiz um curso de gastronomia, trabalhei em restaurantes como chefe de cozinha, mas aí a tatuagem me abraçou e me apaixonei. Felipe, Engenheiro do Ambiente de profissão e amante de surf, é o braço direito de Larissa em todos os seus projetos profissionais, e a outra metade desta aventura. Trabalha na Lourinhã, a vinte e cinco minutos das Caldas da Rainha, há menos de um mês, numa cooperativa sem fins lucrativos, cuja principal finalidade é a promoção de um desenvolvimento sustentável. 

O que começou por ser umas férias de duas semanas em Portugal, acabou por se tornar num plano para o resto da vida. Como nos conta o Felipe, A gente estava no Brasil em novembro de 2019 e comprámos uma passagem para Portugal, para vir quinze dias de férias. Só que eu amo o litoral, sempre peguei ondas, e gostei muito dessa zona aqui. Passado duas ou três semanas, olhamos um para o outro e falámos “Vamos ficar em Portugal? Vamos perder a passagem de volta?”. Larissa embarcou nesta jornada, que estava apenas a começar e, juntos, deram início ao plano que lhes iria mudar a vida para sempre e para melhor. 

Casaram um mês antes de virem para Portugal. O Felipe inscreveu-se num mestrado em Bragança – para que tivessem mais facilidade em conseguir o visto de residência – e começou a viagem. Estiveram duas semanas a viajar, apaixonaram-se por Peniche e foi consensual que teriam de viver nesta zona do país, eventualmente, depois de cumprida a tarefa do Felipe de terminar o mestrado em Bragança. E assim foi. Viveram em Bragança e, depois, em Vila Real – onde Larissa teve o seu estúdio de tatuagens e conquistou a maior parte dos clientes, que ainda hoje mantém. Ambos admitem que vão, para sempre, guardar o norte do país num lugar especial dos seus corações. Contudo, a energia das pessoas no centro do país é, para eles, especial. As pessoas são muito mais abertas. Acho que essa cabeça aberta que sinto aqui no centro é impressionante, principalmente nos jovens.

Apesar da paixão imediata por Peniche, admitem que precisam de viver numa cidade com mais serviços e acessibilidades. Procuraram um destino permanente com essas características e foi assim que chegaram à cidade criativa. Conheceram o Silos quando procuravam casa. Foi por um anúncio de uma casa que estávamos a ver que dizia “Fica em frente ao Silos”, conta-nos Larissa. No mesmo dia, visitaram a casa e o edifício do Silos, e não havia como não ficarem com ambos. Larissa sente que, ao contrário do que experienciou em Vila Real, aqui a arte está presente em tudo. Há artistas de todas as áreas, há cultura e gosto pela arte por parte das pessoas. Acho que a inserção cultural e artística aqui é muito grande e foi isso que nos trouxe para cá. Além disso, falam da facilidade que têm em chegar a todo o lado – andam sempre a pé e só usam o carro, fundamentalmente, para ir à praia. Felipe, para quem o sol é um elemento fundamental, diz-nos que outro aspeto positivo, no que diz respeito à qualidade de vida no centro, se prende precisamente com o clima, que considera muito parecido com o da cidade onde viviam no Brasil – Curitiba, uma cidade com dois milhões de habitantes. Larissa diz-nos que, inicialmente, achavam que esta adaptação ia ser difícil – sair de uma cidade enorme para passar a viver num meio tão mais pequeno, comparativamente. Hoje em dia, não se imagina numa cidade como Lisboa ou o Porto – com trânsito, preços altos e outras preocupações que no centro do país não têm. Falaram-nos nos futuros filhos e na liberdade que sentem que lhes podem vir a dar, nas Caldas, para brincarem livremente na rua. Num plano a curto prazo, Larissa ambiciona voltar a estudar, na ESAD, com o objetivo de estimular a vertente artística que lhe dá mais prazer – a ilustração – e de conhecer mais pessoas com quem se possa envolver e relacionar artisticamente. A minha grande paixão é a ilustração botânica, sou completamente apaixonada, conta Larissa. Decidiu mudar recentemente a imagem do estúdio, deixando de ser apenas um estúdio de tatuagens para ser um estúdio também onde expõe os seus outros trabalhos – desde ilustrações a artigos de vestuário com a sua “pegada”.

Por todos estes motivos, é evidente que vieram para ficar. Esta história deixou presente a mensagem de que é preciso arriscar e apostar num futuro ambicioso, a fazer o que realmente se gosta, e se possível, com quem se gosta. 

Projeto Zen Family

É na pequena aldeia de Casas da Ribeira, a escassos quilómetros da vila de Mação, na região do Médio Tejo, que fomos encontrar a Daniela Ricardo e o Luís Baião, proprietários da Casa dos Sonhos e do projeto Zen Family. Se existem lugares mágicos, cuja energia parece contagiar-nos no preciso segundo que neles entramos, este é sem dúvida um desses lugares. A sensação é a de termos chegado a um lugar protegido, alheio ao lado mais mundano e mais próximo da nossa essência, tal é a sua comunhão com a natureza. Um espaço inspirador, onde todos os ingredientes para o estímulo da criatividade parecem estar presentes e vivos.

A Daniela é natural de Matosinhos e trabalhou durante 20 anos enquanto enfermeira, o Luís é natural de Sintra e há 25 anos que se considera um viajante de profissão. Conheceram-se na cidade do Porto e rapidamente perceberam partilhar a paixão não só pelas viagens, mas também por um estilo de vida saudável. Não foi nesse primeiro momento que iniciaram uma vida em comum, mas o destino acabaria por voltar a cruzar os seus caminhos. Gerir a carreira de enfermagem com as funções enquanto consultora de alimentação consciente e natural, além das viagens que começou a fazer juntamente com o Luís, obrigou-a a tomar uma decisão e foi assim que a enfermagem ficou pelo caminho. Sentia que trabalhava no controlo de danos e na doença e percebi que o que realmente fazia sentido para mim era trabalhar na saúde e ensinar as pessoas como criar hábitos de vida saudável.

Lançar-se como viajante há 25 anos atrás fez com que as pessoas à volta de Luís assumissem simplesmente que ele não queria trabalhar. Hoje a forma como vemos estas profissões é brutalmente diferente, mas nessa época não era de todo algo que as pessoas conseguissem compreender e havia muito preconceito. Durante este longo percurso dentro do universo das viagens, já passou por um sem fim de países como o Butão, Nepal, Sri Lanka, Namíbia, Japão, Marrocos, e a lista poderia continuar quase indefinidamente. O processo de criação dessas rotas foi sempre um dos elementos que maior prazer lhe deu nesta profissão, e nos últimos anos é com a Daniela que o partilha, assumindo ambos a função de guias nas viagens de grupo que organizam. Hoje em dia digo que viajo para onde eu quero, quando eu quero, e as pessoas por acaso também querem vir e então pagam-me para eu viajar. 

A ligação à aldeia de Casas da Ribeira chegou pelas mãos dos pais de Luís, que ali residem há 20 anos. Desde que estão juntos, Daniela e Luís, que as vindas a este lugar eram constantes – sendo que há 7 anos que ali começaram a organizar retiros – até que perceberam que entre os meses que passavam a viajar e os que estavam em Portugal, já quase não paravam na casa do Porto e era ali, naquele lugar, onde de facto se sentiam bem. Há dois anos a decisão tornou-se evidente para ambos, e mudaram-se em definitivo para a Casa dos Sonhos. A serenidade nas palavras de Daniela torna evidente o quão positiva foi essa mudança, aqui estamos num paraíso, a qualidade de vida é muito melhor, saímos à rua e só ouvimos os passarinhos a toda a hora, respiramos o ar puro que a natureza nos dá e continuamos a estar perto de tudo. 

A chegada da pandemia obrigou a uma pausa. As viagens que estavam programadas para todo o ano de 2020, e que estavam já nessa altura esgotadas, tiveram que ser adiadas por tempo indeterminado e o foco teve de ser redirecionado para outras áreas. O amor que sentem por esta aldeia fê-los decidir que este era o momento certo para perceberem de que forma poderiam ajudar a revitalizá-la, e foi assim que nasceu a Campo Estival – Associação Cultural e Desenvolvimento Humano, que em menos de dois meses conta já com mais de 200 associados. Foi desta forma que começaram por sensibilizar as pessoas a vender velhos palheiros e casas em ruína, ao mesmo tempo que chamavam amigos que sabiam sonhar com poder vir viver para o interior. Neste momento já existem 8 novos residentes na aldeia, um hostel que irá abrir brevemente, uma horta comunitária criada pela Associação, e num futuro breve, um forno comunitário e uma cara nova para a Casa do Povo da aldeia, pela qual o casal ficou também responsável. Através desta Associação, e assim que a pandemia o permita, querem começar a trazer pessoas até Casas da Ribeira e desenvolver atividades com uma intervenção cívica, como limpeza da natureza, pintura de casas mais degradadas, cujos proprietários já não tem capacidade para o fazer e assim, através do exemplo, sensibilizar as pessoas a cuidar melhor deste lugar. 

Os projetos deste casal são intermináveis, porque neles reside uma fome insaciável de criar, de construir e de poder contribuir para algo maior. Além dos retiros que desenvolvem já há vários anos, sob as temáticas de desenvolvimento pessoal, contacto com a natureza, empoderamento e alimentação saudável, realizam ainda refeições às cegas, passeios, viagens sensoriais através de vários instrumentos que foram trazendo das suas viagens, e ainda workshops de alimentação natural e consciente. Outra das ofertas que tem vindo a crescer cada vez mais na Casa dos Sonhos, é direcionada para empresas e surgiu pelo interesse demonstrado pelas mesmas. Pequenas equipas que procuram reunir-se num ambiente diferente, longe dos escritórios convencionais, escolhem este lugar perto da natureza para o poderem fazer, e muitas vezes agregam a essa experiência outras das atividades que o casal ali desenvolve, como os passeios pela natureza ou os workshops.

A tranquilidade e a leveza que viajam nas palavras de ambos mostra de forma clara o quão felizes estão por terem tomado esta decisão. Admitem que o facto de terem viajado muito e por países com dimensões brutalmente maiores do que a de Portugal faz com que a noção que têm das distâncias seja hoje bastante diferente. Mas a verdade é que estando no centro do país, ou no umbigo, como Luís o chama, faz com que de facto se sintam próximos de tudo, com a vantagem de estarem num ambiente confortável e que lhes permite continuar a trabalhar sem nenhum tipo de entraves, muito antes pelo contrário. Daniela está neste momento a terminar o seu quinto livro e conta-nos que, antigamente, íamos para o Gerês ou para os Açores para eu acabar de escrever os meus livros e poder ter um ambiente sossegado e tranquilo no meio da natureza, e agora basta-me estar em casa. Para Daniela e Ricardo viver no centro de Portugal é viver num lugar de infinitas possibilidades, onde a presença tão agreste da natureza serve de estímulo à criatividade e à criação, sem barreiras nem limites.

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Miguel Atalaia, Cem Soldos

Foi no começo do mês de maio, num dia de calor tão intenso que trazia a sensação de um verão fora de tempo, que fomos até Cem Soldos conhecer o Miguel Atalaia. Para que o calor não nos atrapalhasse a conversa, o Miguel levou-nos até à sede da Associação Sport Club Operário de Cem Soldos e foi lá que demos início ao que viria a ser um périplo cheio de curvas e contracurvas, onde fomos muito além dos temas que seriam mais evidentes. Seguimos guiados por ele por caminhos tão distantes do esperado como o futuro da educação ou as várias noções de cidadania. Este encontro primvou por uma atmosfera de grande descontração, mas foi a profundidade com que o Miguel nos falou sobre temas pelos quais é visivelmente apaixonado o que verdadeiramente permaneceu em nós. 

