Histórias | Capítulo II Médio Tejo

Andreas Frank, Offício

Existe uma beleza intemporal – provavelmente advinda do seu passado templário – que é ali ainda hoje tão presente, que faz da Rua Serpa Pinto, eternamente conhecida como Corredoura, um lugar especial. Morada de lugares icónicos, como o centenário “Café Paraíso”, mas também e acima de tudo, lugar de passagem diária e constante, de encontros e de reencontros. Foi aqui, em pleno coração da cidade de Tomar, que fomos encontrar o Offício, um espaço de coworking criado por Andreas Frank, o nosso anfitrião para esta conversa.

Andreas é natural de uma pequena vila na Alemanha, mas foi em Munique que viveu nos últimos anos antes de se mudar para Portugal. Como muitas vezes acontece, foi o amor que lhe criou a primeira ligação ao nosso país, estando hoje casado com uma portuguesa que conheceu quando ainda vivia na Alemanha. Foi no momento em que começaram a pensar em constituir família, que se tornou evidente para ambos que não queriam fazê-lo numa cidade grande, especialmente uma cidade como Munique. Sendo que a ideia de procurarem uma casa nos subúrbios não se afigurava atrativa, a opção que se tornava ideal de forma cada vez mais consistente era mesmo a mudança para Portugal, e assim foi. Fizeram as malas, deixaram o apartamento que partilhavam em Munique e deram início a um novo capítulo na aldeia de Lamarosa, no concelho de Torres Novas. 

A região centro foi a primeira escolha por serem essas as raízes da sua esposa Andreia Granada, e também por ali poderem estar mais perto da família, contudo, hoje em dia sentem que não faria sentido terem escolhido outro lugar. Há 5 anos quando descobriram a casa onde hoje vivem, rapidamente se apaixonaram pelo seu potencial. Andreas trabalha enquanto jornalista freelancer, dedicado a artigos sobre casas inteligentes e formas de usar a energia de forma mais eficiente, e a sua esposa trabalha por conta própria, e neste sentido, ambos estavam habituados ao conceito de coworking. Foi por isso um passo natural a busca por esse tipo de oferta. Andreas chegou a experimentar dois destes espaços, mas deparou-se com o mesmo problema em todos eles. Por um lado não serem pet-friendly, e por outro não terem o espírito que ele procura, ou seja, não promoverem a interação entre pessoas de diferentes áreas.

A escolha acabou por recair sobre a cidade de Tomar, por ser uma das principais cidades próximas da vila e por ter ali a universidade, mas também por terem encontrado este espaço que lhes pareceu perfeito, principalmente pela sua localização tão central. Foi assim que em 2020 abriram portas, após renovarem a estrutura deste edifício histórico, de tetos altos, com as próprias mãos, e também com a ajuda da família. O aparecimento da pandemia acabou por tornar todo este processo bastante mais lento do que seria suposto, com muitos avanços e recuos, e só na primavera deste ano é que conseguiram de facto usufruir dele com alguma normalidade. Hoje é a sua cadela Lotta que nos recebe assim que aqui entramos, e Andreas parece ter finalmente encontrado o espaço em que sempre sonhou poder trabalhar. Gosto da ideia de não existirem muitos lugares permanentes aqui, mesmo que certas pessoas venham várias vezes por semana, usam quase sempre mesas diferentes e assim cria-se uma mistura interessante e muito dinâmica, e conhecem-se muitas pessoas. Não me assumo como um patrão aqui, quero que todas as pessoas participem nas decisões relativas ao espaço. 

Por estarmos em Agosto, Andreas partilha que acontece ali um fenómeno interessante, em que muitas famílias imigrantes, principalmente vindas de França, ao regressarem para visitar a família, chegam ao seu espaço para poderem trabalhar, enquanto deixam os filhos com os avós. Por outro lado, existem também pessoas que chegam ali de tantos outros sítios como a Ucrânia ou a Polónia. As parcerias recentes com algumas instituições locais, também têm trazido a possibilidade de receber ali equipas de start-ups locais, trazendo mais pessoas da própria cidade até este espaço. O facto de estarem situados na Corredoura também faz com que muitas pessoas descubram o espaço quando ali passam e por curiosidade o decidam conhecer. 

Embora o Offício ocupe uma grande fatia do seu dia a dia, Andreas privilegia muito o tempo passado em casa, principalmente no jardim com a sua esposa e os seus dois filhos, onde só encontra mesmo um problema, aqui fica mesmo muito quente no verão, essa é a única desvantagem, diz entre risos. Por outro lado sente dificuldade em enumerar as vantagens que encontra em viver no centro do país, mas destaca o ritmo muito menos acelerado do que aquele em que vivia em Munique, a natureza, o custo de vida bastante mais baixo, a proximidade com Lisboa e a boa oferta de transportes. Em relação aos portugueses, inveja a sua forma de viver ao estilo go with the flow, a constante disponibilidade para ajudar o outro e o facto de serem naturalmente amigáveis. Não sabe se o futuro será para sempre por estas paragens, porque a verdade é que o medo da mudança se perde depois da primeira transição, mas nesta fase é aqui que se imagina a viver, este é sem dúvida um sítio muito bom para as crianças crescerem.