O Miguel tem 32 anos, nasceu e cresceu em Cem Soldos e é o atual Diretor Artístico do Festival Bons Sons e Presidente da Direção do SCOCS, onde o fomos encontrar. Licenciou-se em Design Gráfico e depois seguiu para um Mestrado em Design Editorial, ambos em Tomar, e mais recentemente passou por Lisboa e pela ETIC, onde tirou o curso de Cinema e Realização. A ligação à aldeia de Cem Soldos é para si umbilical, em todos os sentidos da palavra. Contudo, é a sua vertente associativa e a sua dinâmica cultural, onde se destaca o espírito dos seus jovens, o se nos revela ser ali verdadeiramente diferenciador. Acontece aqui uma coisa muito interessante. A nível de percurso académico e de trabalho, estes jovens que estão fora e mantêm ligação aqui, muitos estão a tirar cursos e a trabalhar em áreas que experimentam pela primeira vez aqui, quer no festival Bons Sons quer noutras dinâmicas culturais. 

Embora tenha assumido o cargo de Diretor Artístico do Festival Bons Sons apenas no início do ano de 2020, a sua ligação ao Festival aconteceu desde o primeiro momento, e é com grande paixão que nos fala sobre ele. Explica-nos a importância do voluntariado enquanto pilar fundamental do Festival, promovendo a responsabilização, a entreajuda e o envolvimento de toda a aldeia, ao mesmo tempo que oferece aos festivaleiros uma experiência de imersão nas vivências de Cem Soldos. Com a mesma relevância, fala-nos do quão importante foi o palco que deram à música portuguesa. É também nesta altura que partilha connosco um momento muito especial de uma das edições do Festival, que ele acredita espelhar o quão diferente é o ambiente que se vive ali durante aqueles quatro dias. Foi durante um concerto no Palco Amália – cuja banda já não sabe precisar – num final de tarde junto à Igreja que algo inesperado aconteceu. Alguém no público viu uma senhora a assistir ao concerto da sua janela, sendo que esse alguém era a D. Lurdes, que hoje já não se encontra entre nós, e decidiu começar a cantar-lhe o “Menina estás à janela”. É com um brilho nos olhos que o Miguel nos conta o quão extraordinário foi aquele momento, em que a banda parou para que todos os que ali estavam pudessem cantar aquela música em uníssono. Naquele momento quebrou-se a lógica de estarmos ali para ver um concerto, nós estávamos ali todos juntos no mesmo momento e interligados, a viver a aldeia. 

Cada edição é uma nova descoberta e um novo desafio, com todos os habitantes a ajudar a contornar as dificuldades que surgem, e hoje em dia a aceitação por parte de Cem Soldos é esmagadora. A explicação para essa aceitação, tão clara, prende-se essencialmente com os projetos estruturantes para os quais o Festival contribui, sendo um bom exemplo o projeto “Escola Aldeia”. A forma como nos fala sobre este projeto em particular torna evidente o carinho que detém por ele e nós somos rapidamente contagiados pela visão que nos transmite do mesmo. Esse projeto nasceu num momento em que a continuidade da escola primária na aldeia se encontrava em risco, e pelo esforço conjunto da SOCS, do Agrupamento de Escolas e da Associação de Pais, foi possível criar um projeto diferenciador que, além de ter conseguido manter a sobrevivência da escola, trouxe ainda crianças de vários concelhos em volta até Cem Soldos. Numa lógica de ligação direta à comunidade, potenciando a entreajuda e a envolvência das crianças com a própria aldeia e as suas pessoas, hoje este é mais do que um projeto de sucesso, é um exemplo no caminho de uma visão educativa que se quer de futuro.

Embora esteja neste momento a trabalhar no gabinete de comunicação da Câmara Municipal da Chamusca, o regime misto de teletrabalho e de trabalho presencial permitem que continue a viver tranquilamente em Cem Soldos. Para mim a ligação à natureza é essencial e é por isso que a minha casa está no meio das árvores, com animais a toda a volta. O teletrabalho é incrível neste tipo de contextos e eu acho que a pandemia conseguiu revelar essa vantagem enorme de estarmos num sítio pacífico onde conhecemos os nossos vizinhos e nos sentimos confortáveis. Muitas profissões nunca fizeram sentido num escritório, um designer por exemplo, estamos a falar de um trabalho criativo que precisa de respirar. Existe certamente uma maior produtividade se tivermos lógicas de trabalho desgarradas de um horário contínuo, direto, num sítio específico, com luz artificial e sem janelas.

Na despedida do Miguel e de Cem Soldos, a sensação é a de que nunca mais poderemos olhar aquela aldeia da mesma forma. Não só porque nos lembraremos para sempre da D. Lurdes na janela a ser brindada com um concerto insólito, mas porque o Miguel nos conseguiu transmitir de forma bastante vívida e genuína, o potencial imenso desta aldeia e de tantas outras como ela. Por oposição a uma ideia de isolamento ou de aprisionamento, que alguns podem ainda associar a lugares pequenos como este, o sentimento com que partimos foi o de deixarmos um espaço de grande e absoluta liberdade.

Nuno Rodrigues, Casal da Coelheira

Foi nas margens do Rio Tejo, junto à vila de Tramagal, que fomos descobrir o Casal da Coelheira. Com uma área com aproximadamente 250 hectares, onde as vinhas são a mais visível mancha, esperava-nos o Eng.º Nuno Rodrigues. Era já final da tarde, e apesar de lhe conseguirmos ler algum cansaço no rosto, recebeu-nos num tom bem disposto e disponível, típico de quem gosta de abrir as portas de sua casa e de mostrar algo por que nutre grande orgulho. Pediu que o seguíssemos até à sala de provas, lugar onde somos imediatamente confrontados com os mais diversos prémios que foram conquistando ao longo dos anos, e foi aí que nos sentámos confortavelmente, para mais uma viagem.

Começando por fazer referência ao propósito da nossa visita, confessa-nos que, em boa verdade, deveria ser a sua esposa Margarida a interlocutora desta conversa, já que foi ela, alfacinha de gema, que abandonou a cidade grande e se rendeu aos encantos do Médio Tejo, ela diz com muita facilidade e naturalidade, que hoje não trocaria a vida de Abrantes por um regresso a Lisboa. Ao contrário da sua esposa, Nuno nasceu e cresceu em Abrantes, e embora se sinta um eterno Abrantino, hoje considera-se também um Tramagalense adotado. Mas comecemos pelo início, e pela quinta dos seus avós, elemento fundamental e precipitador de toda a história que se seguiria. 

A sua família esteve sempre ligada à agricultura, e essas vivências que tinha durante as suas férias na quinta foram criando uma certeza quase absoluta de que o seu futuro profissional passaria por aquela área. Eu fui uma criança e um jovem um bocadinho fora do comum no sentido em que nunca tive aqueles sonhos mais ingénuos de querer ser piloto de automóveis, astronauta, bombeiro ou polícia e tive sempre uma ideia fixa que foi estar na terra e estar na agricultura. 

Com a partida dos seus avós, a sua família herdou uma propriedade relativamente perto do lugar onde hoje nos encontramos. Pelo facto de essa mesma propriedade estar dentro da zona de intervenção do campo militar de Santa Margarida, a certa altura o Estado decidiu alargar a sua área de intervenção e decidiu comprar a exploração. Por ser filho único, e por ter essa ideia fixa de querer estar ligado à agricultura, os seus pais decidiram investir esse dinheiro e comprar o Casal da Coelheira, que coincidentemente se encontrava à venda. Nessa fase, o Nuno estava já a estudar em Castelo Branco, o Bacharelato em Produção Agrícola. Embora o Casal da Coelheira possuísse vinhas, ocupavam uma pequena área e eram de fraca qualidade, pelo que a ideia inicialmente foi a de as arrancar. Contudo, três anos depois, surgiu a possibilidade de comprar outras vinhas vizinhas, juntamente com a adega onde hoje nos encontramos, e esse foi o momento de viragem. Outra feliz coincidência foi que eu estava a terminar os meus estudos e tive a oportunidade de fazer uma espécie de Erasmus, numa estação de investigação em França dedicada à enologia. Quando regressei o bichinho era maior e portanto acabei por decidir ingressar no Instituto Superior de Agronomia em Lisboa, onde fiz a minha licenciatura em Engenharia Agro-Industrial, mas sempre com foco muito grande nos vinhos. 

Durante dois anos o Nuno esteve dedicado à investigação, num total de 7 anos em que viveu em Lisboa, até que percebeu ter chegado a hora de regressar ao ninho. Nesse regresso, Nuno volta já casado e com a sua primeira filha, Leonor. Embora tenha sido apenas nesse ano de 2000 que regressa de armas e bagagens a Abrantes, já fazia essa viagem quase todos os fins de semana como forma de ir seguindo os trabalhos mais de perto. Foi também nesse regresso que percebeu a necessidade de encontrar, embora de forma temporária, um enólogo experiente, que pudesse potenciar o crescimento do projeto. Para a sua esposa, essa mudança foi de alguma forma brutal, já que tinha vivido sempre na capital e não conhecia ninguém em Abrantes. Mas, tal como Nuno havia referido inicialmente, a adaptação acabou por ser fácil e hoje é ela quem muitas vezes admite já não conseguir imaginar a sua vida noutro lugar. Já nenhum de nós trocava Abrantes por Lisboa. Conseguir ir almoçar a casa todos os dias, levar os miúdos à escola, chegar a casa a horas decentes mesmo saindo tarde, porque não fico preso no trânsito, é uma qualidade de vida muito interessante e difícil de atingir nas cidades grandes. 
Hoje, mais do que um local de trabalho, o Casal da Coelheira – cujo nome se acredita ter surgido pela abundância de coelhos que ali existem – é um projeto de família. Além da evidente paixão que Nuno transmite pelo mundo dos vinhos, é acima de tudo a serenidade com que vive aquele espaço e tudo o que ainda sonha para ele, o que de forma mais clara nos transmite ao longo de toda a conversa. O que também se torna inequívoco é que, se o projeto estivesse sediado noutro lugar qualquer, nunca poderia ter os contornos que hoje lhe vemos. É nesse conjunto de idiossincrasias do território, das suas pessoas e das suas vivências, que ele vai crescendo e florescendo, sendo essa de facto a sua identidade. A sensação de suposto isolamento do interior eu não a sinto, mas sinto um isolamento qb. no sentido da tranquilidade, poder abrir a janela e ouvir os passarinhos e o galo a cantar. Essa sensação revigorante de estar com a natureza é essencial para o nosso bem estar físico e psicológico e eu tenho o privilégio de encontrar tudo isso aqui.

Marlon Fortes, Bicho Carpinteiro

Num dia de calor tórrido, típico do mês de agosto, seguimos viagem até à Fábrica da Criatividade, em pleno coração da cidade de Castelo Branco. Este espaço deu uma nova vida a uma antiga fábrica de confeção têxtil, e é hoje um lugar de grande diversidade de produção cultural, desde o teatro, à dança, passando pela música, cinema, vídeo e televisão, design, artes gráficas, fotografia e arquitetura. É numa das oficinas no interior da Fábrica que nos espera o Marlon Fortes, ou o “Bicho Carpinteiro” como muitos já o conhecem. Ali entramos num universo dominado pelas madeiras e pelo cheiro confortável e familiar que elas libertam. Ferramentas de todos os tipos envolvem o restante espaço e é ali que nos sentamos para dar início a esta conversa.

A vida de Marlon, hoje com 44 anos, daria para encher muitas páginas de um livro. Nasceu em Cabo Verde, mas foi com apenas 3 anos que foi viver para a cidade do Porto. Assume que por volta dos seus 11 anos que vivia um momento de alguma rebeldia, e que foi pelo receio do que daí poderia vir que a sua mãe o “aconselhou” a ir passar umas férias a Cabo Verde. Chegado a São Vicente, apaixonou-se de imediato pelo território e pediu-lhe para ficar. Seria ali que acabaria por viver durante toda sua adolescência, São Vicente ajudou-me a definir a minha estrutura, foi um período muito importante. Foi também durante esses anos em Cabo Verde que descobriu o seu fascínio pelo mundo do teatro e que percebeu que queria ser ator, e foi para ir atrás desse sonho que regressou a Portugal para estudar, novamente para o Porto. 

Pouco mais de 1 ano após esse regresso entra no mercado de trabalho, mas desta vez em Lisboa. Aí começa uma vida de audições e de saltimbanco, seguindo caminho atrás das companhias de teatro, um pouco por todo o país. É também durante a sua imersão pela cidade de Lisboa que conhece Sara, uma história de amor à primeira vista e que hoje já conta 10 anos de casamento. Conhecem-se numa fase em que ambos partilhavam a vontade de mudar de vida e de abrandar o ritmo fervilhante da capital e é assim que vão morar para Torres Vedras. Nesta nova localização tentam implementar uma série de projetos mas as coisas acabam por não se desenvolver da forma que esperavam e decidem seguir caminho, desta vez para Castelo Branco. Mais uma vez não foram tão bem sucedidos como haviam planeado, mas os projetos acabaram por levá-los para perto, desta vez até Idanha-a-Nova, onde ficaram a viver durante vários anos. É em Idanha que nasce o projeto da “Marafona Encantada”, uma associação em que desenvolviam animações, peças de teatro, ATLs e aulas de ballet – área de formação da Sara. 

A chegada da pandemia acaba por fazê-los regressar a Castelo Branco e ao mesmo tempo, a ter de repensar o que seria o futuro. Comecei o projeto do “Bicho Carpinteiro” na altura do confinamento. O projeto nasce exatamente quando me puxaram o tapete. Então comecei a fazer um exercício, que é quando dispara o modo sobrevivência. Vamos apalpar terreno, ver quais são as minhas capacidades e o que está à minha volta para conseguir puxar a ponta do novelo. Foi o falecimento do seu sogro e a sua ida temporária para a zona de Mação com a família – Sara e os três filhos – que acabariam por trazer a resposta. Ao encontrar a oficina do seu sogro carregada de ferramentas, percebeu que poderia existir ali uma nova possibilidade, e foi assim que começou a construir as suas primeiras peças. Eu já estava num processo em que todos os produtos que apresentava eram impalpáveis, acontecia no momento e desaparecia, e estava com vontade de encontrar um processo que me ajudasse a materializar as coisas, e a carpintaria trouxe-me isso. 

Apesar de se ter apaixonado pela arte de trabalhar a madeira e de ter sido aí que começou a semente do projeto, sabia que precisava de conseguir aliá-lo ao mundo do teatro – foi assim que decidiu reparar coisas em casa das pessoas, mas com um nariz vermelho. Através do apoio de várias organizações e instituições locais, foi percebendo de que forma poderia tornar viável este projeto de carpintaria social e agora está pronto para ir para a rua. Ao longo da conversa a palavra “projeto” surge repetidamente. Torna-se assim evidente o quão Marlon é de facto um “bicho carpinteiro” no verdadeiro sentido da expressão. A minha cabeça é tipo pipocas. Eu não consigo ser uma coisa só. O Marlon tem de ser várias. Eu sou um autodidata, o que não sei aprendo. 
Pelo meio ainda nos falou de um projeto que iniciou para juntar a comunidade de palhaços, dar formação, criar um festival e uma bolsa de voluntários e poder fazer visitas a lares e centros de dia, outro em que enquanto ator dava vida a conteúdos programáticos para crianças através de vídeos, e a lista poderia continuar incessantemente. A energia que descobrimos em Marlon traz com ela a certeza de que nada o impedirá de continuar a realizar os seus sonhos, muito menos um “bicho”. A fúria de viver que emerge não só das suas palavras, mas da sua forma de estar e de ver a vida, tornam clara a sua natureza de criador, ou neste caso de construtor. Por outro lado, Castelo Branco parece ser de facto o lugar que encontrou para ficar. Eu continuo a mil, mas olho à minha volta e a natureza está mais perto, não me vejo fora daqui agora.

Filipa Almeida, Apijardins

Quando a natureza parece já não nos poder surpreender mais, voltamos a ficar de queixo caído, arrebatados pela sua beleza e força. Foi isso que sentimos enquanto seguíamos ao encontro de Filipa Almeida, responsável pela empresa Apijardins. O calor já começava a apertar, mas o deslumbramento com a paisagem envolvente não nos permitia sofrer com ele. Não foi por isso de estranhar que a primeira coisa que a Filipa decidiu partilhar connosco foi exatamente uma descrição da paisagem da Beira Baixa. Fruto do acaso ou consequência do nosso ar de encantamento, a verdade é que foi esse o começo da nossa conversa, ali, cercados por um sem fim de tons de verde e pelos múltiplos sons da natureza.

Filipa é arquiteta paisagista de profissão, contando já com 15 anos de experiência. Em 2009, enquanto trabalhava para uma grande empresa de construção em Viseu, e em plena crise, recebeu um convite para ir para fora do país, que era onde teria trabalho. Mas a reserva de amor que tinha pelo seu país falou mais alto. Essa decisão, embora não de forma imediata, obrigou-a a repensar tudo e em última análise a mudar de vida. Foi assim que em 2012 regressou à Beira Baixa, de onde é natural. O seu regresso coincidiu com uma série de incêndios que haviam devastado aquele território, os campos verdes de que se lembrava eram agora apenas cinzas, se eu pudesse deixar algum conselho é que as pessoas olhem para a paisagem como uma fonte de riqueza e fonte de fertilidade que nós temos para construir novamente uma vida de raiz. Onde a maioria das pessoas veria apenas um cenário de devastação, a Filipa viu um sem fim de possibilidades; foi assim que em 2013 nasceu formalmente a “Apijardins”.

A sua formação enquanto arquiteta paisagista deu-lhe os conhecimentos necessários para saber de que forma recuperar aquela paisagem através de técnicas simples de regeneração natural do solo. Primeiro foi feita essa recuperação da paisagem, depois a preparação dos apiários e a instalação das colmeias. No total hoje conta com 14 parcelas, todas localizadas no território da Beira Baixa e no concelho de Castelo Branco. Quem tem um pedaço de terra é rico, precisamente porque ela tem a capacidade e a generosidade de doar recursos que nós podemos aproveitar com conhecimento e com trabalho, e construir a nossa fonte de sustento, seja agricultura, apicultura, turismo. Filipa não sabia nada sobre abelhas quando se aventurou neste mundo. Tudo começou com um vizinho seu que tinha algumas colmeias e que já não se sentia capaz de as manter. Levou-a até ao seu terreno, confirmou que ela saberia como cuidar delas, e acabou por oferecer-lhas. Quando eu comecei isto as pessoas disseram que eu era uma mulher de ferro e de coragem. Alguns amigos até questionaram se eu estava bem. Mas temos de ter foco, determinação, muito trabalho e conhecimento. Tudo isso se vai adquirindo ao longo do tempo.

Filipa procurou esse conhecimento, fez cursos, procurou pessoas especialistas no assunto e, acima de tudo, esteve no campo, experimentou, e usou-se dos conhecimentos que já tinha sobre recursos florísticos. Quem vive no campo tem de ser essencialmente observador. E a natureza é um livro aberto e tem a capacidade de nos ensinar muitas coisas, mesmo para o nosso dia a dia. A certa altura ficamos com a sensação clara de que a Filipa aprendeu muito mais com as abelhas do que apenas como cuidar delas. Hoje, a Apijardins é uma empresa que concilia apicultura e arquitetura paisagista, dedicando-se à criação de abelhas, produção de mel e pólen, e, em complementaridade, à elaboração de projetos de espaço verdes com espécies melíferas, criando espaços ambientalmente sustentáveis. O reconhecimento do seu trabalho, tem-lhe valido variados prémios, um deles o de Melhor Mel Ibérico, com o seu mel monofloral de rosmaninho em 2018. 

A vida de Filipa divide-se entre o trabalho com as abelhas, as formações que dá e os projetos de arquitetura paisagista, e é este triângulo que lhe permite encontrar o seu equilíbrio. Quando pensa no quanto a sua vida se alterou com a mudança de uma grande cidade para uma aldeia do interior, sabe que fez a escolha certa, o campo tem essa capacidade. A capacidade de nos recuperar física e psicologicamente. À medida que nós vamos vendo as coisas a acontecer temos a capacidade de alimentar a esperança e a capacidade de fazer mais. Assume contudo, que o começo foi obviamente difícil e que existiu um trabalho descomunal, mas que com muita disciplina e uma boa organização, nunca duvidou que seria possível.  

Hoje o campo é o seu escritório e a vida com as abelhas é feita de uma perfeita comunhão. A cada final de dia, sente que a sua missão está cumprida e que com o seu trabalho está a contribuir para o crescimento e desenvolvimento de colónias, e ao mesmo tempo para a manutenção dos ecossistemas. Por outro lado, gosta do envolvimento que tem com outros apicultores, e da troca de conhecimentos que acontece entre eles. Ela partilha o seu conhecimento mais científico e eles a sua experiência empírica e no final, todos saem mais ricos dessa troca. Filipa parece reforçar a eterna premissa de que são de facto as pessoas que fazem os lugares, nós temos uma grande diversidade e oferta que está por descobrir. E não é só a paisagem. Também são as gentes e a forma como alguém é sempre bem recebido aqui.

Anabela Martins e Rui Marcelo, Moinho do Maneio

A 8km de Penamacor, junto à área protegida da Reserva Natural da Serra da Malcata, sob um relevo ondulado, envolvido pela presença de bosques e áreas de matagal, fomos conhecer o projeto de turismo rural, “Moinho do Maneio”. Ali, o primeiro sentido que se aguça é o da audição, por sermos invadidos por aquilo a que habitualmente chamamos de barulho do silêncio. Ao mesmo tempo existe também um desligar imediato do mundo e uma aproximação à natureza e ao campo. É neste estado de espírito de grande serenidade e comunhão com o cenário envolvente, que vamos encontrar a Anabela e o Rui, os fundadores do projeto e proprietários deste espaço, e é pela mão deles que seguimos nesta viagem.

A vida profissional empurrou-os para Lisboa, Anabela enquanto engenheira e Rui enquanto jornalista, mas as origens e o coração estiveram sempre firmes a este território onde regressavam sempre que lhes era possível. Anabela e Rui conheceram-se num baile de finalistas em 1990 e desde esse primeiro momento que as suas vidas se têm mantido cruzadas. Apesar de o desejo ter estado sempre latente, foi apenas em 2002 que compraram este terreno à família do pai de Rui. Nessa altura essa compra tinha como principal objetivo o de poderem ter o seu próprio espaço, evitando ter de ficar sempre em casas de família a cada visita. Contudo, lá no fundo, a ideia de poderem criar um projeto turístico já pairava no ar. Não havia água, não havia luz, nada. Nós devíamos também escrever um livro, porque já houve tanto… por exemplo, durante muito tempo, funcionámos só com energia solar e com um gerador. Nós para tirar um simples café era com o gerador. Não era um café com cheirinho, era um café com barulhinho porque tínhamos de ligar o gerador. Foi assim que começou o “Moinho do Maneio”, literalmente do zero. 

Há aqui palavras mágicas nisto. Foi “sonhar”. A partir de determinada altura começámos a sonhar que isto podia começar a ser possível. Comandados por esse sonho, arregaçaram as mangas e começaram esta aventura, arriscando, mas sempre através de pequenos passos e prevendo e antecipando todos os desfechos. Só em 2005 é que recuperaram a primeira casinha, que é agora a “Casa do Alecrim”, para quando vinham aos fins de semana e nos período de férias. Em 2008 começaram então a alugar porque já tinham a “Casa Pipa” também, mas ainda recorrendo apenas ao boca a boca, e recebendo amigos de amigos maioritariamente. No ano seguinte tornam-se oficialmente um alojamento local e desde aí que nunca mais pararam, embora tenha sido apenas em 2012 que deixaram Lisboa de vez, passando esta a ser a sua morada. 

O percurso foi acidentado, com muitos projetos dentro deste que foram falhando, muitas desilusões com pessoas em quem decidiram confiar, muitos imprevistos e alguns retrocessos. Embora nunca tenham visto este alojamento como uma forma de enriquecerem, a gestão nem sempre foi fácil e existiram fases de algum sufoco e de muitos sacrifícios. Apesar disso, nunca sentiram qualquer arrependimento nesta decisão e juntos sempre foram conseguindo superar todas as dificuldades, muito graças ao sentido de perseverança que partilham. Não é por isso de estranhar, que pelo meio tenham tido a vontade e a coragem de começar um outro projeto, desta vez na área da agricultura. Ainda em 2012, nasce a “Belaberry” uma marca de produção, comercialização e exportação de framboesas e seus derivados. Mais uma vez foi através do boca a boca que conseguiram arrancar com o projeto, mas depressa ele se foi difundido por outros canais e também outros produtos foram nascendo dele, como os licores. 

Nós a cada ano que passa, pelo menos, fazemos mais uma obra. Tanto que há uma característica que eu acho que nunca acaba, nós estamos sempre em obras. Este desassossego que parecem ter em comum, fez com que em 2016, além de terem construído a piscina, tivessem criado aquele que viria a ser um dos principais chamarizes deste lugar, “A Bolha”. A Bolha não é nada mais nada menos que uma tenda com esse formato, transparente à frente e em cima e que, por isso, nos deixa adormecer a ver o céu estrelado. Mas existem muitos outros elementos que tornam este lugar particular e apetecível, como os amigáveis cães que nos recebem à chegada, a pequena ribeira da Bazágueda a uns escassos metros e os passeios de canoa, a liberdade dos passeios de bicicleta ou o trampolim gigante.

As visitas a Lisboa mantêm-se constantes principalmente para o Rui, para a comercialização dos frutos que ali produzem, mas Lisboa passou a ser apenas um destino e não mais uma morada. Esta aventura tem sido reconfortante porque vivemos num pequeno paraíso, trabalhamos para nós, o stress é nosso, usufruímos na medida do possível e temos feito muitos amigos. Foi uma opção ótima. Vive-se com menos mas vive-se muito melhor. Hoje é no centro de Portugal, particularmente nesta região da Beira Baixa que pretendem permanecer, continuando a investir num território que tanto lhes diz e com o qual tanto se identificam. É só preciso ter tenacidade e acreditar. 

Jorge Marques, Filigrana

Foi na freguesia de Orvalho, no município de Oleiros, sob o calor típico do mês de agosto, que fomos conhecer Jorge Marques. Sabíamos de antemão que iríamos estar na presença de um artista, mas foi de forma propositada que não aprofundámos a pesquisa sobre o seu trajeto. O pouco que sabíamos trazia a certeza de que a conversa seria interessante, honesta e talvez um tanto mordaz. Detínhamos assim todos os ingredientes para uma viagem cheia de adrenalina, a contrastar com a serenidade e a quietude que sentimos ao chegar a esta pequena freguesia. Seguimos com o Jorge até ao seu espaço de trabalho e, para nosso espanto, o mesmo não era apenas dominado pelo ferro, mas também por frases inspiradoras, espalhadas por todas as paredes. Ali chegados soubemos que estávamos no lugar da ação, e por isso sentámo-nos e deixamos que apenas a voz de Jorge nos guiasse.

Jorge nasceu, cresceu e viveu em Lisboa até aos seus 60 anos. Desde os seus bisavós aos seus pais todos eram de Lisboa e é na capital que assume ter as suas raízes. A ligação a Orvalho chega apenas através do seu sogro, que ali vivia, mas comecemos pelo início. Foi com apenas 12 anos que Jorge começou a trabalhar numa tipografia. Aos 14, através de uns vizinhos passa a trabalhar numa fábrica de armamento militar. Tinha 17 anos quando se dá o 25 de Abril e a sua vida profissional começa a encaminhar-se noutra direção. A sua vocação para as artes estava lá desde sempre, e de alguma forma sempre soube que o caminho seria por aí, e de facto, assim foi. 

Foi através da publicidade que a arte finalmente pôde emergir na sua vida e pelas das suas próprias mãos. A sua função estava associada à pintura, e esse acabaria por ser o meio a que estaria ligado durante mais tempo e ao qual ainda hoje se imagina a regressar. Partilha connosco uma frase que se lembra de ter lido e com a qual desde sempre se identifica, quem trabalha com as mãos é um artesão, quem trabalha com as mãos e com a cabeça é um grande artesão, quem trabalha com as mãos, a cabeça e o coração é um artista. Esta premissa esteve sempre impressa na sua forma de trabalhar e admite que não saberia ser de outra forma. Além da publicidade, viria também a pintar capacetes, motas, camiões e tunings, tendo sido um dos primeiros em Portugal a fazê-lo. Mas a vida acabaria por lhe trazer mais uma reviravolta. Quando o meio publicitário passou a ser praticamente todo digital e dominado por máquinas, percebeu que não havia lugar para si, porque se considerava ele próprio a máquina. A publicidade antes era feita pelos artistas, agora é por computadores. 

A saída da área da publicidade e também a chegada da crise obrigaram-no a parar e a perceber por onde poderia seguir desta vez. Decidiu assim abordar um amigo que tinha uma oficina de automóveis e disse-lhe, ensina-me aí a soldar que eu vou fazer coisas em ferro. Como tinha já algumas noções de escultura que vinham de trabalhos que fez para teatro, rapidamente começou a perceber que era capaz, e durante 1 ano desenvolveu trabalhos utilizando o espaço dessa oficina. A vida de Jorge teve tantos acasos, imprevistos e momentos de viragem que até para ele se torna difícil manter uma ordem cronológica dos acontecimentos. Em várias ocasiões teve de regressar a trabalhos dos quais não tirava nenhum tipo de prazer, mas porque as necessidades assim o exigiam, e nesses momentos sentia sempre, isto não é viver, é sobreviver. 

Foi durante uma feira a decorrer na FIL, onde tinha um stand com os seus trabalhos, que mais um desses momentos de viragem aconteceu. Paulo, ligado ao município de Oleiros, e que Jorge já conhecia pelas visitas que fazia ao sogro, viu ali o seu trabalho e abordou-o, sugerindo que lhe conseguissem um espaço em Orvalho onde pudesse produzir os seus trabalhos. Foi assim que há 4 anos se mudou de armas e bagagens para Orvalho. Foi também por essa altura que lhe surgiu um convite inusitado por parte de um senhor chamado João Magalhães: que construísse um Jaguar XK120 em tamanho real. Para muitos a ideia poderia parecer absurda e impossível de concretizar, mas nunca para Jorge, quanto mais complicado é o trabalho, mais gozo me dá. A verdade é que, menos de 6 meses depois, o carro estava pronto, pedais, volante, bancos, tudo, com um peso aproximado de 400 kg de arame e ferro, segundo a mais fina técnica de filigrana, e hoje o mesmo pode ser visto no Museu Automobilístico e de Moda de Málaga.
 Pelo meio desta apaixonante história, Jorge pintou motores de automóveis antigos, construiu instrumentos musicais – essencialmente cavaquinhos e guitarras – uma delas com quase dois metros de altura, e mais recentemente um piano. Enquanto artista que pensa, cria e executa, não parecem existir barreiras nem à sua imaginação nem às suas capacidades. Embora pareça ter encontrado no ferro o seu caminho, o seu desejo constante de aprender mais irá provavelmente levá-lo ainda até outras paragens artísticas. Contudo, Orvalho parece ter-se tornado o seu lugar ideal para trabalhar, aqui é acima de tudo a noção de espaço e o conseguir ouvir-se o silêncio. Para alguém que em vários momentos da conversa reforçou a importância de se sentir livre e feliz, parece-nos que encontrou aqui a morada certa. 

Pompeu José, ACERT

Foi numa sexta-feira solarenga, no início da tarde, que chegámos à cidade de Tondela. O encontro estava marcado na ACERT, Associação Cultural e Recreativa de Tondela, e na hora prevista, o Pompeu estava lá para nos receber. Começámos com uma visita pelas instalações, cruzando-nos com uma série de outros protagonistas do dia a dia deste espaço e isso tornou claro o dinamismo e efervescência que corre neste lugar. A todos eles, o Pompeu parou para cumprimentar, roubando sempre sorrisos com a sua evidente boa disposição. Finda a visita, foi no jardim da Associação, que nos sentámos calmamente para conversar.

O Pompeu nasceu em Setúbal e foi lá que iniciou a sua incursão no mundo do teatro, num projeto chamado “Projeto da descentralização teatral”, na recém formada companhia “Teatro Animação de Setúbal”, corria o ano de 1979. Acumulava funções de secretariado e contabilidade porque dispunha desse conhecimento e ainda hoje assim é. Em 1987, conhece o teatro “O Bando” de Lisboa, com uma dinâmica artística muito aberta, composta por pessoas bastante aguerridas e acaba por surgir o convite para que faça parte, acabando por se manter lá durante 6 anos. Quando as casualidades da vida e neste caso do teatro o trouxeram até Tondela, ficou agradavelmente surpreendido com o que ali se fazia e além de regressar a Lisboa apaixonado por aquela terra, regressou também apaixonado por uma Tondelense, que viria a ser a sua mulher, a Carla.

Entretanto, em 92 recebemos um apoio pontual para o grupo de teatro de amadores daqui, e eu fui conhecendo o projeto, fui-me apaixonando por isto com um grande entusiasmo, e arriscámos em fazer uma candidatura para profissionalizar a companhia, e profissionalizámos, e eu vim em 1993 para cima. Hoje sou daqui e penso que com duplo reconhecimento: sou daqui por opção minha e por aceitação da comunidade. Apesar de Pompeu ter nascido e crescido em Setúbal onde os seus pais trabalhavam, as suas origens remontam a uma aldeia chamada Carragosela, perto da Tábua. Quando os seus pais se reformaram foi para lá que voltaram, e essa série de acontecimentos deu um novo sentido à sua mudança para Tondela. O facto de terem trabalhado desde o primeiro momento de portas abertas, deu um sentido de confiança e pertença à comunidade onde se inserem e o culminar desse sentimento, chegou com a transformação de um ritual muito antigo em Tondela a Queima e Rebentamento do Judas. O grupo pegou nesse evento anual e elevou-o. Hoje essa data envolve todo um espetáculo, com a criação de um boneco gigante que representa sempre os males relativos a esse ano, fogo de artifício e envolvimento de todo o tipo de artistas. Portanto, para nós o que é que isso nos trouxe: uma noção grande de que éramos capazes de trabalhar a partir da comunidade e para a comunidade. 

Seguiram-se inúmeros outros projetos, onde a fasquia foi sendo cada vez mais alta, pela dimensão das estruturas que foram criando, mas acima de tudo pelo esforço que foram dedicando a todos eles, sem nunca perderem o norte à sua essência e ao que os unia. Neste momento são 15 as pessoas que ali trabalham a tempo inteiro, sendo que muitos chegaram ali ainda jovens e hoje estão casados e com famílias constituídas. Aqui é tudo muito mais fácil, comes melhor, bebes melhor e os amigos são amigos mesmo. Não tenho dúvidas de que o futuro está no interior. Quando a sua mulher, também atriz, acaba por falecer, deixando Pompeu com o seu filho de 7 anos, foi preciso tomar uma decisão, e Pompeu não hesitou, decidiu ficar em Tondela. O apoio que sentiu por parte não só dos seus colegas mas da comunidade, fez com que rapidamente percebesse que não haveria outra decisão possível.

Foi em 1999, que se estreou pela primeira vez a sério em televisão, com a série “Jornalistas”, sendo que antes desse momento tinha tido apenas um papel menor como jornaleiro num filme da RTP1. Nunca ambicionou fazer televisão, a sua paixão era e sempre foi o teatro, mas acabou por arriscar e desde aí que praticamente nunca parou. O essencial foi e continuará a ser, nunca se desligar do trabalho na ACERT e é por essa razão, que mesmo estando neste momento a gravar uma novela, a sua casa se mantém fixa em Tondela. Pega no autocarro e vai, grava as suas cenas e assim que terminam regressa novamente. Embora seja evidente o carinho que tem pelas novelas, são os outros projetos que fazem os seus olhos brilhar, como “A Viagem do Elefante” onde conta que em cada lugar que chegavam, montavam o elefante na véspera e reuniam com quem quisesse participar da própria localidade, as pessoas podiam nem perceber tudo o que a gente diz, mas estão ali – estão a celebrar, e o teatro ganha. 
Pompeu veste a camisola da Associação com um espírito de missão e de propósito, mas acima de tudo com sede de continuar a fazer sempre mais, de ir ainda mais longe e de manter firme o espírito dinâmico e irreverente deste grupo, sempre com o cuidado de reforçar a premissa do envolvimento direto e participativo da comunidade onde se inserem. Tondela traz-me isto, esta vontade grande de continuar aqui, de continuar a lutar não pelos meus valores, porque por esses lutarei sempre, mas por esta ideia coletiva de que é possível viver socialmente num meio pequeno e ter esse luxo de todos os miúdos da escola verem um espetáculo ao vivo.

Lígia Santos, Caminhos Cruzados

O nosso carro curvou para a estrada de terra batida que nos conduziu ao edifício da Caminhos Cruzados, a nova adega que cruza a produção de vinhos com a cultura. O edifício, desenhado pelo arquitecto Nuno Pinto Cardoso e inaugurado em 2017, rasga um “x” elegante e moderno na paisagem e marca onde se faz o novo Dão. É palco de experiências que se elevam para lá da arte da vindima e que a casam com a literatura, com a música e, acima de tudo, com as pessoas.

Lígia Santos recebeu-nos com o jeito determinado com que encara os dias e a vida. O pai é de Nelas e a mãe de Vilar Seco, Lígia nasceu em Viseu e viveu em Nelas até aos dez anos. Esta foi a terra que a viu crescer até ir para o Porto, onde fez a adolescência e a licenciatura em Direito. Quando terminou o curso, a vida levou-a para Lisboa para fazer mestrado e depois para trabalhar numa conhecida sociedade de advogados. Confessou-nos que a capital nunca a encantou mas foi lá onde conheceu o marido e onde viveu até regressar às origens, não fosse o seu caminho um dos que se cruzaram com o vinho e com o Dão. 

A história que nos interessa começa em 2012, numa altura em que os pais de Lígia começaram a dar mais atenção a Nelas e às vinhas. “Vem com a idade, começamos a olhar para as nossas origens, começamos a passar mais tempo por cá.” A Caminhos Cruzados nasceu à mesa de uma família muito unida e envolvida em cada detalhe do projeto, das vinhas às provas, dos rótulos ao nome. “Não é difícil apaixonares-te por uma coisa que te diz tanto, no sítio onde nasceste e que os teus avós criaram.”

Esta paixão foi seguindo em segundo plano até que uma viagem mudou tudo. “Este não era o negócio principal do meu pai e ele lá se encheu de coragem e lançou-me o desafio de me dedicar a tempo inteiro ao vinho. Foi numa viagem de férias que o assunto começou a fazer sentido na minha cabeça. Senti um apelo forte, só assim pensaria em despedir-me, largar tudo o que tinha estudado nos últimos anos e assumir esta responsabilidade. Nessa viagem definimos os contornos da nossa colaboração, trabalhar com família podia ser desafiante.” Foi para Nelas na vindima de 2014 e, desde  então, nunca mais fez nada relacionado com direito e nunca mais largou o vinho.

Com a mesma agilidade com que passou das leis para as uvas, Lígia é mulher de muitos interesses. Em si, cruza o olhar vivo, a pergunta na ponta de língua e a criatividade com que harmoniza decisões. “Quando vim, decidi que tinha sempre de ter um espírito muito aberto e nunca ficar travada pela vergonha de fazer perguntas. No vinho há muita coisa que gosto. Nunca me passou pela cabeça fazer enologia mas gosto muito de sentir que o vinho, como os livros e as histórias, é um processo criativo. Num momento, quis fazer um vinho comemorativo, que fosse uma festa engarrafada, um vinho que ao abrir fosse exuberante no nariz mas não fosse cansativo na boca, que fosse um vinho engarrafado em magnum para beber com muita gente. Este processo foi uma coisa que me atraiu desde o início.”

Este encanto pelo Dão é tão natural quanto a relação umbilical com este território que Lígia conhece bem e onde se fez gente. “O Dão é uma região muito tradicional, das primeiras regiões demarcadas do país, muito antiga e com muita história. Quando começámos este projecto, apesar de sermos daqui e termos raízes profundas, não tínhamos tradição no vinho. Não queríamos fingir que fazíamos isto há muitos anos, então sentimos que podíamos seguir o caminho que nos parecesse bem naquele momento. Essa liberdade foi fundamental para não repetir ou perpetuar algumas coisas que identifico como erros na região mas que entendo porque outras casas têm uma história e precisam de respeitar o seu percurso.”

Nelas teve vários significados ao longo da vida mas hoje significa o regresso a casa. É um meio pequeno, Lígia vai a qualquer lado e há sempre quem conheça a família, a avó, o pai. Se antes queria estar num sítio onde se sentisse anónima, esta familiaridade no quotidiano tornou-se um aconchego importante que a devolve a este sítio. “Quando entrei na Caminhos Cruzados, grande parte dos nossos funcionários eram pessoas que me conheciam de toda a vida e ainda hoje trabalho com muita gente que cresceu comigo.”

Lá atrás, em 2013, Lígia não achou que se ia mudar para Nelas, o plano estava pensado para idas e vindas de Lisboa. A pandemia foi o pretexto que fez com que se instalasse com a família a 500 metros da adega. O dia-a-dia é muito simples e costuma começar com uma viagem de bicicleta para o trabalho, pelo meio das vinhas, a ver a natureza acontecer manhã após manhã. O filho vai começar a ir à escola onde andou e o marido trabalha no andar de baixo. “Temos uma vida perfeitamente normal, temos tudo aqui. Encontramos lojas e negócios pequenos que resolvem os problemas de uma forma muito mais rápida. Aqui as pessoas têm nomes, passam a conhecer-nos, criamos essas relações. Não quero demonizar a cidade mas estou mesmo feliz aqui.” Os finais de tarde são preenchidos com piqueniques, passeios ou outro programa mais convidativo. “A vida passa-se de uma forma mais calma e mais em comunhão, entre as pessoas e entre as pessoas e o espaço. Tenho mais tempo. O tempo parece que se comporta de maneira diferente.” A vida na vila tem uma porta escancarada para o mundo, com a quantidade de pessoas que conhece através do enoturismo.
Lígia sempre foi uma pessoa bastante contemplativa e em férias gosta de procurar sítios sem gente, como se fosse no silêncio e no resguardo que balança a energia com que contamina o futuro. “Ontem cheguei a casa com o meu filho e era de noite, estava mesmo escuro. Adoro ver o céu estrelado e o meu filho ficou impressionado com a quantidade de estrelas. Se todos os dias olhar para o céu, todos os dias acho extraordinário. Na adega também temos isto, saltamos o terraço e vamos para o telhado. É impossível não parar para olhar em volta e pensar no privilégio. Quando moras numa zona assim, dás-te essa oportunidade. Na cidade tens tantos estímulos e tanta pressa, o ritmo muda, não estás tão disposta a ver e a conversar.”

Capuchinhas, Campo Benfeito

Fizemo-nos à estrada e viajámos até à Serra de Montemuro, considerada nos anos 50 pelo geógrafo Amorim Girão como “a Serra mais desconhecida de Portugal”. O caminho, feito de curvas e contracurvas e marcado pela beleza da paisagem, levou-nos até à aldeia de Campo Benfeito, em Castro Daire. Esta Aldeia de Portugal é casa de poucas dezenas de pessoas e de boas histórias de quem arregaçou mangas para criar negócios ligados às tradições da terra.

Fomos conhecer as Capuchinhas, uma cooperativa de artesanato que se dedica à produção de vestuário e acessórios em burel, linho e lã. Entrámos na antiga escola primária e dirigimo-nos para a antiga sala de aula que alberga agora teares, máquinas de costura, estantes forradas com meadas, linhas, ferramentas de costura e uma grande mesa de trabalho que é palco de constantes reinvenções dos saberes tradicionais. “Isto hoje está assim um bocadinho mais confuso, já temos algumas peças da coleção deste ano, a minha colega está ali a tecer linho, aquele tear está com lã e este também.”

Demorámo-nos a apreciar a conversa, a dança de linhas e opiniões que, todos os anos, cosem ideias para as novas coleções, em conjunto com Paula Caria, a designer de moda dos últimos 20 anos. Engrácia Félix Duarte, Isabel Duarte, Ester Duarte e Henriqueta Félix são mulheres que não quiseram arredar pé daquele sítio numa época em que emigrar era quase a única opção para quem queria um futuro para lá da agricultura de montanha pobre, apoiada na pastorícia tradicional.

Regressámos à sala de entrada, que exibe cabides carregados de peças finais, únicas e dignas de escaparates de moda, que saltam dos usos do campo para avenidas cosmopolitas, do passado para caminhos de futuro. Sentámo-nos em bancos de madeira, a porta escancarada para o campo, aquele Campo Benfeito que tornou sonhos em realidade. Conversámos com Engrácia e Isabel sobre esta sua viagem mais profunda, aquela que se faz dentro de cada um de nós e nos revela a beleza do sentido de pertença a um sítio.

Tudo começou com uma ação de formação de corte e costura que Ester e Henriqueta frequentaram, promovida pelo antigo Instituto dos Assuntos Culturais, no Mesio. A aldeia estava a ficar com pouca gente e estas mulheres queriam criar o seu próprio emprego e teimar em ficar em Campo Benfeito, “um desafio nos anos 80 de todo o tamanho”, contou-nos Isabel.  Seguiu-se a formação Gestão, Profissão, Mulher, organizada pela Comissão da Condição Feminina, no Porto, e foi de lá que saiu o nome Capuchinhas que se inspira na capucha, a capa que se utiliza na serra para proteger as pessoas do frio. “Elas eram mulheres, queriam criar o próprio emprego mas algo que as ligasse à terra. Pegaram nas mantas, tapetes e tecelagens que existiam e que ajudavam na agricultura, e convidaram as tecedeiras da aldeia para ensinar a fazer desenhos modernos.” Deste curso também saiu o logótipo, bem como as primeiras peças das Capuchinhas. “As fundadoras queriam fazer coisas diferentes e houve uma instituição sueca que pagou à designer Maria Helena Cardoso para vir ao Montemuro fazer alguns produtos. Era o tradicional modernizado. Essa ajuda foi muito significativa ao longo do tempo. Se fôssemos vender só capuchas não conseguiríamos criar emprego.”

Henriqueta e Ester são as mestres da costura, Cila (Engrácia) ocupa-se das malhas e tecelagem e Isabel dedica-se à tecelagem. “Também trabalhamos com o burel, o tecido tradicional da capucha. A gente faz casacos modernos com o tecido da capucha.” Cada ano estudam-se combinações possíveis com misturas de malha com tecelagem e de malha com burel, que resultam em túnicas, saias, tops, camisolas, casacos, calças e vestidos, e ainda em malas e carteiras, alfinetes, gorros e cachecóis.

As coleções anuais também revisitam o engenho dos reaproveitamentos, como a utilização de sobras do tecido de linho que são ordenadas em tiras que se voltam a tecer. Aliás, as cores que vemos em todos os produtos são obtidas através de técnicas naturais. “Fazemos coisas modernas mas usando técnicas que nos foram transmitidas, tradicionais. O branco é a cor natural dos tecidos de lã ou de linho, os tintos somos nós que fazemos: no sarilho faz-se a meada e depois pegamos na meada branca, juntamos com as ervas numa panela a ferver, só água e as ervas, mais nada.” Há tons que resultam de fetos e urtigas, outros que vêm das folhas de nogueira, das barbas dos carvalhos ou de líquens. “As meias dos homens eram brancas e sujavam-se muito na agricultura, então as nossas mães tingiam-nas com o amarelo das barbas dos carvalhos.”

As Capuchinhas já fizeram peças para a Moda Lisboa, para o estilista Filipe Faísca, e de Campo Benfeito também viajam regularmente roupas para uma colaboração com um estilista japonês. O trabalho mais especial de todos é a ligação com os seus clientes. “Temos uma afinidade com os clientes, fazemos à medida, fazemos personalizado. Não são peças em série, é peça por peça e há sempre ali uma conversa grande antes da peça sair, as pessoas gostam de saber como é que as coisas são feitas. Criamos uma coleção, fazemos o mostruário e depois fazemos por encomenda, faz-se tudo devagarinho. Este casaco demora quase dois dias a fazer só a tecelagem, leva muita tecelagem, e mais um dia para a confeção. Um casaco de 170€ pode parecer caro mas depois as pessoas conhecem o trabalho, vêem o que aqui fazemos e voltam. A maioria dos clientes são portugueses, de Lisboa e Porto.”

O sentimento comum às Capuchinhas é o orgulho pela estrada percorrida até aos dias de hoje, décadas de entrega às artes e ofícios tradicionais numa nota de modernização. “Gostamos de ver as nossas clientes a dar valor ao que a gente faz. Como gostamos do que fazemos, fazemos com qualidade e que seja bonito. As pessoas têm reconhecido isso e é o que nos dá sempre força para continuar. Sentimos essa união entre nós porque temos essa preocupação de fazer um produto diferente, com inovação e qualidade, que dura muito tempo.” 

Do mundo inteiro, só queriam viver em Campo Benfeito. “Não queríamos sair daqui. O que nos dá força é que a gente quer tanto estar aqui, gosta tanto daquilo que faz. E porquê? Perguntas difíceis. Eu sei que quero cá estar, moro ali num cantinho que olho para o monte, no confinamento nem senti nada. Mesmo quando as alturas não são boas, a gente pensa nelas mas pensa nelas aqui.”

Diogo Rocha, Mesa de Lemos

Escolhemos um dia soalheiro de junho para mergulharmos pelas vinhas da Quinta de Lemos, em Silgueiros, para um encontro com o Chef Diogo Rocha. Demos uns passos em direção ao edifício assinado por Carvalho Araújo e sentimo-nos a entrar noutro dos socalcos que carimbam a paisagem do Dão. Somos convidados a parar. O verde das vinhas sem fim no horizonte e na memória, o ar limpo e genuíno daquele lugar, as roseiras que guardam cada linha de videiras, tudo aponta para uma conversa franca como são as pessoas dali. 

Nascido em Canas de Senhorim e natural da Urgeiriça, Diogo Rocha é filho da terra e sempre gostou do sítio onde está. Percebeu cedo que era cozinheiro. O pai conta que fez o primeiro prato aos 4 anos, a mãe diz que foi aos 6, a verdade é que a história deste cozinheiro começou pela mão da família, mais propriamente pelo pai que era chefe de sala numa empresa de casamentos e baptizados. Aquele mundo sempre o fascinou e tinha 9 anos quando começou a acompanhá-lo. Aos 12 anos, já com o tamanho que tem agora, recebeu o primeiro ordenado, 3 contos na altura. Fazia os trabalhos dos buffets das frutas, dos queijos e das carnes, mais tarde serviu à mesa e aos 15 anos deu o passo para a cozinha. Em 99, já era cozinheiro na empresa onde veio a conhecer o Chef Vítor Sobral que entrou como consultor e que o aconselhou a não se ficar por ali, a ir estudar. Passou pelas Escolas de Hotelaria de Coimbra e do Estoril e consolidou o seu percurso como chef.

“A minha mãe sempre achou que isto era uma doença que ia curar, esta doença de querer ser cozinheiro. Há 25, 30 anos atrás era um trabalho sujo, sem formação, era uma profissão que não estava associada ao saber, era só porque sim.” As últimas décadas foram uma viagem de conhecimento e de dignificação da profissão e do sector. Diogo entende que as escolas de hotelaria mas também o papel da comunicação foram os ingredientes de transformação que permitem que, hoje em dia, tenhamos melhores restaurantes, melhores chefs e melhores clientes. 

Trouxemos para a mesa aquele comentário habitual do Dão estar no miolo do país e de lhe chamarem “o interior”, mas Diogo temperou as provocações com a mestria habitual: “somos orgulhosamente rurais. Temos ruralidade mas não somos do interior, estamos a uma hora do mar, de Guarda a Aveiro são duas horas. As pessoas ainda acham que a distância é muito longa e a história ainda não nos deu tempo suficiente, mas talvez a pandemia tenha ajudado neste processo e as pessoas descubram outros sítios para viver o seu dia-a-dia. As próximas gerações vão ter uma noção diferente da distância.”

O projeto do restaurante Mesa de Lemos começou a ser cozinhado em 2011. O edifício era inicialmente uma guesthouse para alguns clientes da empresa mãe, a Abyss & Habidecor, uma empresa de têxteis, com exportação para cerca de 60 países. Diogo Rocha juntou-se ao grupo em 2013 e a casa abriu portas em abril de 2014, depois de sofrer algumas intervenções que a adaptaram num restaurante. Quando a conversa passou pelo nome de Celso de Lemos, tornou-se evidente o orgulho deste chef que segura o leme do restaurante do grupo. Falou-nos dos valores da empresa, dos nomes dos vinhos ligados à família, do caminho de qualidade que toda a equipa teima em trilhar em tudo o que faz e, acima de tudo, das pessoas. “Se há coisa que aqui temos são as pessoas. O Celso, por ser um habitante do mundo e a pessoa que nos lidera, valoriza muito mais o seu território e as pessoas de cá.”

O Mesa de Lemos é um hino ao país, à terra – a esta terra -, ao que temos e somos, ao que nos é intrínseco e tantas vezes ignorado (esquecido?). “Não faz sentido estarmos neste cenário e apresentarmos produtos que não sejam de cá.” Foi repetindo esta expressão à medida que nos dava exemplos das marcas e produtores nacionais a quem recorre ao longo do ano. É um mantra, este respeito profundo pela portugalidade, e é-o de uma forma genuína, esta atitude corre-lhe no sangue, como se não conseguisse criar sem prestar atenção ao chão que pisa. Por esta razão, gosta de ir à pesca com os pescadores, de passar na horta, ver os agricultores e as produções para entender e respeitar o trabalho de todas aquelas pessoas. “Se as pessoas souberem o que custa trabalhar a terra e fazer um bom tomate, não chegam ao supermercado e pagam 50 cêntimos por quilo. Fui uma vez pescar numa traineira, saímos às 5h da manhã, às 10h íamos voltar, só tínhamos apanhado duas lulas. Era dia 15 ou 16 e o homem desabafou que ainda só tinham feito 150€ nesse mês. As pessoas teriam outro respeito e outra exigência se conhecessem o risco de vida e a dificuldade destes trabalhos.” 

O sonho da estrela Michelin foi ganhando corpo ao longo da sua carreira, como o de qualquer jovem ator que cresce a sonhar com um Óscar. Foi quando Celso de Lemos desafiou Diogo a criar um restaurante de altíssima qualidade que esta hipótese subiu ao palco apropriado. “Tudo o que fizéssemos tinha de ser bem feito e tinha de respirar Portugal. Aliás, o nosso enólogo [Hugo Chaves] dificultou isto porque quando começou a comercializar o vinho foi premiado num concurso especial, em Londres, como o melhor vinho do mundo de primeira colheita.”

O ponto de partida do restaurante Mesa de Lemos revisita este diálogo próximo e permanente com a identidade portuguesa. “A pior coisa é não comunicarmos o local, não sabermos em que país estamos.” E vai mais longe na sua proposta: “Não podemos parecer, temos que ser, não somos mentirosos. Se vos digo que a enguia vem da Figueira da Foz, vem mesmo de lá. Não compro se vier de França ou de Espanha, não tem a ver com a qualidade, tem a ver com transparência. Há outras marcas internacionais interessadas em vir para aqui, há produtos que estão muitas vezes associados a estes restaurantes como foie gras, caviar e vieiras mas se não existem em Portugal, não trabalho. Para me manter fiel a mim e aos meus clientes, não quero.”

Da terra para o prato, cada produto passa por um processo criativo que parte das estações do ano. A primeira etapa é a construção da espinha dorsal da nova carta que é trabalhada pelo próprio Diogo, sobretudo pela noite dentro. Só é consultado o registo mental, como lhe chamou, a enciclopédia que cruza milhares de sabores, texturas e arrojo, feita de toda a sua experiência. O restaurante fecha e o chef fica na cozinha pelas madrugadas dentro a experimentar e a testar caminhos. Depois partilha com a sua equipa, pede mais ideias  e começa-se a refinar cada prato.

O processo criativo nunca acaba no prato, que vai sofrendo evoluções. “Há uma coisa que o cozinheiro tem de fazer todos os dias: questionar o seu trabalho. Provo uma coisa e acho muito boa, amanhã volto a provar e acho que já não está tão boa. A comida nunca está igual porque nós nunca estamos.”

Diogo Rocha ainda se diverte a lutar contra o mundo enquanto cozinha futuros para o Centro e para Portugal. “O nosso país nunca vai ser de quantidades, só se for a água do mar. O nosso caminho deve ser outro, temos de ir pela qualidade. Atitude é a palavra que define um território como o nosso. É tudo sempre mais difícil mas também dá-nos muito mais gozo.”

Paulo Romão, Casas do Côro

Por baixo de uma chuva miudinha que dançava à nossa volta consoante o sabor do vento, num dia onde as temperaturas nos roubavam a perceção da chegada da primavera, aterrámos nas Casas do Côro, na aldeia histórica de Marialva. Depois de uma longa viagem onde o mau tempo imperou, entrar naquele espaço foi como receber um abraço. A lareira estava acesa, a música envolvia a sala no volume perfeito e o Paulo estava sorridente à espera de nos receber. A decoração da sala onde entramos inicialmente e a da sala no primeiro andar, onde nos sentámos para dar início à conversa, pareciam combinar na perfeição, sofisticação e conforto, e foi nessa envolvência intimista, a média-luz, que embarcamos pela voz do Paulo.

Foi com apenas 19 anos, enquanto estudava Engenharia Têxtil em Inglaterra, que um evento súbito o obrigou a um regresso inesperado a Portugal. Corria o ano de 1985, e Paulo era apenas um miúdo quando se viu responsável pela empresa têxtil dos seus pais, sediada na cidade onde nasceu, na Guarda, e que contava nessa altura com 140 trabalhadores. Sendo de tão tenra idade, e vendo-se a braços com tamanhas responsabilidades, rapidamente percebeu que necessitava de um escape e foi assim, poucos anos após esse regresso, que se iniciou na competição automóvel. Foi piloto até 1995, momento em que, dado o nível que a competição começava a exigir, se viu obrigado a fazer uma escolha e decidiu deixar totalmente as corridas. Esse primeiro ano, em que perdeu o que havia sido o seu escape, foi um grande choque, mas felizmente surgiu na mesma fase uma coincidência feliz, que viria a mudar tudo. A sua esposa Carmen, com quem tinha casado quatro anos antes, tinha uma ligação a Marialva por parte da sua mãe, que ali havia nascido, e os seus pais decidiram nessa época que queriam construir ali uma casa. Paulo viu aí a oportunidade perfeita para uma nova ocupação e, durante mais de um ano, andou entretido com as obras da casa, onde rapidamente passariam a deslocar-se todos os fins de semana.

Eu tinha tido um acidente de ski, andava com uma perna toda engessada e precisava de espairecer. Então pedi à Carmen para me levar aqui ao Castelo e para me deixar lá 2 ou 3 horas e depois ir buscar-me, e foi nesse dia que nasceu a ideia das Casas do Côro. Foi durante essa tal deambulação de muletas pela aldeia que Paulo idealizou pela primeira vez,embora ainda de forma algo ingénua e embrionária, o que viria a ser o projeto onde hoje nos encontramos. A ideia inicial era comprar uma casa grande, mas percebendo que não existia nenhuma com essas caraterísticas o caminho seria comprar várias mais pequenas, e aí começou a saga. Embora não existissem ali quaisquer placas a indicar que algo estaria para venda, juntamente com um familiar que vivia ali e que conhecia toda a gente, começaram a bater porta a porta perguntando às pessoas se queriam vender. Num domingo, que terminou já noite adentro, não tendo discutido preços e tendo pago o que as pessoas lhe pediam, esse processo inicial estava terminado. No outro dia foi uma bomba na aldeia, diziam “apareceu aí um doido na aldeia que quer comprar as pedras todas e não paga mal.” 

Começaram apenas com três quartos e hoje, 21 anos depois, contam já com 31. O facto de serem muito autocríticos faz com que exista uma insatisfação constante e é isso que os motiva a trabalhar sempre mais, o que explica o facto de as obras serem sempre constantes. Nesta fase não tencionam crescer mais a nível de capacidade, mas antes criar espaços cada vez melhores, pelo que estão agora a transformar os primeiros quartos ali construídos em quartos com maiores dimensões. Para Paulo, as Casas do Côro tiveram a capacidade de se transformarem num destino, e isso muito se deve às experiências diferenciadoras que ali oferecem. Além das habituais, que de alguma forma necessitam de ter sempre disponíveis, são as menos convencionais que verdadeiramente distinguem os seus serviços. Os hóspedes que escolhem este local podem assim usufruir por exemplo, da Polaris Experience – que nasce obviamente da sua paixão pelas corridas – do Sunset Camionete, que inclui um passeio pelas vinhas ao pôr do sol, com muita música, numa camionete dos anos 60 transformada com bancos e mantas, dos Secret Spots, que são camas de madeira recicladas colocadas estrategicamente em sítios escondidos no meio da natureza, e a lista continua. 

Não é por isto de estranhar que tenham clientes que se foram tornando amigos e que tenham um nível de 65% de hóspedes fidelizados, que vêm 1 a 5 vezes por ano. Paulo partilha connosco, que a explicação para esse facto se prende com poderem identificar 5 registos diferentes em que as pessoas escolhem as Casas do Côro. Na primeira vez vêm sozinhos, na segunda com os filhos, na terceira com casais amigos, na quarta através de ações de team-building e finalmente para festas de família. Aqui as pessoas, além de encontrarem um sítio onde se sentem bem, conseguem adaptá-lo a todos estes moods. 
Hoje, a vida de Paulo e Carmen é meio nómada, entre a Guarda, Marialva e as muitas viagens, que apenas com a pandemia se viram obrigados a colocar em pausa. Mas é nas Casas do Côro, em Marialva, e totalmente embrenhados em todas as operações, que são realmente felizes. Quando amigos e pessoas próximas os questionam sobre como conseguem aguentar este ritmo alucinante de trabalho, eles conseguem facilmente explicá-lo pela grande paixão com que o fazem, o que faz com que nunca se cansem, ao mesmo tempo que se sentem sempre de energias no máximo. Sempre acreditámos no território e foi por isso que sempre ficámos. Quando estamos fora percebemos que é aqui que está o nosso equilíbrio e não é por acaso que o nosso slogan é “Life is here at Casas do Côro”. A vida aqui tem um encanto diferente porque é possível viver com muita tranquilidade e qualidade aqui.

Isabel Costa, Burel Factory

Foi numa manhã de sol, já perto da hora do almoço, que chegámos a Manteigas, mais especificamente às imediações da Burel Factory, situada bem no alto da vila, abraçada pela Serra e com o som da água a correr por detrás do edifício como pano de fundo. Enquanto esperávamos pela Isabel, responsável pelo projeto, à entrada da fábrica, éramos já inundados pelos muitos barulhos das máquinas que ali nos chegavam e por uma infinidade de cores e tecidos que conseguíamos ir espreitando. À nossa volta estava já um pequeno grupo de pessoas, que aguardava por uma das visitas guiadas que ali decorrem diariamente. Enquanto ali deambulamos, despertados pelos vários estímulos que nos chegavam, aparece a Isabel. Decidimos começar pela visita e só depois passar para a conversa, e foi assim que inaugurámos o nosso périplo.

Para que comecemos de facto pelo início, temos de começar pela Casa das Penhas Douradas. Isabel e o seu marido João são dois exploradores de montanha, apaixonados pela serra e pela natureza e foi essa paixão partilhada que os trouxe até aqui em 2001, fugindo do caos de Lisboa. Esse hotel que hoje conhecemos por “Casa das Penhas Douradas” é um antigo sanatório que nasceu como consequência da Expedição de 1881 levada a cabo por Sousa Martins, e que em 2006 pelas mãos deste casal se tornou num incrível hotel, remodelado com materiais naturais e linhas simples, com toques de cor tecidas pelo burel. Foi também na consequência deste primeiro projeto, que veio a nascer aquele de que hoje nos fala, a Burel Factory, em 2012. 

Foi em 1947 que surgiu a Lanifícios Império, a fábrica de lãs mais importante da região, e lugar onde hoje nos encontramos. Quando o casal descobriu este espaço, o mesmo encontrava-se em processo de insolvência e os teares que continha no seu interior, destinados a ir para a sucata para serem derretidos em ferro. Começámos então um processo de recuperação de património industrial, imaterial no conhecimento. Foi assim que nasceu a marca Burel. Nós reposicionámos o burel, pensando no que nos podia dar a montanha, e o que mais nos pode dar é a lã, um produto que está ligado a uma tradição que não podíamos deixar morrer. Este projeto começa em 2010 e os primeiros produtos que começaram por criar foram essencialmente de decoração e arquitetura de interiores: revestimentos, tapetes, tectos, etc. O grande empurrão, como Isabel lhe chama, foi o projeto da sede da Microsoft, para o qual desenvolveram o revestimento dos novos escritórios em Lisboa. Hoje o trabalho já vai muito além da decoração e passa também pela moda, calçado, malas, vestuário, e claro, as famosas mantecas

A fábrica conta no momento com 38 funcionários, mas a empresa chega aos 45, juntando a Casa das Penhas Douradas e a Casa de São Lourenço, um segundo hotel datado de 1948 a que decidiram dar uma nova vida, falamos de mais de 100 colaboradores, o que no universo da vila é um número bastante considerável. Há uma economia que nos rodeia em todos os serviços que são necessários que é importantíssima. São ciclos positivos. O que nós queríamos fazer na altura e que está a ser feito agora é criar um ciclo positivo de crescimento. Para Isabel estes projetos são sempre projetos de pessoas e de equipas e para este em concreto, reforça o papel imprescindível de Zé Luís, diretor da fábrica, mestre, e alguém que desde criança está ligado a este ofício. 

Isabel é de Trás-os-Montes, mas parte da sua vida foi dividida entre Lisboa e o Porto. Formou-se em Biotecnologia e trabalhava na Sonae quando percebeu que as responsabilidades da função que desempenhava eram incompatíveis com o que era necessário para fazer isto acontecer. Todo o processo envolve um grande esforço tanto em território nacional como internacional, de envolvimento com a comunidade em si, mas também com as faculdades, e de tudo o que envolve a comercialização, a distribuição e a comunicação da marca. Hoje em dia, embora veja este lugar como a sua casa, continua a desdobrar-se entre Lisboa e o Porto também, onde tem as lojas. As maiores deslocações acabam por ser mesmo para Lisboa, onde a equipa é maior, acumulando as áreas de marketing, design gráfico e comunicação, e onde mantém a sua casa e moram os seus filhos. As pessoas estão num sítio e estão no outro, é tão normal nos dias de hoje. 

Durante toda a conversa, foi notória a forma como a Isabel assume a importância de valorizar todas as tradições que estão envolvidas neste projeto, mas na mesma medida, a forma como o seu renascimento é gerador de um sem fim de ciclos positivos, cujos resultados são visíveis nos mais diversos setores. O que foi igualmente claro, foi a sua enorme vontade de ir mais longe, principalmente pela ausência de limites que coloca à imaginação, à inovação e à criatividade neste mundo do burel. Não é por isso de estranhar que ainda o chame de “projeto” – quase 10 anos depois – tais são os sonhos que ainda tem para ele. A minha missão aqui é por paixão. Trabalhar no Centro dá vida, e a parte mais importante para mim é dar vida a uma comunidade, fazer parte dela, ver que se contribui e o impacto que isso tem no seu desenvolvimento. Claramente a pandemia veio mostrar que não é preciso viver-se numa cidade e que é importante recuperar o património que temos e viver nele.

Ana Paula Almeida, New Hand Lab

O primeiro som que nos acolhe à chegada é o da força da água a correr da Ribeira da Carpinteira, exatamente nas costas do espaço New Hand Lab. Quem nos abre as portas é a Ana Paula Almeida, autora têxtil e um dos principais rostos por detrás deste projeto. Ana Paula casou com Francisco Afonso, atual proprietário deste espaço, e com esse casamento surge também este lugar e este projeto, a que carinhosamente chamam de filho. Fomos até ao seu atelier e o primeiro impacto é o de sermos inundados pela cor e pela diversidade dos materiais, o que traz a certeza de que aquele é um espaço de criação por natureza. Sentamo-nos confortavelmente num pequeno círculo e é aí que começamos a nossa conversa, apenas com o percurso da água lá fora como banda sonora. 

Esta fábrica foi construída sobre outra fábrica do século XVII e escavações puseram a descoberto aquela que será, provavelmente, a primeira manufatura de lã do país. A criação desta fábrica de lanifícios onde hoje nos encontramos remonta a 1853 pela mão de António Estrela, nome pela qual viria a ficar para sempre conhecida, mas é apenas em 1953 que Júlio Afonso, sogro de Ana Paula, começa a sua exploração, que se manteria de forma ininterrupta até 2002. Nesse ano a fábrica contava com apenas 40 empregados, mas Ana Paula explica-nos que nos seus tempos áureos eram mais de 300 a trabalhar em três turnos. Júlio Afonso foi distinguido com o prémio “Brilliant Pen 1976”, atribuído pelo Men’s Fashion Writers International, pela qualidade do seu trabalho e design, e viria a ser uma figura incontornável desta indústria enquanto debuxador e criativo.

Após vários anos fechados, em que continuaram a viver por cima da fábrica, por onde muitas vezes deambulavam, começou a surgir a certeza de que teriam de fazer algo que pudesse dar vida àquele espaço e acima de tudo homenagear a figura do pai de Francisco. Juntamente com esta vontade, surge também o repto por parte do Turismo do Centro, visto aquela fábrica representar uma parte tão importante da identidade da Covilhã. Por força dessas várias circunstâncias, a New Hand Lab ganha uma nova vida a 29 de junho de 2013, e as suas portas voltam finalmente a abrir-se. Os espaços só se mantêm vivos se tiverem gente. Podem ser muito bonitos, muito inspiradores, só que sem gente não há alegria nos espaços. Ana Paula conta-nos que, na escolha do nome, tiveram o cuidado de pensar o mercado externo, daí terem optado por ser em inglês, e que adicionalmente quiseram aliar três conceitos chave, o facto de ser um espaço novo por ir ali nascer algo diferente, as mãos ligadas a todos os trabalhos manuais, e o laboratório enquanto espaço de criação e de invenção. 

A Ana Paula nunca esteve diretamente ligada às artes, sendo a sua formação em Engenharia de materiais fibrosos, mas sempre foi uma pessoa curiosa e irrequieta, eu sempre tive algum jeito de mãos, sou de uma geração que aprendia na escola lavoures, dos quais eu não gostava, mas aos 8 anos comecei a aprender a fazer tricot e crochet e gostava, mas grande parte  da minha aprendizagem vem só desde que me liguei a esta família. Hoje, alia a sua profissão enquanto professora na Universidade da Beira Interior, no departamento de Química, com o trabalho que desenvolve na fábrica, durmo pouco mas sou muito feliz. Também não tenho filhos, mas o nosso filho é este que vocês vão ver. A quantidade infindável de matérias primas que sobrevivem na fábrica, e que segundo nos conta durariam para várias vidas, fez com que rapidamente colocasse mãos à obra. Começou por criar uma série de bonecos a que chamou de “Petrus” e foi trilhando o seu caminho enquanto autora têxtil, estando hoje envolvida num projeto de candeeiros, que orgulhosamente nos mostra. Uma das minhas principais preocupações é a de reutilizar e dar um valor acrescentado, aproveitar tudo, não deitar nada fora.

Desde a sua abertura em 2013, o New Hand Lab passou a receber não só visitantes como autores. O estilista de moda Miguel Gigante foi alguém que esteve envolvido no projeto desde esse primeiro momento, mas ao longo dos anos foram inúmeros os autores que ali foram passando, desde bandas de jazz a pintores, designers gráficos ou fotógrafos. Hoje, é um espaço aberto a residências artísticas, realização de workshops, mas também uma espécie de galeria, onde se podem ver diferentes peças e instalações (muitas delas com recurso a materiais que restaram da fábrica), mas também espetáculos de música, teatro ou ballet. Esta combinação de artes e talentos faz com que ali já tenham nascido momentos únicos, como um concerto onde os protagonistas foram um tear, um violino e um violoncelo. 

Hoje, é a Fábrica António Estrela / Júlio Afonso quem dá o corpo ao New Hand Lab  enquanto espaço de expressão livre e criativa e pólo agregador de artes e talentos. Ana Paula conta-nos que enquanto professora o confinamento não foi bom, mas que enquanto autora foi ótimo. Fez vários cursos online, aprendeu novas técnicas para trabalhar os fios e percebeu que a paixão que lhe vai crescendo por estas criações é tal que não existe sequer a sensação de cansaço, que, pelo contrário, o difícil se torna perceber quando deve deixar a fábrica, subir até sua casa e dormir.
Quando a questionamos sobre a possibilidade de viver noutro lugar, experiência que teve apenas início da sua carreira, confessa que é algo que, nos dias de hoje, não consegue imaginar. Viver em cidades de pequena dimensão como a Covilhã permite-me demorar cinco minutos para chegar à universidade. A gestão de tempo é muito importante e quem vive aqui consegue gerir melhor o tempo, criar melhor, trabalhar melhor. Adoro ir a Lisboa ou ao Porto, e adoro o mar, mas gosto de ir e voltar para a Serra, para esta proteção da montanha.

Andreia Proença, Farfetch

Foi num dia frio e chuvoso que seguimos viagem até à freguesia de Videmonte, parte do município da Guarda, lugar onde se situa o ponto mais alto do concelho, atravessada pelo Rio Mondego, em pleno coração da Serra da Estrela. A primeira imagem e a que mais impacta quem ali chega é a arquitetura comum à grande maioria das casas, construídas com blocos de granito e perfeitamente integradas no cenário de natureza que as rodeia. Debaixo de um guarda-chuva colorido, chega a Andreia, de sorriso rasgado, pronta para nos receber. A chuva impossibilitou que pudéssemos conversar ao ar livre, e seguimos com ela até à casa da sua avó, que nos conta ter sido construída pelo seu pai, e é aí que confortavelmente nos sentamos, abrigados do frio que se fazia sentir, e prontos para conhecer o porquê de ter escolhido viver e trabalhar ali.

Filha de pais emigrantes, Andreia, hoje com 26 anos, nasceu na Suíça. Após o seu nascimento e por motivos familiares, os pais decidem regressar a Videmonte e recomeçar ali a sua vida. Andreia era ainda tão pequena quando se deu essa mudança que não se lembra sequer de outra realidade que não a que conheceu em Videmonte. Apaixonada pelas matemáticas, quando chegou o momento de seguir para o ensino superior acabou por se decidir pela Engenharia Industrial, e foi apenas nesse momento que deixou Videmonte e foi estudar e viver para o Porto. Foi lá que fez a sua licenciatura e também o mestrado, tendo saído apenas para uma experiência de Erasmus na Bélgica. Sempre gostei muito de estar aqui e isso fez com que, mesmo quando estava no Porto, sentisse a necessidade de vir cá pelo menos dois fins de semana por mês. Vinha de autocarro e a viagem era longa e aborrecida, sendo que os meus pais ainda tinham de me ir buscar à Guarda, a 20 km daqui. Mas essas vindas eram mesmo uma necessidade para mim, o que compensava sempre o cansaço das viagens. 

Quando terminou a faculdade, começou um estágio curricular na Sonae, ocupando mais 2 posições na área de IT. Procurando outros projetos aliciantes, decidiu concorrer para outras empresas, e foi dessa forma que acabou por entrar na Farfetch enquanto gestora de produto. As funções que começou por desempenhar, e às quais continua dedicada ainda hoje, fazem com que seja uma espécie de ponte entre as equipas de desenvolvimento e o próprio interesse do cliente. O timing em que inicia este trabalho faz com que o mesmo, apenas dois meses após ter começado, em janeiro de 2020, culmine com o início da pandemia. Com a chegada do confinamento, assume que foi uma decisão fácil regressar a Videmonte, embora considerasse nesse momento que seria algo meramente temporário. Contudo, um ano e meio depois, é em Videmonte que continua a viver e a trabalhar. Nesta fase, estando já há tanto tempo a viver novamente com os pais, e não sabendo como será o futuro, planeia mudar-se para a casa onde hoje nos recebe, para poder voltar a ter alguma independência, de que já começa a sentir falta. 

Com este regresso a Videmonte, o seu dia-a-dia sofreu obrigatoriamente algumas modificações. Hoje em dia, além do horário habitual de trabalho, faz yoga três vezes por semana, uma atividade oferecida pela própria empresa, e que partilha ter sido uma descoberta incrível, e ao final do dia vai sempre dar um passeio com paragem obrigatória em casa dos avós. Aproveita também o seu tempo livre para ajudar o pai no seu negócio recentemente criado, ligado ao fabrico de pão, biscoitos e infusões, apoiando não só na gestão das redes sociais, mas também na criação de novas embalagens. Negócio esse que começou quase por brincadeira, após ter ficado desempregado e aquando do “Festival Pão Nosso”, um festival que integra o ciclo de Festivais de Cultura Popular do Concelho da Guarda. Confessa-nos também estar ansiosa pela chegada do verão, onde Videmonte ganha novas dinâmicas, e quando poderá finalmente voltar à Praia Fluvial da Quinta da Taberna, um dos seus lugares preferidos. 

Sentindo falta de alguma socialização, Andreia aguarda que as obras no futuro espaço de coworking que ali será criado terminem, para que mude o seu escritório para este novo espaço. Foi sob esse mote que seguimos até lá, já que o mesmo se situava a escassos metros da casa onde nos recebeu. É a Associação de Desenvolvimento Integrado da Rede das Aldeias de Montanha, em parceria com as Juntas de Freguesias, quem está por detrás da criação deste espaço de coworking, que se juntará a outros dois, um em Alvoco das Várzeas e outro na Lapa dos Dinheiros. A conceção e o design destes espaços tem subjacente os princípios da economia circular por via da valorização do território, a promoção do ‘saber-fazer’ e o envolvimento das comunidades locais na sua materialização.

Tenho saudades da vida no Porto, mas a verdade é que me sinto muito bem aqui. É incrível a ausência de trânsito, o poder estar tão próxima dos meus familiares e outras coisas novas que vão surgindo, como ter começado a aprender tricô com uma senhora aqui da aldeia, coisas que dificilmente aconteceriam em qualquer outro lugar.